Tuesday, July 22, 2008

37822:43

Tem sim. Um fio longo, talvez dourado, um pouco achatado, mas fino, bem fino. Tem sim. Uma tesoura, uma faca e mesmo um maçarico. Tem sim. Tem como cortar, sem muito esforço, só de encostar. Tudo tem uma certa motivação. O calor motiva a chuva, a fumaça a tosse, a mentira o desastre. E é tão curto. O momento, a razão. E eu poderia falar disso horas a fio. Mas, pra que precisamos tanto falar de verdades se, no fundo, o que importa mesmo é dormir bem?
Tem sim. Esse mesmo fio longo, meio dourado, um pouco achatado. Ninguém nunca soube como utilizá-lo. Ele poderia tecer uma bela malha, ou quem sabe costurar uma roupa velha e até mesmo poderia ser utilizado para fazer ligações telêfonicas. Sim, ele tem muitas utilidades. Ninguém nunca soube usá-lo. Mas, como todas as coisas do mundo, ele tem o antagonista. Já falei das tesouras. Um pouco mais afiadas, elas passam e levam embora todas as fibras. É questão de loucura. Esquizofrenia acelerada.
Sim, uma boa noite de sono.
E até para isso serviria o fio: tecer, ainda que quebrado, uma boa noite de sono.

Come, as you are.

Eu venho falando muito em sonhos. Tentativa frustrada de entender pouco, sobre tudo. Eu venho sonhando muito com Ela. Decifrando códigos, mandando sinais, seja lá o que for. Eu guardei tudo na mala; eu digo, sem medo, que guardei tudo e tranquei. Porque pouco a pouco nada foi cabendo. Mas ontem eu pensei em tanta coisa. Atordoado, sonolento e pouco, mas muito pouco concentrado eu me deixei divagar por tudo. Senti tudo, sob todas as formas, como diria Pessoa. Mas chega de falar em poesia. Isso é pra outra hora. Talvez seja cedo demais para trazer poemas para dentro da mala.
Mas eu venho falando muito em sonhos, declarações e esperanças. Motivos escorregadios, textos literários e mais um monte de porcaria. Provavelmente porque eu quero ser decifrado. Ou estou tentando decifrar o cubo. Mas Ela me disse tanta coisa essa noite. Me lembro pouco do que se passou. Dessa vez, sem batuques. Eu e Ela, como ocorria no começo. E ainda acordei com a sensação; e eu vim de verde. Será que precisamos saber de tudo? Saber, entender e compreender tudo o que se passa? Aviões, carros, fontes naturais, ecoturismo, verdades e mentiras. Precisamos? Sorte, talvez, daqueles que de nada entendem. Eles fecham os olhos, dormem, acordam. É só dar corda. Sorte deles. Nem precisam pensar nisso ou naquilo. Eles vivem. Eu, ao contrário, tem um hábito sensível de querer entender e saber tudo. Se tenho uma leve dor de cabeça, preciso do motivo. Mas para Ela, isso não tem razão de existir. Mesmo que eu saia voando pela janela nesse exato momento. E eu vou descendo ao centro, como se quisesse parecer planta ou raiz de planta.
Eu venho falando muito em sonhos. Talvez eu esteja sonhando muito. Isso, Ela me disse. E por mais gostoso que seja, sonho é sonho.
Uma hora a gente acorda, abre os olhos e tenta levantar.

Monday, July 21, 2008

Back to Black

Da vida nada se leva. Dos dias tortos, das vontades mal entendidas. Nas embarcações sempre tão guerreiras, sobe o mais forte e sábio. Os outros, que fiquem na praia. Assim poderiam dizer. Tantos ditos populares. Tantas maledicências. Indecências mesmo.
Explicações insuficiente para dar luz aquilo tão misterioso. Jogadas palavras fora, tantas noites de inspiração, tudo revirado no armário, livros, roupas, sapatos e palavras. Tantas que voavam pela janela. Você era uma fonte; transbordava-me inspirações, imagens, saberes. E eu era como a própria noite. Quieto, sereno, negro. Essa minha casinha de cartas. Estou num mal dia. Mal humor talvez, coisa que sabe que não tenho. Dor de cabeça e sono. Será só isso? Enquanto o sol vai indo, aos poucos, pelo dia, pareço perder pedacinhos.
Estou todo de preto hoje. Foi despretencioso. Não poderia ter combinado mais.

Sunday, July 20, 2008

14:23

Fazia tempo que eu não chorava. Sem motivos afetivos, sem alegrias ou tristezas. Chorar para dar sentido ou seja lá o que for. Num domingo qualquer, num dia ensolarado e cheio de cheiros no ar. Deixar apenas que tudo venha como soma de todos os medos e todas as vontades. Sim, como animal. Talvez como besta, deixar que a lágrima seja uma fúria, fúria das garras. Ah, como a besta que arrancou pedaços da vida, lascas de felicidade e depois, como bicho selvagem, descartou tudo, a vida, os sonhos e as unhas quebradas. E tudo foi querido. Os olhos encharcados e o mundo visto através da água, meio embaçado, sem sentido, mas perfeitamente construído como algo a parte.
Num domingo qualquer, indas e vindas, chorando ou não. Largar a fúria na rua. Largar as luzes e as cores e deixar vir a besta, arrancando as beiradas da vida e tentando fazer a voz ser mais que o corpo. Num domingo, nesse domingo, chover o dia, o mundo, chover o corpo, como se a fúria deixasse de ser animal para tornar-se o que deveria ser: apenas uma pessoa comum.

