Friday, August 29, 2008

Fazia tempo

Estou numas de matar tempo. Sim, deixar que tudo tenha um curso certo. Talvez seja essa uma espécie de fórmular para controlar o espírito, ou simplesmente eu esteja tentando acertar antigas faíscas junto ao fogo. Lembrar de um antigo discurso sobre questões ontológicas e mesmo metafísicas. As antigas formas de pensar em tudo com um certo rigor.
Estou numas de ser rigoroso. Deve ser porque não há mais espaço aqui dentro ou fora para certas disparidades do viver. Mas ainda assim eu guardo especiarias para um dia dar tempero ao rancor e até mesmo ao esquecimento forçado. Nada por acaso, é fácil fazer de um dia simples algo a mais. Dar sentido ao cotidiano pequenino e torná-lo grande, como deve ser. E por que não se deixar levar, flutuar entre estrelas, astros e poeiras cósmicas. Esquecer enfim vestígios de roupas velhas, máscaras usadas e todo aquele palavrão. Murros na parede ou sentimentos avessos. Ou pelo avesso. Estou nessas ultimamente. Deixar de escrever e investir em outras coisas. Porque toda essa pulsão de vida que é escrever pode ser direcionada a outras áreas. Tornar-me-ei um escritor de todas as formas. Ser tudo ao mesmo tempo e sem sentido. Gostar, depois me apaixonar e amar incondicionalmente. Deixar evoluir mesmo o que no começo é tão gostoso e fácil, como um algodão doce. Talvez seja mesmo uma certa análise do discurso, tal como nos ensinou Foucault. Ou então, esquecer de tudo, e deixar que toda aquela pilha de livros seja consumida. As músicas tocadas. A dor, o ódio, o amor, a paixão e até mesmo aqueles sentimentos pequininos, todos eles tenham um sentido diferente. Empacotados.
Estou numas de deixar de lado. Sim, aquelas vestes estranhas e as amizades em ruínas. Deixar de lado essa parte da cesta. Ou nem é deixar de lado. É não mais fazer parte da vida e da corrente. E as minhas pulsões todas nas mãos, no olhar, no meu travesseiro, nos meus beijos e sonhos. Um texto deveras longo. Amanhã eu encurto tudo. Tornar-me-ei um escritor de muitas capas, fontes e páginas.
Fazia tempo que certas sensações não me visitavam. Hoje, vieram todas.

Thursday, August 21, 2008

Tesouras

Eu estou correndo. Por meio de cacos de vidro, pedras brilhantes e uma grama um pouco verde. Estou correndo para alcançar longos caminhos. Correndo contra vestígios perigosos de uma vida regrada. Correndo para saber se o céu é azul ou se tudo isso é mesmo uma das funções da minha retina. Sem saber ao certo em que velocidade tudo deve acontecer, eu acelero, freio em direção ao deserto florido. Porque no fundo as coisas vêm numa outra direção. Não contrária, mas uma direção adversa. E novamente meus textos voltaram a ficar confusos. Sem linha, sem rima, sem pé nem cabeça. Isso é sintoma de esquecimento. O esquecimento da razão. E vivo assim mesmo, numa inconstância de dias, de sabores, de quereres, de tudo.
Correndo para chegar perto. Um caminho de perto. Eu fiz esse texto no ônibus. Hoje, pela manhã, esqueci como escrevê-lo. E novamente, tudo parou de fazer sentido.

Tuesday, August 19, 2008

Clockwork

Mesmo que haja uma certa necessidade de sentir e escrever tudo, em qualquer momento. Uma urgência do corpo. E tudo é afetado. As insônias vindas da ansiedade como produto de uma má administração das pulsões e dos batimentos cardíacos. Sermões religiosos e os palavrões circundam uma perspectiva infantil de enganar o mundo com um único olhar. Diante de tudo: da mãe morte, do irmão distante e dos amigos enterrados em fotografias digitalizadas. As dívidas recorrentes de um mau uso das finanças e os travesseiros todos rasgados. Deve ser típico das insônias essa coisa de questionar o mundo quando tudo está adormecido. Reações alérgicas e o despertador atrasado como sempre.

