Sunday, November 01, 2009

Apenas.

Adoramos o tempo. Adoradores do etéreo, daquele vazio em que tudo pode, mesmo que por instantes, pequenos instantes. Adoramos como as passagens são rápidas e quase imperceptíveis. A concomitância entre o ser e o estar. As representações do mundo quase como um significado para todas as questões da existência. Esse é o derradeiro momento das coisas. Adoramos o tempo.

Já houve momentos em que contar a idade era quase um levantamento matemático. Hoje, é ato de coragem. Ser aquilo que o tempo formou. Ser a soma da experiência com o tempo. Mesmo as subtrações específicas, aquelas que apagamos no poder da memória, são contabilizadas no balanço geral. Se pudéssemos, o tempo não passaria jamais daqueles instantes de felicidade. Mas é fato que nada dura para sempre. Sejam os sorrisos, os desejos, as promessas ou mesmo aqueles doces discursos do viver para sempre. Os planso nem sempre possíveis. Existir é o cálculo. Existir são todas as somas. Indo sempre para a direção do maior e do melhor. Adoramos o tempo. Ele quem traz as marcas no corpo, tatuagens naturais para lembrarmos o quanto se é possível sobreviver ao mundo. Dores, despedidas, partidas, família, beijos, paixões, amores. O resultado vai ficando nos cantos escondidos de cada um. Nosso tempo particular para processar o que é que a vida nos ofereceu ao longo do andar. E pode parecer pouco mesmo, mas como na matemática, quanto menor o número do resultado, maior foi a soma. Eu penso nisso.

Nos anos que atravessei e não vi. Nos momentos em que tudo parecia uma grande mentira. Nas duras palavras que ouvi. Nas manias que adquiri para sobreviver. Nos amores que eu tive. Nos beijos estranhos. No sexo sem fundamento. Nos momentos felizes. No vício. Nas noites e nos dias. Nos erros que cometi e não sabia. Eu penso em como aquilo que eu mais queria eu não podia ter. Todos os tapas na cara, todas as puxadas de orelha e todos aqueles que se foram ou que eu deixei partir. Adoramos esse tempo.

O tempo que parece apagar tudo. O tempo que conserta erros, ajusta o presente e dá continuidade para o futuro. E mesmo não gostando, é uma data para se entender os pesados anos que se passaram. De batalhas, lutas, mortes e decepções. Nunca o tempo se encostou. Parece realmente pouco. Ou por muito tempo achei que era pouco. Mas é fato, quando ela diz que nada disso foi pouco. Mas para toda história, como apontou Aristóteles, existe o ponto de quebra. Aquilo que separa a dor da vitória. O herói diante do seu confronto. Sem imitações, essa é a vida que construi com o tempo. tijolo por tijolo. E até mesmo ele, narciso, adora a si próprio. O tempo.

Adoramos esse tempo. A soma. A felicidade e a dor andando juntas, cada uma de um lado da via. Adoramos como tudo parece uma agulha e linha: a grande malha de retalhos. É esse o tempo. Tudo recomeça, termina, inicia.

Adoramos o tempo. Apenas 28 anos.

Tuesday, October 20, 2009

um dia.

E quando perguntarem, ninguém saberá a resposta. Dos tempos estranhos, desdobrados em milhares de pequenos instantes. Rápidos, apressados e quase desapercebidos. Do tempo, ninguém saberá o que responder. Tudo em um instante. O gatilho da memória. Aqueles mesmos mistérios do corpo que fazem da alma apenas uma fração de segundo. E quando perguntarem do tempo ou das histórias, tudo poderá ser uma ficção. Essa mania de negar e reler os mesmos pensamentos. Um único dia, uma única forma de vida. Os passageiros apressados, desmascarando o desejo como se fossem artistas daquela peça mal ensaiada por todos. E dele mesmo, do tempo, não saberemos quando, quanto e onde. Respostas inócuas, espaços vazios para um dia virarem memórias.

