Friday, July 04, 2008

Acontece nos tempos de muita chuva. Os marinheiros do silêncio.

Pela água, pela corrente fina, vêm perseguindo o som agudo e pequeno dos pulmões. Perseguem cada pedaço do corpo, dos ouvidos, a respiração lenta e fatídica. Por que não me espera a noite sentar e aproveitar alguns minutos de pensamento? Os marinheiros do silêncio, armados de trompetes e buzinas alertam para um estado de calamidade pública, um certo ar de enchentes. Na rua, peço um algodão doce, cubro a boca com a mão. Aos poucos, vou afundando até ficar com os olhos para fora da água; o resto do corpo mergulhado na água escura, gelada e misteriosa. Vou afundando, esperando uma besta marítima qualquer me devorar as pernas, o tronco e toda a porcaria.

Há dois instantes. Eu tento agarrar o vazio. A matéria. Eu tento assoprar um cata-vento como criança colorida. Eu tento fazer o tudoir à direção contrária só para deixar seu rosto livre de falsas correntes. Existem, pelo menos, duas ou três gotas de agua por dentro e fora. Eu, dentro, afogando-me em desespero e idéias semiconscientes de loucura e pseudopaixões. Não digo nunca a que vim. Desperto certos sentimentos inócuos e pouco obstinados que, breves, são seguidos pela sensação indiferente e asquerosa do temor.


Acontece sempre nos tempos de muita chuva. Os marinheiros do silencio a resgatar-me em nuvens roxeadas, pouco cinzas. Como faço há tempos, tenho impressões de dias chuvosos guardadas na memória e as uso sempre que posso. Sou tragado pelo feliz, pelo mordaz e pela ferocidade com a qual meu corpo sente tudo e dissolve tudo em forma de vento colorido.

Acontece nos tempos de muita chuva. Os olhos encharcados de honestidade. O meu olhar de encontro com uma guerra futura.
Vem do fundo do mar para lembrar que é no silencio, na mudez e na falta do que falar que podemos
enfim
dizer:

1 comment:

Luiz Zonzini said...

e você escreveu algo com o tal título...