Mas nem sempre se pode esperar do dia uma surpresa. Nem sempre uma carta ou recado distante, e-mails impessoais, ligações urgentes. Enfim, o cotidiano em sua forma mais chata, porém, deliciosamente patético. Daqui a pouco tudo se transfigura. Como se faz lá em cima, nuvens cinzas, roxas, pretas e a chuva. E mesmo que haja uma certa necessidade de tudo ser assim tão transparente e que as surpresas sejam fatos e não meros acasos, ainda restará noites mal dormidas, fadigas constantes e um certo ar de leviandade. Esse clarão de idéias, ou mesmo uma póstuma vontade de consumir o irreal. Tudo sem sentido, existindo e como partes de uma explosão. Sentimentos afoitos jogados na privada. A privada entupida. E nada assim tão bom: navegar pelas antigas calmarias da vida. O doce do cotidiano.

E mesmo que haja uma certa urgência em tudo, desligar o telefone, apertar end e sair como passo curto. Sem mais, nem menos.

Só a urgência de ser.

Monday, August 18, 2008

La revancha

"Não se afobe não que nada é pra já", disse o Chico, sábio, sambista e semi-carioca. Também outras analogias e metáforas estranhas surgiram. Falar de sentimento é sempre trabalhoso. Tentam e repetem. Falar de Voltaire, de Rousseau e outros. Tentativas frustradas de falar do mal na sociedade e da fragmentação de todos. Corrompidos, incapazes, desatentos e, claro, covardes. Aquela covardia que nasce pela falta de entender dois mundos. Sim, o medo pelo bom, o medo pelo correto e, digamos, pelo mais forte. Quando se entende de corações, mesmos os partidos, entendemos um pouco do Chico, do Voltaire, do Rousseau e até do Platão. Mas é sabedoria de butequim. Que dirá, daqueles que realmente entendem o próprio sentimento? Certamente, será uma filosofia embriagada, dita em táxis ou para estranhos vagando na madrugada.
Mas entendamos: falar desse assunto, seria, deveras perigoso. É quase como andar em terreno minado ou naqueles pântanos habitados por répteis. Deve-se entender muito de pouco, e pouco de tudo. Porque nem sempre o corajoso é o que fala. Ele pode ser somente a antítese; um fraco que se vê heróico. E mesmo esses fracos merecem mais palmas que o covarde. Aprendemos que coragem não é um sentimento, mas uma ação. Como em todos os casos, a cada atitude, cada pedacinho que se faz com aquela força, já é um bom começo. Eu, por exemplo, me transformo, mesmo que em medidas minúsculas, a cada avanço, a cada quebra de medos e em todas as vezes que mudo um pouco de mim. É diferente ser maior. Talvez, diriam, mais homem do que antes. É instinto de sobrevivência. Mas aí viria o Rousseau para dizer outras verdades. Essa tal corrupção nefasta, mas involuntária. E se já nascemos corrompidos, por que não corremper aquilo que o exterior não conseguiu? Sim, corremper, destruir, roer certos fragmentos da covardia, do insulto moral que foi imposto. Talvez seja essa a espécie de liberdade que tanto procuramos: ser nada, ser corrompido e ser nada, sendo tudo o que se pode ser ao mesmo tempo. Sim, talvez seja essa a chave. Não ser nada e ser tudo. Um algo deleuziano, eu diria. Um produto de filosofia, sem política ou religião. Nada de riponga ou pé-sujo. Ser por si só, e isso bastar.
Alguns diriam que seria uma pura loucura. Outros, apostariam num anarquismo psicológico. Eu digo que não é nem isso e nem aquilo. Ao Rousseau, Platão, Chico e a corja toda, eu diria que seria a revanche.
A revanche de nós, contra nós mesmos.