E quando perguntarem, ninguém saberá a resposta. Se tudo não passou de um velho truque de magia ou se aquilo era a realidade. Do tempo, da resposta, dos momentos e da velha interrgoção:

Tuesday, October 06, 2009

nu e cru

Eu andei pensando.
Pensei nos medos que vim sentindo. Nos caminhos errados. Nas vozes que ouço e não reconheço. No tempo. No tempo como sucessor da imortalidade. Pensei na matéria e na filosofia. Nas gotas que caem do céu. Pensei o quanto tudo é vagaroso. Os dias quentes, os dias frios, os dias bons e os ruins. Essa história toda de contar contos infinitos do amor e do ódio. Essa transformação do corpo. Eu andei pensando em tudo. Na grande soma de todos os medos e nos lapsos de felicidade que acompanham os sorrisos esporádicos. É só uma maneira de expor a vida.

Eu andei pensando nela e na falta que ela faz. Eu nem percebo.São os momentos inesperados, ou partes de momentos em que ela estaria perto. Nos carinhos que ela costumava me dar, mesmo quando eu não pedi. No jeito de cozinhar aos domingos. O tempo, curto, em que ela foi feliz, sorrindo nos shows, indo ao cinema, lendo um livro que eu havia deixado jogado em cima da cama. Andei pensando o quanto eu sou parte dela. Isso eu nunca vou conseguir me livrar. As madrugadas em que eu acordava e a via na sala fumando um cigarro. Andei pensando em como tudo foi rápido demais e eu não percebi. Lembrei daquela tarde e da semana anterior. Eu estava tão distante. Lembrei o quanto, hoje, eu queria poder contar e deitar no colo dela.

Os pensamento, todos eles, acompanhados de dias bons e dias ruins. Esse mover de coisas que eu faço só para não me distrair. Os segundos contados, as horas intermináveis. As vezes, os dias parecem não acabar. Será que faz tanto tempo assim? E me entristece quando eu tento lembrar, e não consigo mais saber como era o rosto dela. As recordações, como me disseram, viraram a saudade. Será isso viver em tempos mortos? Essa busca constante para preencher um espaço, um vácuo tão grande que nem mesmo eu consigo calcular.

Tudo isso junto. Assumindo a saudade. A conclusão de que no fundo, ninguém é forte o suficiente. Eu mesmo que me imaginei um dia corajoso. Não há força para se controlar uma saudade. Não há força para os dias ruins.

Nesses dias, só mesmo ela, só ela, conseguiria me fazer sorrir.

Wednesday, September 23, 2009

You live, you learn

Eu tive braços. Eu tive mãos. Tive pernas e pés. Tive os olhos, a boca, o nariz e o ouvido. Tive a ponta dos dedos. Tinhas unhas e digitais. Tive as costas. Tive o cérebro. Mantive meu coração. Silenciei minha voz. Troquei meu peito e experimentei o estômago. Senti pelos fios de cabelo, pelas narinas, pelos poros abertos. Eu tive as dores. Tive os sonhos em bolhas de sabão. Tive o prazer e o desamor.
Eu tive os braços feitos para segurar o seu corpo. Tive as mãos nos seus cabelos. Tive as pernas e os pés encostados no seu caminhar. Tive os olhos dentro do seu mundo, a boca beijando a sua, o nariz no seu cheiro e o ouvido para sua voz. Tive a ponta dos dedos presas em suas mãos. As unhas arranhando suas costas e as digitais provando que eu era seu. Tive as costas para carregar o mundo, o nosso mundo. Mantive meu coração para contar as horas em que não estive ao seu lado. Experimentei as dores do estômago.
Eu tive os braços para voar sempre que preciso dentro e fora de você. Eu mantive meu coração, ardendo, calado. Eu mantive tudo.
Inclusive, você, em tudo que sou.

Monday, September 21, 2009

Setembro.

Nunca setembro demorou tanto para passar. Vagaroso, eu diria. Os dias tão instáveis, presos e seguros por um único fio, fino e delicado. E tudo isso pela sinceridade de deixar de lado os motivos para sorrir, deixar de lado os olhares, o corpo, as formas de diversão. Tudo colocado na espera. Nunca tudo isso demorou tanto para passar. Esse ceticismo em não acreditar em nada e o o orgulho que deixou de ser passageiro. Os longos chuviscos do inverno nada frio, sem mãos no bolso, somente o recolhimento necessário. Nunca em setembro tudo ficou tão sem sentido, como agora. Os passos largos, a pressa de acordar e a ansiedade em dormir.
Como se mede um caminho quando não conseguimos ver o fim? As pessoas ao redor, os carros passando apressados, os faróis verdes, vermelhos, pontos, pessoas, casacos, calçadas e fachadas. E mesmo as coincidências parecem ter se perdido nas entrelinhas de tantos pensamentos entorpecidos. Vozes e cores, música para deitar.
Depois disso, acho que nunca nada será igual.
Ainda assim, setembro nunca demorou tanto para passar.

