Monday, April 20, 2009

Gosto(so)

Novamente se pode dizer que outras cidades surgirão em meio ao desalento. Outros tantos dizeres por vir, outras formas de encontrar conforto nos lugares mais inóspitos. Leituras desatenciosas que fizeram da vida o ambiente perfeito para a criação de vícios, maldições e desejos escusos. É como um giro, talvez, esse modo estranho e destruidor de caminhar rapidamente. Daquilo que foi desfeito, do renascimento germinado na saudade imensa e tudo refeito. Novamente, os braços de deus abertos, no aguardo ansioso pelo retorno do filho desgarrado. A oração apressada despertada pela droga, pelo calor e pela mente entorpecida. Esse mesmo rogar, rogar pela realização de sonhos, pelo ato de se viver, pela desavença, pelo dissabor do álcool e pelas madrugadas desnecessárias. Ninguém levará o corpo à cruz. O suor e o cuspe juntos na estranheza do querer-não-querer. Um jogo, uma peça e dois ou três filmes queimados.

Novamente, o parafuso girando contra a madeira, querendo arduamente ligar duas formas de vida incompatíveis: a minha e a que desejo. O desejo do saber tudo, sobre todas as formas e todas as maneiras. Que me perdoem todas as justiças divinas, mas ali, naquele mesmo canto particular, não há lugar para relicários.

Feche os olhos. Um, dois, três. Abra los ojos.

Tuesday, April 14, 2009

Ao vazio.

Negar aos símbolos de uma suposta religião que me aproxime aos grandes mestres da criação. A cruz, o vinho e a matéria. Rogoar sempre, como oração aos céus, oração de pássaro sem asas. O que anseia o vazio? Quando tudo se esgota de forma brutal, quando não há mais sangue ou cores latentes para se dizer palavras de amor ou de fé. A coragem em se estabelecer pequenas formas de olhar para cima e não deixar que as nuvens se derratam em pequenas gotas. Essa coragem em não se adequar, abdicar e mesmo resignar todas as instâncias da moral e do reconhecimento póstumo.
Aqui, os vazios, lentos e prazerosos vão assumindo seus postos como se estivessem marchando rumo à guerra dos desesperados. Loucos, maníacos, egocêntricos, seguidores do demônio e mesmo os seguidores de cristo. Assassinos, românticos, apaixonados, adúlteros, mentirosos, fiéis, leais, falsos, fantasmas, familiares, mortes. Os vazios substituídos pelo pior e pelo melhor: a eterna antítesa. As artes barrocas, retorcidas e aglomeradas vão se fundindo a uma espécie de arte contemporânea. O desespero em se criar o quadro perfeito.
Todas as políticas públicas reunidas em uma só cabeça. A fome da África e os órfãos da guerra do oriente médio. Tiros e desparos. Negar os símbolos de uma suposta vontade religiosa, pode ser a melhor das armas.

Monday, April 06, 2009

London calling.

A vontade é a de sentir as coisas, como se fossem feitas para isso. O sabor do cru, do azedo, o doce ardido, a fome e a nicotina. O gosto que se desfaz pela língua, até a garganta. Decoros para um estômago sedento de luz e carne. As formas mais variadas do entender, restos da metafísica e um pouco da herança materna. Aos goles, tudo desce rasgando, sentido cada pedaço do corpo como se ali houvesse uma espécie de tato. Outras formas de desejo. Uma sede por aquilo que poderá vir. A velha ironia do destino. Vida curta, de muitas idas e poucas vindas.
A vontade é sentir tudo como se fosse à primeira vez. A primeira dor do sexo, a primeira vontade de doce, o calor, o primeiro frio de temperaturas baixas, sonos e vontade de rir. O riso forçado. A primeira música. O arrepio do primeiro beijo. O primeiro beijo. Tudo num ritmo desacelerado e menos ordenado do que as equações matemáticas. Na antiguidade, isso poderia ser uma ode, tragicômica e feita para grandes platéias. O curto da vida, o curto do pavio, a fome pela vingança e a perversão. Tudo junto, num dos cantos mais escuros do coração, palpitando e bombeando para o corpo o sangue mais azul que se é possível produzir. Muitos outros dias ainda em estado vegetativo aguardam, sem anseios, pela maestria do destino. É dessa vontade, a falta de amor, nasceram às teorias do menino-que-não-sabia-se-amar. Daqueles olhos quase negros, do cabelo grosso e escuro. Com afinco, podemos afirmar nessa fábula não muito moderna, que o amor incondicional é para poucos. O menino-ainda-em-desalento procura lugares estranhos para se procriar, sabendo racionalmente que ali não encontrará um hospedeiro perfeito. Sua vontade é a de sentir dor pelas mãos do outro. Não saber se amar parece ser o destino do menino-que-não-é-amado. Sua mãe, sem entender as coisas do útero, admite sozinha em suas preces contrárias que ao filho entrega somente o destino do sustento familiar. É a fábula do mundo anti-moderno. Os laços finos do menino, cortados pela vida cruel e pelo mundo construído por desafetos. A vontade ali era de se sentir minimamente amado.
Tudo parece indicar que as histórias, como na própria História, não são cíclicas. Elas se repetem. Elas se dobram e desdobram. No espaço, não parece haver esse tempo para os mortais. Tudo se faz num único momento, o mesmo momento para todos em qualquer lugar e qualquer época. Uma bolha, de tudo, de todos os tempos que se dobra lentamente e com a mesma velocidade estoura por entre tantos astros. Seria apenas uma das formas esquizofrênicas de entender os significantes, ou mesmo estudos semióticos. O significado do espelho, ninguém parece ter entendido.
Aqui, as fábulas jamais foram escritas com base na vida real. A vontade é a de sentir tudo, como se fosse à primeira vez, desde que o passado tenha, enfim, sido enterrado.

Friday, April 03, 2009

A insustentável leveza

Para se conhecer de tudo, dos mais pequenos detalhes até o monumental sentido de tudo e todos. As lições e velhas histórias, desencontros, perdas, alegrias e tristezas somadas ao constante estado de desapego com tudo. Lá fora, sempre parece estar mais quente e todas as manhãs o sol insiste em tentar ultrapassar as pequenas aberturas da janela.

Ainda que nada se possa fazer, deve-se como uma espécie de trabalho artesão, esquecer de tudo, caminhar por um momento e adiante, abrir um pequeno carderno de páginas brancas e ali, reescrever tudo novamente. Pode ser um start de coisas. Pode ser também uma simples maneira de construir novas versões. O partir não parece, e nem pode parecer, distante como se imagina. É preciso um plano, um sentido e uma infelicidade para que se possa ir adiante. O espírito, tal como conhecemos, disfarçado por tanto tempo, atendendo necessidades frívolas do dia-a-dia, se volta contra as máscaras. Ali, no mesmo canto da sala, ainda há um pequeno rabisco de vontades. O anseio e os desejos insatisfeitos. Porque para ir, é preciso sentir-se infeliz.

Mas também um certo tom de desajuste é necessário para que se possa imaginar outras possibilidades de viver. Eu penso, e recoloco tudo na mesma medida. E as decisões se somam, e distraído planejo outros caminhos. Que seja a perda de uma profissão e mesmo a distância de tudo que se conheceu. E um dia ainda se poderá rir de situações desesperadoras. Hoje, o melhor é trancar tudo em uma mala e ir. Que seja amanhã ou depois de tudo.

O primeiro passo é partir.