Saturday, August 16, 2008

Picnic

Quando esqueço, por momentos, tanta coisa que se passou. Memórias do passado, brincadeiras de criança próximo ao rio e até mesmo os primeiros momentos da adolescência. Se fosse uma religião, abdicaria da carne, de deus, das santificadas expressões e, no lugar, daria um clarão de idéias aurívoras. Mas aqui, enquanto o frio não toma o seu lugar, enquanto não para de chover e até mesmo as insônias, eu deixo estar tudo quieto; adormecido.
Nem mesmo gritas minhas idéias de filosofia, embriagado num táxi, ou explicar a importância do movimento romântico no Brasil. Falar de Alencar e dar a ele sua importância. De nada resolve. Adormeço com os livros ao redor e um certo ar de tranquilidade. No meio da noite, o relógio anunciando 04:26 e eu tentando interromper sonhos e ver pela escuridão um pontinho de luz. Os sonhos do passado e aqueles rastros abençoados. A tudo abdico. Escondo os quadros e quando esqueço, por momentos, a pressa dos dias, volto a dormir.
São pequenos cortes. A ressaca matinal, a dor de cabeça e os vultos na memória. Escrever sobre tudo, para tudo e todos. Dedicatórias invisíveis e tudo a borbulhar. Das xícaras solitárias, da família distante próxima ao mar e meu desejo por ondas maiores e água salgada. Nem mesmo os amigos ficaram pra ver os fogos coloridos. O lábio inchado do beijo inesperado. Rimas afugentadas e um certo calor em pleno sábado.
Por momentos deixo estar tudo. Ponho de lado a mão direita. Tudo quieto. Adormecido. Por momentos.
Tudo adormecido.

Thursday, August 14, 2008

Se eu contar.

Quando criança e um teco da minha adolescência, eu costumava me sentar e observar minha mãe: sentada, com o cigarro acesso até a metade, as pernas sempre cruzadas e com um certo olhar de desdém para a televisão. A cinza comprida quase caindo segurada com firmeza pelo braço apoiado. Talvez essa seja uma das mais fortes imagens que eu tenho dela. Não a composição dos elementos, mas a postura das pernas cruzadas, do cigarro e, principalmente, da forma como ela olhava para as coisas - a forma como ela olhava o mundo.
Com isso eu cresci quase como um molde. Eu fui me fazendo tal como ela. Um certo olhar desdém, o cigarro em uma mão e as pernas cruzadas. Como estou aqui agora. E toda vez que me pego, correndo, pelas chamas ao me redor, me lembro que essa imagem, essa postura está em mim como qualquer outra parte do meu corpo. Tudo o que sou. O meio homem, os fortes impulsos femininos e a pouca razão que devoro em minha mão direita. Esse meu olhar de quem não se interessa pelo mundo, mas que no fundo olha para entender um pouco de si. E até mesmo nos meus dias de embriaguez eu sei que acabo transformando meu rosto no dela. Ninguém foge daquilo que se é. Algo a se aprender, não com os livros, mas com a memória do espírito; essa memória que nos faz, move e nos carrega para uma certa identidade forçada. E não menos importante, isso que nos faz ser o que somos. Esse meu ar de desinteresse. Talvez ele seja um alvo, quase como um destino. Um trilha mesmo. E tudo assim tão claro. Ela sentada, fumando o meio cigarro e as pernas cruzadas. E mesmo o jeito de rir, eu herdei. O gosto por Chopin e a impulsividade típica dos mais quietos.
E anos depois, ainda quando tento descobrir em flashbacks um pouco do que eu sou e das minhas metades. acabo me deparando com essa imagem, com a postura. E não obstante, deixo o cigarro em uma mão enquanto levemente cruzo as pernas. Tudo isso, claro, muito inconsciente.