Sunday, August 30, 2009

Frias almas

Seria a redenção a melhor forma literária de se construir o personagem principal? Dos filmes pragmáticos, dos escritos antigos, das formas mais variadas de se descrever o encontro da vida com a realidade. Com tudo isso, seria possível que a redenção fosse a melhor escolha? Render-se ao temor das religiões, render-se à deus, ao paraíso e à moral como a arqueologia perfeita na construções da sociedade. Sociedade interna, dona dos nossos segredos indiziveis que estão colados ao espírito como se fossem um só. Essa mesma dona, senhora do mundo obscuro em que habitamos na solidão do dia-a-dia. Sim, a consciência de que somos capazes de ter. Esse lugar, velado, selado que vez ou outra nos assombra nas mais variadas formas. Dar lugar ao saber e ao conhecimento de si próprio. Como pode a alma ser uma essência pura? Será que é nela que reside a nossa ingenuidade, nossa inocência e ao mesmo tempo o nosso pior. Não é sequer uma prerrogativa. Isso tudo que não entendemos.

Na antiguidade, diziam, ser o fígado o resposável pela nossa natureza; No romantismo, nos voltamos ao coração e sua engenhosidade como símbolo de vida e pulsão. E não seria de se estranhar que no mundo contemporâneo o cérebro fosse o órgão a ditar as regras da nossa vida. Mas a dissociação dele com a nossa alma, com o nosso espírito ainda reside no plano das suposições. Como se render ao fato de que somos compostos pela ciência e pela imaterialidade? Esse cérebro que nos é tão estranho e ao mesmo tempo tão intrínsico ao nosso viver, nos faz questionar a grande interrogação de "quem somos e do que somos feitos?". Essa nossa "alma" comandando tudo o que somos. Feitos de consciência, consciência tardia e não muito evoluída. Essa consciência egoísta que nos traí, nos deixa à deriva, presos na beira do penhasco.

Seria essa a redenção para todas as questões? Quer dizer, ser a alma a guardadora de todos os nossos segredos, de todas as indagações. Quem somos, o que sou, por que faço e para onde vou. Se existe essa linha tênue entre o nosso cérebro-comandante e a nossa alma mais romântica, seria a consciência uma simples mediadora entre esses dois mundos? Mundos negados, mundos religiosos, científicos e tão irreais?

Seria a redenção a melhor forma de se terminar um texto? Viver a vida dos outros, ao invés da nossa, é render-se ao mais perfeito altruísmo humano? Para onde se vão os olhos nessa redenção?

Para onde se foram os meus?

Monday, August 10, 2009

Agosto

Isso eu nunca vou saber. Do que é feito um abraço desse jeito ou como deve ser um conselho dele. Nunca vou entender tantos motivos e tantas desavenças. Das broncas que nunca levei, dos passeios aos domingos em que nunca fui, das conversas e do jeito de acreditar em mim. Nunca vou saber do que é feito esse amor. Tive dela, o amor dos dois. Tive dela as broncas e os passeios. Os conselhos sempre racionais e a delícia de ser abraçado. Dele, ficou faltando muito. Dele faltou tudo. Nos momentos mais tristes, na ausência dela e no caminhar. Nunca saberei o que é desabafar, falar de como, às vezes , eu detesto o meu trabalho e dos meus amores impossíveis. Ele que nunca se manifestou e eu que fui obrigado a me reconciliar com uma história que eu nunca tive. Isso eu nunca vou saber. A delícia de sentir-se filho. A delícia de ser abraçado e amado por ele ou mesmo um carinho com as mãos fortes que eu herdei. Os passeios de bicicleta, as brincadeiras mais bobas e até mesmo os péssimos hábitos adquiridos. Dele, só as lembranças que me esforço para esquecer.