Monday, August 11, 2008

Sinnerman

As corridas estão abertas. Toda a neve derretando como se o sol não fosse só o calor, mas algo além quase como uma luminosidade mágica. Tudo tão cheio de nuvens e numa velocidade incrível eu ajusto a calça e tento pentear o cabelo. Das semanas intensas e dias corridos, aquela selvageria e um estado emergencial. As providências do dia. Uma chatice. Nem cura inventaram. Textos sem nexo ou, se preferir, nem pé nem cabeça. Certos sintomas de esquecimento, sonhos inadiáveis e aquele velho inconsciente alertando com luz vermelha o perigo eminente.
Ai, eu me perco. Me perco vagando entre tantos mundos, tantas idéia, dentro e fora do meu corpo. Sim, pensar demais é sintoma de carência. Sim, pensar demais é motivo para falta de ação. Não digo dos poemas. Ah, os belos poemas de Hilda, Sophia e até o pobre e esquecido Pessoa. Minhas leituras atrasadas e um quarto semi-arrumado. Livros desorganizados e uma antiga mania de sentir-se deprimido. Seja nas manhãs, seja nas noites, um resgate sensorial de tudo o que se passa. Seja como for, aqui ou ali, é preciso um certo ar de leveza. E nem é preciso muito. Talvez uma bebida, um pão velho, mas que tudo acabe no riso, no sono pesado...
As corridas estão abertas. Nem sempre é o que se esperou. Os desejos de criança mimada e as vontades adolescentes. Aquele romantismo rouco, clareado por idéias literárias. Tudo, mas tudo mesmo colocado num quadro renascentista. Nem mesmo Sartre seria tão niilista para acreditar em túmulos ou romantismos exacerbados. Aqui, preza a paciência e, claro, a tal da leveza. Se as corridas estão abertas, basta trocar a ferradura e trotar.
Na chegada, é só cortar a faixa. Que nem sempre vem junto de presentes ou datas especiais.

Sunday, August 10, 2008

Conto.

Encostou-se na árvore, como se está estivesse erguida para o seu corpo cansado. Esteve por horas andando a esmo. Segurou-se em muitos pensamentos, olhou o rio, notou que os peixes descansavam sob a sombra projetada pela imensa árvore. Devia ser algo secular, pensou. O dia estava quente, demasiadamente sufocante, como tudo aquilo que havia dito na noite anterior. Era como se as palavras pudessem assumir uma forma corpórea e se misturassem ao dia, ao sol, ao calor e aqueles pássaros que sobrevoavam também sem rumo. Segurou as mãos na tentativa de imaginar que fosse outra mão e não a sua própria. E ali, naquele tronco, encostado pensou que poderia resolver todos os seus problemas. Era falta, que na imaginação modificava-se como presente. Todas as recordações lhe vinham como ondas gigantes de cenas, choques, espantos e sonhos irrealizáveis. Com o dia agitado, tendo acordado cedo, sentiu que naquele lugar um mundo estava se formando; a cada lágrima, uma criação e a cada suspiro um desmoronamento. Por que não escrever poesia, interrogou-se já quase deitado na grama. A poesia poderia de certa forma, colorir e preencher algumas formas tão vazias dentro de si. O telefone poderia tocar a qualquer instante com uma notícia vinda de longe e eu poderia mudar-me para o interior, para alguma cidadezinha com poucos habitantes e viver só, do trabalho e do corpo. A realidade era somente aquele momento, que bem poderia ser a felicidade, já que acreditava que a felicidade era apenas um segundo em que o corpo se desprendia da alma. Lá fora, ouvia o barulho ressonante e grave dos carros.

Os pés doíam. O calor com o atrito do tecido áspero do sapato provocaram bolhas no canto do pé e na sola cansada. Tirou o sapato e quase como um ato religiosamente sagrado, encostou o pé na terra úmida. Era um alívio, como se a terra estivesse lhe retribuindo um favor. Seus pés se misturaram aquilo que lhe afagava o corpo inteiro. Imaginou, já maravilhado com a quietude daquele momento, que enfim chegaria ao céu e encontraria um pedaço de terra com uma árvore de tronco grosso e forte para deitar-se na eternidade, pois aquilo já era um pedaço do sentir-se para sempre. Em verdade, não poderia sentir-se de outra maneira.
Uma voz lhe dizia que o caminho era aquele mesmo. Já nem mais pensava nos carros, no barulho e na fumaça vinda do asfalto quente. Mesmo que houvesse uma passeata política lá fora, jamais tiraria seus pés da terra úmida. Estava misturando-se, aos poucos, àquele lugar. Poderia morar ali. Poderia casar-se, plantar e jamais ter que encontrar outro lugar para descansar.

Thursday, August 07, 2008

Quinta.



Em 1656, Diego Velásquez espantou seus admiradores ao apresentar La Família de Felipe IV. O espanto não decorreu somente da iluminação característica ou da introdução de um auto-retrato e sua técnica de quadro dentro do quadro. Havia ali, dentro de toda a perspectiva algo "estranho". Sim, ali mesmo, dentro das belezas iluminadas de um gênio havia um sopra quase irreconhecível: um anão. Em meio as belezas da realiza, o disforme ser aparecia, olhando para o espectador quase como se quisesse se apresentar. Isso, em 1656. Aquele anão, assustador, atravessou os séculos de quadro em quadro, se movimentou pela música e por todas as esferas da chamada arte. Ele tornou-se o espelho. A antítese e o igual. Dele, saímos todos. O horror pelo disforme. Esse mesmo personagem pitoresco, viveu entre nós, se instaurou nas classes dominantes e transformou a cultura do homem contemporâneo. Foi com ele, um simples anão, que aprendemos que o feio pode estar no bonito, mas mascarado, iluminado, quadro a quadro.




Alguns muitos anos depois, ainda nos espantamos com o tal anão. É ele, os travestis, as drag queen, clubers, góticos, emos, roqueiros, metaleiros, afro-descendentes, orientais e, claro, os transexuais. Hoje, esse ano ganhou nome nas manchetes. Ele se chama Thomas Beatie, uma mulher norte-americana que decidiu engravidar depois de uma mudança visual de sexo. Thomas, deu à luz a seu primeiro filho recentemente. Americanos, raivosos, protestaram. Outros elogiaram a atitude e outros resolveram não se pronunciar. Um verdadeiro circo. Um quadro de Velásquez. Mesmo o anão estando na sala a nos fitar, fingimos que ele não está lá. Ora, se permitimos a cirurgia plástica, aos tratamentos pesados contra o envelhecimento, a redução de estômago, por que não aceitar Thomas como uma família? Sim, os desajustes parecem ter crescido desde 1656. As formas contundentes da moral enraizadas na cultura do ocidente. Podemos alterar o nosso nariz, afiná-lo, remover a gordura e tirar linhas de envelhecimento, mas nunca, nunca, podemos assumir o tal anão que existe dentro de nós. Tirá-lo do quadro é uma infamia. Talvez um crime em alguns países. Essa força controladora que nunca nos deixára aceitar o Samson de Kafka ou mesmo o Thomas norte-americano. Sim, Nietszche foi um visionário e Foucault o pai do pensamento moderno. Somos previsíveis. Tirar o nariz sim, homem com barba dar à luz, JAMAIS!




De 1656 à 2008 algo deveria ter mudado. A perspectiva de uma possível quebra da moral religiosa, ou até mesmo esse anão que nos ultrapassa nas salas cirurgicas. Algo deveria ter mudado. Não somente aos norte-americanos, mas ao pensamento e, por que não, ao espírito humano. Uma linda criança, sortuda talvez de ter uma família com os anões que um dia serão o ponto de fuga de um quadro. Pensam: o que será dessa criança? Não podemos prever, mas podemos afirmar que seu mundo será desenhado fora do quadro, como se o seu mundo pudesse enfim, ser o começo de algo.




Uma família.

Wednesday, August 06, 2008

Quarta.

A saudade quase como uma tristeza, vinda de lugares distantes, nem sempre pretende ser tema nem aresta. Ninguém sabe das melancolias e virtuosidades. Crianças mesmos, brincando de jardins e erguendo as mãos para o céu. Ó, deus Apolo que nos traz para a vida adulta. De pureza em pureza somos, ainda, crianças. Idéias juvenis. Eventos mal consagrados. Solos que enterramos sonhos e sonhos, num repetir quase canônico. Uma soda limonada para o Diabo e aquela quentura, um ferver de sentimentos como se à deus nada pertencesse. Mais um gole de coca-cola. Arco e flecha. Apolo, leve-nos para a vida adulta. Juntamo-nos a Ártemis num parto de gêmeos. Na ilha de Delos, nós todos, crianças, adultos, Diabos e Deuses.

A saudade como uma tristeza. Uma bola de chiclete masgado, quase sem saber. O olhar doce e escondido por trás de uma lascividade absurda. Nos cantos, nas pequeninas mãos, o doce sabor de soda limonada. Inventores do desentendimento, nem mesmo siameses são capazes de decifrar o pensamento. Juntos na vida, como terra e fruto. A casca da árvore. E ainda jogamos pedra no vidro do vizinho. Apolo! Leve-nos para a vida adulta. E isso, rogando para os Deuses, tentando soltar as mãos do Diabo. Ele, que nos ferve em calda quente de doces ilusões. A saudade dos tempos de maldade.