Isso eu nunca vou saber. Se tem explicação, se é só o jeito que as coisas são. Dele que herdei as mãos e o queixo dividido.
Mas procurei muito dele em todos os lugares. Procurei em mim. Procurei em braços estranhos. E ficou só isso. O espaço vazio que ele deixou e minha adoração por mãos. Talvez um dia eu saiba o que é ser, mesmo não tendo recebido.
Isso eu nunca vou saber.

Dele, nunca saberei o porquê de tanto desamor, tanta resistência e tanta amargura. Dele eu nunca vou ouvir. E ainda assim, desejei ontem, no escuro do meu inconsciente um feliz dia dos pais.

Friday, August 07, 2009

Michel Foucault

É tudo uma questão de castigo. Em casa, na rua ou em qualquer outro lugar. Vigiar e punir. É tudo uma questão de entender e estender o poder. Esse mesmo poder que agora se instituiu a todos e para todos. Nessa hierarquia mal construída, todos temos micro-poderes. Vigiar e ter a sensação de que se pode, mesmo que pouco. Denunciar, delatar, servir ao modelo maior da moral. E a boca, aposto, saliva naqueles que se dizem sargentos da sociedade. E voltamos à nossa querida infância onde a malcriação era severamente punida. Mas ai, vêm os guardiões da moral dizer que é uma questão de saúde pública. É, a saúde pública em um país, seja da ordem que for, da classe que for é, de fato, uma preocupação social. Especialmente aqui em que as regiões carentes se encontram em estado de plena miséria, é de fato questão de saúde pública proibir o fumo em locais fechados. É tudo uma questão de castigo. Se ninguém quis parar de fumar - o pai avisou - a solução foi proibir. Não tenho como me sentir mais criança. Como aquela criança sentada na porta da casa, com a mãe na cozinha fervendo a água para misturar à farinha e fazer o que eles entendem por comida. E claro, essa água era para durar a semana inteira, mas a fome falou mais alto. É uma questão de saúde pública que não temos memória política.

É tudo uma questão de castigo. Outro dia, li no jornal o presidente pouco se lixando para o que está acontecendo em seu governo. Virei a página e veio outra notícia falando sobre um casal de homens que foram espancados na porta de casa. No outro caderno, saltou-me aos olhos a notícia de que a bancada do PMDB tentará arquivar hoje os sete processos que restam contra Sarney no conselho. No mesmo caderno, um depoimento chocante a respeito das novas descobertas do colesterol. E a carta de uma mãe enviada à colunista especialista em comportamento e sexo, dizendo que manteve relações sexuais com o filho e que agora estava grávida. É, e aqui perto do trabalho uma manifestação a favor do fretado e professores da rede estadual reinvidicando por melhores condições depois que o colega foi morto dentro da sala de aula.

É, realmente, é uma questão de saúde pública. A idealização da classe média, por fim, chegou ao seu ápice. Vamos proibir o fumo em qualquer situação. Os direitos iguais castrados. Sinto que sofri um estupro mental. Lotes para se fumar fora. Lotes de 6 a 5 pessoas fumando na rua, vigiados pelo segurança carrancudo. Se pago imposto, se contribuo como qualquer um, pouco importa. A bola da vez é a classe média. A ascensão do novo burguês, que agora está protegido de nós, os fumantes insensatos e assassinos. A classe média está a salvo. Sentados à mesa do restaurante, a família ri e brinda feliz - com fumaça de cigarro à parte, por favor. O falso moralista ergue sua bandeira e finca o estatuto dos bons costumes. Nova lei, nova regra. As placas insinuando a punição. Lá mesmo, bem longe disso tudo, está a depravação da miséria. Mortos de fome, desmatamento e políticas ainda do engenho. Quem liga? Hoje vindo para o trabalho, um funcionário da CET, parado na avenida Santo Amaro, tapava o rosto depois de ser bombardeado pela fuligem dos carros. É uma questão de saúde pública. Avante moralistas. Brindemos à queda da democracia. A enfermidade que se enraizou dentro de todos nós. Agora, já acumulo a falta de direitos. Não tenho mais o direito de fumar, nem em áreas reservadas, e não tenho o direito de unir-me legalmente a pessoas que eu amo. É uma questão de saúde pública.
Não é mais uma questão política. Citar teóricos? Muito menos. Quando se dá, quando se transforma o poder e o distribui em pequenos pedaços, transformamos o Estado naquilo que ele mais quer: o poder absoluto, sobre tudo e sobre todos. E agora, além da grama do vizinho ser mais verde, teremos que aparar a nossa e a deles. Sim. E enquanto isso, todo mundo pro quarto de castigo.