Rogamos ao senhor dos ventos. Aos deuses na espreita por nossa vil brincadeira. Como uma prece, pedimos a Apolo, um sopro de vitalidade. As bolhas de gás da soda explodindo na cara Dele. Solte-nos a mão, grita a criança. Ártemis vem pela floresta. Nos caça: arco e flecha.

Mais uma soda, com ou sem limão e nos deixe ir, além da maldade.

Tuesday, August 05, 2008

Terça.

Artemis, a mais pura e casta das deusas do Olimpo, calmamente passeando pela floresta deparou-se com a sagaz raposa. Longos e dourados momentos, como se somente existissem dentro de uma certa magia de ser e querer. A magia de rosas vermelhas e túmulos sagrados. Toda forma de reza, ali presente. Cautelosa, Artemis aproximou-se da raposa no intuito de advinhar-lhe suas intenções. "Diga-me o que queres bicho de pêlo vermelho". A raposa, sorriu, e entregou-lhe uma linda caixa dourada. "Trago a vossa deusa um presente dos seres da floresta".
Por alguns breves momentos, a janela aberta, o céu negro e pesado. Logo, tudo desabou. Tudo veio abaixo. Pesadas gotas e ali em cima tudo se despedaçando. No breve momento, a mão no bolso e uma vela acessa em cima da mesa. Carência de mortos vivos e esquizofrênia. Artemis, desconfiada, levou a caixa para seu irmão Apolo que a aconselhou se desfazer do presente abrindo-o junto do bicho vermelho. Armada com seu arco e flecha, a deusa lançou-se furiosa na floresta em busca do animal. "Diga-me, raposa-vermelha, que trazes essa caixa?". A raposa, surpresa, sorriu. Artemis, percebendo seu medo, flechou o animal-vermelho na pata. Preso ao chão, a raposa sorria num grito de desespero. E assim mesmo, o quarto trancado, as roupas amontoadas e um vermelho nas costas. O corpo ainda dolorido, a garganta quase seca. Todos os pensamentos de volta ao toque da baiana. Ninguém se separa do mar. Ninguém foge das ondas, do sol e dos longos cabelos pretos de Janaina. Tragam os presentes. Barcos azuis. Rosas brancas e preces desesperadas. Com tudo, a chuva tombou o mundo. Abriu a cova dos fracos e deitou até mesmo os corajosos.
Diz o mito que Artemis, a mais casta e pura das deusas do Olimpo, transformou a raposa em pó vermelho e a jogou dentro da caixa dourada. Morados e selvagens da florestas ainda ouvem suas risadas tortas e cínicas. Vigilante, Artemis caminha pela floresta penetrando seu olhar por entre folhas e pedaços de pau. A caixa, escondida entre suas vestes. Ali, no canto mais obscuro, no fundo dos olhos, a imagem do guerreiro que um dia fui. Das sóbrias noites que passei escrevendo e sem nenhuma resposta, abandonei o gosto pela leitura diária. Troquei até mesmo os anéis e queimei as fotos. A família distante crescendo e aos poucos se esquecendo que sou tio ou irmão. Dos outros laços me desfiz, como o temporal. Ninguém se separa do mar. Do pó vieste e ao pó voltarás. Diz o mito: ninguém se separa do mar nem das vontades Dela. Minhas imagens tão lúcidas, meu quarto organizado por livros, recordações e novas montarias. Minha cama feita, lençóis lavados, travesseiros com restos de alguém. O passado, morto. Como se tudo pudesse um dia ter um recomeço com sal e água morna do oceano. Perfumado com alecrim e jasmim. Minha pequena coroa de santos e divindades. Eu, louco que sou, desfaço aqueles nós e jogo-os no mar. Pra Ela. Minha cor, minha força e minha fraqueza. O buraco na alma. Ninguém foge do mar.
Diz o mito que Artemis guarda por debaixo das vestes a pequena caixa dourada. Dentro, um pó vermelho, semelhante ao urucum. Os pêlos da raposa que um dia tentou enganá-la. Ali, dentro da caixa. A cova daqueles que adentraram na floresta. Artemis.
Diz o mito.