E se eu te pegar fumando mais uma vez, eu denuncio você.

Monday, August 03, 2009

Depois.

Todos os dias, chuvas de sol, manias de escrever escondido do tempo. Aquele florescer natural de arrepio. As vozes intercaladas, dizendo razões para o futuro, promessas mascaradas e outras formas de sentimento. Queria poder dizer "hoje está chovendo". Hoje o dia amanheceu quieto, sossegado e nem mesmo um pio se pode ouvir. As rodas dos carros passando nas poças d´agua. O barulho da chuva caindo nas folhas do jardim. A cama vazia, estirada, perturbada pela saudade salutar. A ausência do corpo e daquele calor rotineiro que nos acostumamos.

Todos esses dias. Dias de partida. Dias de saudade. Saudades do gosto da boca, ainda relembrado por cafés e sobremesas delicadas, pelo gentil calor misturado aos novos ares. O sabor da pele. Um cheiro diferente. Novos retratos, novelas, músicas e livros. Todos os dias aquele gosto a caminhar pelo canto da boca, querendo adivinhar se é saudade ou manifestação da mente. Em noites quentes, o delicioso barulho dos restaurantes, da cerveja e do vinho. Delicioso afagar de cabelos, barba mal feita e roupas de viagem. Tão presente, perto e distante. As vozes se intercalando, ruídos e a saudade que não se vai.


Escondidos no tempo, ficam os dias de sol.

Monday, July 27, 2009

Enquanto isso...

Eu corro, pra lá e pra cá. Procuro brechas para poder preencher seu coração. Sou vagabundo quando posso e humilho todos os meus sentidos em troca do seu sorriso sincero. Quando posso, peço sua coragem de homem bravo e me jogo ao mar, esperando seus braços - nó de marinheiro.

Me jogo aos leões como um astro romano. Em vão, acabo me perdendo no acaso e nos desencontros do sábado a noite. Eu, um cigarro e o calor. Vou indo, correndo para o primeiro sorriso encantador. não tanto leviano, descubro sinceridades esporádicas. E assim vai funcionando. Desato o nó, reaqueço os tambores e volto a tocar uma música familiar. Notas elevadas, tons graves e agudos. Tudo misturado ao som daquele nome. É exagero. Sei bem quando entro em estado de fuga. Corro pra lá e pra cá até parar. Mas é sincero: minha cabeça encostada de abandono. É sincero. O número do meu telefone e o jeito que falo. Perfumes desconhecidos e palavras novelísticas. Um certo ar de timidez que não engana ninguém. Texto sincero. Sem subjetivismos. Fato: o velho ditado começa a ser mastigado. Se der samba...

Mas eu corro. Eu corro bem longe dos largos abismos do seu coração estranho. Para você eu serei imortal. Até os beijos que me fizeram esquecer toda a história mal contada. Até o carinho que me levou ao estado mais sincero. Meu corpo, dois tragos e um gole. Me recolho ao desdém e sou assim. Fazendo cara feia e contorcendo o nariz.
Meio apressado, eu corro pra lá e pra cá, tentando te achar e encontrando o acaso.

Thursday, July 23, 2009

Inverno.

Talvez seja isso mesmo. Uma grande soma de tudo que existe, existiu e existirá. Conjugar em todos os tempos a mesma coisa. Talvez seja isso. Escrever um texto como se fosse a primeira vez. Segurar o lápis apontado, encarar a folha branca e inóspita. Timidamente desenhar a primeira letra daquilo que pode ser o começo da vida. Talvez seja isso.

A primeira vez que olhamos para o mar. Aquele breve momento em que enxergamos uma distância sem calcular o seu término. Grandes espaços de paisagens infinitas. Talvez seja isso.

A sensação de que o mundo não é uma coisa só. Esses aglomerados de imagens, sobrepostas umas às outras como livros em uma estante. Um futuro que não conseguimos imaginar. Talvez seja isso.

A versão mais curta dos fatos: esse é o destino dos fracos ansiosos. A versão curta e editada do que pode acontecer. Ninguém entende de amor. Ninguém entende da morte ou mesmo do começo de tudo. Tantas desilusões e pouca lição. Os deveres de casa a começar pelo exercício de matemática. E nada fez sentido. Talvez seja o inverno onde tudo fica reservado dentro do corpo, percorrendo lugares inusitados, passeando pelos poucos momentos de calor, a mão caída no corpo, o copo de vinho e a risada mais sincera do mundo. O frio, o frio que reserva surpresas quentes, olhares distantes, olhos entre-cortados pelo vento e a boca rachada. Um certo gosto de quero mais por todos os minutos de um dia. Daí, entram as horas, sempre vagarosas como se para elas o tempo não existisse no relógio, mas fosse um outro tempo, talvez mais demorado do que o restante do dia. Pode ser a loucura. O frio tem dessas coisas. A busca constante pelo aquecer, o pouco que se pode ter com os casacos e as aconchegantes blusas de lã grossa. Talvez seja isso. Um sensação infantil, rápida como a primeira palavra do dia e a última palavra de uma despedida. As vontades, como o frio, procuram momentos, eternos momentos e aguardam ansiosamente o dia da despedida. Mas esse dia parece nunca chegar. O dia do adeus, do até logo e do simples tchau-até-amanhã. Pode ser o frio. O inverno que faz o corpo se recolher, deixando a pele mais sensível, o lábio rachado e as mãos escondidas no bolso. Talvez seja o frio. O inverno deixando tudo uniforme ou a mistura de todas as cores, de tudo que se passou e remontando um novo começo. Máscaras e mais máscaras, toscos jogadores, versos incompletos, matéria do amor. Nunca é possível terminar um texto. Antes de tudo, o adeus à palavra. Talvez seja isso.

Talvez, não.

Tuesday, July 14, 2009

Do mundo, nada se leva.

Me recordo de um filme antigo: Do mundo nada se leva. Assisti ainda criança, sem entender muito, mas apreciando o preto e branco, Uma espécie de comédia que precisava do auxílio perspicaz de minha mãe explicando piadas e entrelinhas. "Repare nessa cena". "Você prestou atenção no que ele falou?". As memórias frágeis da infância que trazem consigo os tempos mortos e tudo aquilo que jamais voltará. A suposta inocência que perdi, as brincadeiras e aquele pouco que bastava por dias e dias. A sensação de que o tempo não existia, como se os instantes vividos dia-a-dia fossem apenas bolhas de sabão: subiam nos ares, duravam pouco e estouravam deixando cair uma seqüência de pingos coloridos. Aquilo, aquilo era pura magia. E só alguns anos mais tarde pude entender que, de fato, do mundo nada se leva. Sejam as memórias, os ensinamentos, brincadeiras. Do mundo, nada se leva. Meu eterno reencontro com fantasmas estranhos, vultos sem face, sem as drogas, sem o vício tosco e sem as necessidades frugais de hoje. Presente, passado, todos os tempos misturados sem nenhuma conexão.

Me recordo de ditos populares. Memória impertinente do espírito. Sombras do passado, delícias de se relembrar os filmes antigos, os livros velhos da estante e as brincadeiras delicadas. Naquele época, tudo bastava. O pouco que se tinha, o muito que se podia ter. Naquela época, ser criança era a ilusão do mundo. Ser criança era se negar para o mundo, era ser pelo pouco. E isso bastava.

Monday, July 13, 2009

O maquinário das armas dispostas, pronto a entrar em ação.
Fontes, cores e formas juntas na formação de um grande exército dominador.
A vida.

Outros, sonhos e iludidos pelo olhar banal
Céu, cortes e calor invernal
Sem dores no peito, rimas certas - sonetos cancionados
Aqui vai outro jazigo para memória

O maquinário das armas disparadas
Estouros
Estrondos
Estopim e toda a margem posta frente ao matadouro.

Um poema - uma arte. Todas as sensações entre estações e estados.
Um poema é um trabalho - forma de vida e experiência do imortal.
Toda palavra é uma máquina. Forte, viva e pesada.