Monday, August 04, 2008

Segunda.

Diz o mito que Artemis, deusa da caça e da serena luz, é a mais pura e casta das deusas. Diz o mito que seu pai Zeus a presenteou com um arco e flechas de prata. Diz o mito. Todos os recomeços. De segunda até outra data marcada no calendário. Ela, a deusa da caça, as florestas e seu exército indomável. O mesmo diriam de Iemanjá. Dos santos, dos mitos, dessa força que vem da natureza, do humano e até mesmo do sangue. O meu sangue. Composto de tudo o que vivo. Daquilo que me faz e desfaz. Dos minutos próximos, de tudo que vi. Das flechas que erram o alvo. Eu vou, aos poucos, juntando o exército.
Como a luz prateada da lua, Artémis percorre todos os recantos dos prados, montes e vales, sendo representada como uma infatigável caçadora. De flechas, vaidosa como é. No seu recanto tão saboroso, ela recruta. Todas as indas e vindas. As falsas intenções e mesmo o cinismo pouco mascarado. Ninguém pode com o mar. Nem mesmo as ondas ou a orla da praia. Ali mesmo, tudo que se joga, volta. Tudo o que se apronta, Ela vê. Nos barquinhos festeiros, garrafas, cartas mal intencionadas. Ela retorna. Com força de natureza e com a maldade dos céus. Elas, em mim, como se eu fosse construído como um mito único, como a soma de todos os medos, todas as forças. Na minha pequena floresta. Nas minhas flechas e mesmo no meu entendimento, onde tudo e todos passam, deixam vestígios. Nada que me cerca. E ainda não sabem que vejo, sem abrir os olhos. Assim, como idiota ou qualquer coisa que valha. Me cercam os cinismos e as más intenções.
Ela, a senhora da caça, a mais casta das deusas. Ela que matou Orion e pediu ao pai que o transformasse em constelação. Ela. Eu aqui, rindo dos pequenos soldados soltos. Animais, que circundam a floresta sem saber de nada. Que navegam pelo mar a procura de si mesmos.
Flechas e arcos. Diz a lenda que nunca traia o mar. Traicoeiro, ele retorna. Nunca duvide de Artémis como fez Apolo. Sofra o escorpião na eternidade da galáxia. A mais casta das deusas do Olimpo. Também a mais mortal.

Friday, August 01, 2008

You dont get summer for nothing

A gente sempre acaba voltando. Seja para casa ou para essa antiga tela. A gente sempre acaba voltando. Volta e meia. Pulos aqui e ali. Nunca paramos para olhar o relógio distante na parede. Os minutos correndo. Um pouco além da conta. As estrelas do céu, uma a uma, se apagaram e o relógio despertou. Num segundo. Tudo virou uma pedra. Talvez rocha, E deixar registrada a lembrança.
No quarto velho e ainda pouco alimentado por sabores diferentes. Aqui, jaz o equilíbrio eterno. Sem mais, nem menos. Entender o efêmero e as questões ontológicas e metafísicas. Tudo isso junto num grande pacote, embrulhado num papel vermelho e um laço mal amarrado. Mais um cerveja e o corpo dormente. Querendo cama. Querendo o sossego, dentro do desassosego. As grafias incorretas e pouca, mas muito pouca matemática. Sem tempo e sem ajustes de ponteiro. You dont get summer for nothing. Assim, como mito, como pedra. A semana rápida. Sem licença. Eu deixando pra trás hábitos, manias e unhas roídas. Rosto lavado e creme para as mãos. It´s a fire. Os sonhos molhados, dores de um passado mal construído. Leves pontadas na´lma. Aqui, jaz o eterno. O feliz e infeliz. Tudo junto. Um grande embrulho em papel reciclado. Volta e meia e sempre voltamos para a origem. Seja p útero ressacado ou um simple soluçar, volta e meia, voltamos. O eterno retorno. Sempre. Passos largos e um vontade incontrolável de deitar e dormir.
A gente sempre acaba voltando.