Era somente uma prosa desconexa da palavra. Assim como todos os cantos do mundo, todos os cantos d´alma, do voz alta erguida pela garganta faminta. Tudo aquilo que se move rapidamente partindo ao meio verdades categóricas. Adeus ao pragmatismo. O romance tem hora para começar. Romance dos cabelos negros e despenteados. A cruz daquele que anda, descalço à procura de razões subjetivas. Deus e o diabo na terra do sol. Cinema de raiz, cinema de Fellini, cinema de Cortázar. Toda a herança cultural. Simples conversa de butequim entre amigos e afetos. Trocas de mensagens instântaneas-virtuais.

O maquinário das armas dispostas, pronto a entrar em ação. Batidas musicais, danças rituais e o coração, prestes a virar bomba atômica.

Monday, June 29, 2009

Por ai, vai.

Seja no céu, no céu de estrelas cadentes, seja pela ponte, fonte, cor, som ou borbulhar. Lá ou aqui. Tudo que é errado, duvidoso ou mesmo infeliz. São dúvidas somadas à vida. A vida como um mero acaso. Uma mera coincidência de fatos e eventos dispersos. Desse mesmo destino desfeito. Destino. Do latim destinare. Trazer junto. Esse pequeno significado impresso nas páginas do dicionário de latim e a busca pelo sentido. Destino. Seja no céu, nas linhas escritos sobre o corpo, uma pequena cidade. Das forças ocultas da antiguidade, a fome de vencer obstáculos. Letra de música e livros empoeirados na estante. Esse mesmo destino de unir, des-unir ou subverter a realidade. Da ponta dos dedos, a água mágica, da ponta do cabelo a gota da manhã, dos suor, do tempo estático. Seguro nos braços, seguro nas palavras mal faladas, seguro pelo olhar. Seja pelo céu, seja pela loucura das estrelas, seja pelo antes e pelo depois das marcas, da cidade, do luar, ruas, estradas, destino ou pela desunião. Fruto do acaso, fruto dum ar diferente. Pequenas orações. Frases curtas. Pequenos detalhes de tudo. Um pouco de tudo. Um pouco das linhas barrocas, muito de mim, da minha pele, dos meus traços e ossos. Muito da vida que sai facilmente pelas minhas mãos. A ponta dos dedos querendo mostrar paisagens desconhecidas. E por ai vai, seja pelo céu ou pelas estrelas, caminhos desiguais, certos e inesperados.

Por ai vai.

Wednesday, June 10, 2009

A Marca na Parede.

Entre todos os pecados revirados no estranho mundo da imaginação, escolho e abdico este. Todos os males míticos que me empedram dentro de você e que ao mesmo tempo consomem meus olhos, minha saliva e meu sangue. Pulso versos, jogo imagens e, em mim, tudo se projeta sem cor, sem som, se vez para pensar em algo que possa ser mais profundo. Assim, meu pecado, ou como diriam, meus cavalos demoníacos, enfeitados com ornamentos tribais, galopam entre colinas que não existem e sonhos impenetráveis. Meu coração, branco, selvagem, nem saberá o que se passou no processo de escrever estas palavras. Mas enviarei esta carta com forças que não me dão as palavras tão secas. Quero pecar dentro dos limites que meu corpo permite, e deixar solto os animais selvagens, ou seja lá o que for.
Abdico a Deus, à carne viva que me deste, à vida enquanto projeto de carência, ao coração satânico que borbulha suas imagens e, por fim, abdico a mim por ser que sou e por tentar erroneamente escrever-lhe esta carta. Em tempos que pulo no salto de uma imaginação esperta, vejo-o num futuro permissivo à minha memória que não conhece o tempo da vida. Se os relógios...Enfim, o que é abdicar a tudo que se valha por desnecessário entre eu e você? Mas choro pela escolha de não saber reparar os danos tão frágeis que cometi num surto da vontade de uma vida à espreita de outra que se pudesse valer ou coloca-la em xeque. Por isso, abdico à minha vontade de saber se teremos um futuro de paixões violentas, e a você que sei, me daria tudo isso. Não são somente suas palavras, ou seus olhos infantis que bailam ao som de nossa conversa. Apenas ao tétrico momento de instantes, como diria agora, eu trago-lhe minha posição: abdico-te.
Esqueço-me da carta acreditando criar uma ficção que me faça, e faça a você, uma estória futura trazida ao presente de meu devaneio. E são somente as palavras que me acompanham no instante em que vejo seus olhos colados ao meu na sinceridade que somente eles sabem revirar na procura de algo ou de alguma coisa. E essa imagem, tão familiar, atravessa meu corpo sem que eu perceba. Meus olhos ouvem tuas palavras e meus ouvidos ressoam sua imagem na atmosfera noturna de uma noite friorenta. E vejo todos....
Abdico.
Meu pecado maior é ter entre meu corpo você em água salgada e seus beijos que somente imagino em sonhos transpirantes. E como será ter um pecado entregue ao Diabo, à luxúria de todos os prazeres de um corpo ardente, quase febril, que espera, espera, espera por todos os galopes que este cavalo me dá? São as interrogações ligando-me à loucura. É você que me assombra com desejos perversos que fazem as mãos percorrerem meu corpo em busca de prazer. E quando vejo, já não é mais essa a carta e nem a você que desejo remeter; é algo outro, como se escrevesse a mim palavra tão tola. Amanhã enviarei ao correio somente a frase “abdico-me a você” e, assim, jamais saberei a quem remeti, pois você está em um sonho do futuro-presente-passado, próximo a tudo que conheço por imaginar. E se mesmo imaginando te sinto, será o presente o ladrão dos meus sonhos. Lembra-se da noite em que me recitou sua vida? Pois foi nela que banhei-me e não com o luar nem com as notas musicais...ô luar...
O que você diria de meus pecados? Amar-te? Serei sempre eternamente um galope de meu demoníaco cavalo, correndo pelo seu corpo, imaginando-te a pele branca recostada em meu coração tão branco eu...Imagino essas reticências em nosso tempo, um no outro e a febre de meu cavalo já louvado. E como diria, enterre-o, mate-o e coma esse animal, essa corrente do fogo azul, anil, e todas as cores. E o que diria de meus pecados? Cavalarias, infâncias, e o crepúsculo escurecido de todas as minha vozes, essas que não digo, silenciadas, sem moral alguma! Permite que adentre ao mundo de caos e entrego-lhe minha rosa vermelha em esperanças de outro tempo: àquele que me faz sonhar e deixar cair por sobre seu corpo quente minhas frias lágrimas. Espero no fio da noite apenas uma corda daquele seu instrumento tão poderoso que é a sua voz feita de seda. E em mil panos me retalho para ver-te partir nas sombras do meu desejado futuro. Deixei cair algumas das pétalas que me deste com tua boca e pelo chão, nesse esteio de palavras girantes, perdi-me em você. Sinto esta carta transformar-se em derrilição, pura magia sedutora do Diabo em teus olhos satânicos, tão próximos como os dentes do predador. E sou a caça. A caça de tudo isso que me devora em pedaços finos, preso em teus dentes alvos. Sou apenas a presa da caça. E estou raciocinando um momento de lucidez: fundir-me em seu corpo, tomando a vista do mar e entre as ondas circulares e ovulantes, vejo-me em você, dentro, tão dentro que não reconheço meu corpo, senão o seu. Minha presa! Sonhei com meu cavalo, com os fantasmas daqueles olhos vibrantes (ou penetrantes?) e acordei banhado de sonho. Você me faz sonhar com esta carta, com suas vozes em meus olhos...Contorço meu estômago para digerir você como um alimento engenhoso, criado por Ele, criado por mim naquele mesmo futuro de que lhe falei, no qual sonhamos um com o outro na esfera transversal, no campo e naquela rede onde batia o fino sol da tarde e você me beijava. E são apenas palavras incertas de meu desejo, que já nem é mais secreto. Contei a rosa vermelha meu verdadeiro anel de prata e entreguei-o a você naquele sonho afoito entre a vigília e o acordar. Traga-me o caos que lhe peço por esta carta tão sóbria de mim e lhe entregarei a saliva de minhas mãos ao escrever-te esta carta.

Sonhei com você. Sonhei com seu rosto. Fiquei, ou sou, louco. Seu rosto. Abdico a você. Essa carta é somente um arremesso de meu coração; uma tentativa frustrada de entender meu corpo em você, e meus galopes nas mãos do Diabo.