Saturday, July 19, 2008

Wake Up

Algumas horas de sono pesado. Jantar, encontro, presente. Sentimentos voando pela janela, saindo pelo poros e aquela nossa conversa. Se existe um eixo para as metáforas, porque não existiria o nosso próprio? Somos mesmo uma metáfora mal utilizada entre uma palavra e outra. Somos feitos assim, vírgulas e pontos finais. Nos escrvemos diariamente, pela ponta da caneta e nas idéias tão confortantes. Virtuosos transformamo-nos em laços queridos; naquela forma mais perfeita de escrevemos, um no corpo do outro. Seres de planetas vizinhos. Nos sonhos, somente nos sonhos podemos dizer que a metáfora faz sentido.

Fazia tempo que não andava de metrô devido a uma pseudo-claustrofobia. Sabia as estações de cor e salteado. Tinha decorado nos passeios com a minha Mãe quando criança. Depois de muitos cigarros, anseios e idéias, cheguei em casa. Tudo parecia diferente. É essa sensação monstruosa de não saber onde chegar. Deixei tudo na mesa. Fui pra cama. Só assim se termina um dia. No encontro com o nosso eixo, aquilo que nos faz o que somos.

Aquilo que pode enfim nos refazer. Açucar e olhos fechados.

Friday, July 18, 2008

I just wanna be...

- Nada demais. Os encontros e desencontros como se fossem obra de uma jogada. É, pode ser. E nunca poderei concordar que cisnes são mais bonitos que pássaros. Eles não têm aquela coisa de ser altivo. Mas sabe, eu posso ter inventado esse jogo, um pouco bobo, de ir e vir; foi assim que eu aprendi, aos poucos, a mexer com serpentes e enfiar a mão num balaio cheio delas. Nossa, sim, por você sim. Eu arriscaria deter uma parede de fogo se ela ameaçasse arrancar-lhe um pedaço que fosse. Ah, eu pareço assim e toda vez que eu ouço essa música eu sinto como se fosse uma espécie de transe psicodélico. Meu deus, nem precisava tirar tanta vantagem de tudo. Por que diz isso? Sabe bem, como ninguém, de tanta história, tanto relicário velho que penduro no pescoço e até as cartas rasgadas já mostrei. É, sim, como se eu entregasse toda a porcaria escondida nas suas mãos. Pára. Não. Isso mesmo. Não é fácil dizer essas coisas, mas só assim eu não me sinto num divã. Essa música não para. Você gosta? Não, não. Tira esse disco. Troca, por favor. Ordenar tudo isso num pensamento único, depois duma bebedeira, agora de ressaca, é deveras difícil. Poxa, coloca a sua mão no meu ombro e vai. Ou melhor. Pára, não faz essa cara. Eu peço: troca esse disco. Quebra essa vitrola que eu mal consigo me manter de pé ouvindo essa poeira tocar no ar. Eu estremeço só de pensar. Sim, meu corpo entra em queda de vertigem. Eu escolho os santos e levo-os para cama. Meu português ruim. Mas porque? Deixa isso pra lá. Você sabe bem o que eu quero dizer. É pouco. Eu mesmo mostro caras e dentes; deixo transparecer esse véu negro que me cobre como se fosse translúcido e feito de cristais pequeninos. Pequeninos? Por que você está rindo. Talvez eu seja pequenino, como você disse, cheio de mimos. Eu já disse. Está tudo aqui. Sem chaves, sem amarras. Por que diz isso? Estou erguido, como monumento. E seu. É. Não...Pode ser. Quem sabe? Sim, você sabe. Sim! Olha só, enterra seus demônios. Agora o céu se abriu. Sem anjos e guirlandas. Só o céu. Azul como ele mesmo. Troca esse disco. Pára. Isso, ai mesmo. Deixa isso pra lá. Você sabe bem o que eu quero dizer.


- ...

Thursday, July 17, 2008

I fuck myself

Quantos brilhos, luzes e facetas de diamante puderam aparecer, apareceram. Ali mesmo, no cartiado, num batuco quase ensurdecedor e tudo estremeceu rapidamente. Foi como uma implosão de sonhos. Todos, ao chão. Mais calmo e sereno vieram conversar, inclusive Ela. No meio de tudo, da gira, dos santos e cheiros eu vi refletido ali uma imagem, talvez um futuro - coisa do destino. Todos ao chão. Eu deitado de bruço. Todas as luzes acessas e um baita estrondo.
Ali, nos sonhos, nesse mundo tão complexo e labiríntico; ali mesmo onde realizamos o que não se pode realizar na vigília. Sonhos eróticos, materialização de desejos, inconscientes perdidos, nuvens coloridas e beijos. E teria sido um crime acordar no meio do som. Da fúria que descobri necessária para dias de trovão. Tentei dormir com duas folhas sulfite e uma caneta. Tentei escrever um livro. Em vão, adormeci e quase me furei. Quantos brilhos precisam para se ter um clarão? Mas do sonho nada se leva. Somente as sensações, os descasos e a paranóia de tentar interpretar tudo a nosso favor. Sonhar acordado, como Ela diria.
Mas no meio disso tudo, da luz, do brilho, do batuque de gira, dos santos possuídos, a revelação. Pelo sonho, pelo consciente, tudo capaz de revelar ali, logo ali, que os tão românticos sonhos tem um fim. Logo ali, nem virando a esquina, mas ali no fim, a explicação.
Deita e dorme.

Wednesday, July 16, 2008

Depois de um tempo

Nada mais parece ser novidade. As mesmas palavras estranhas mal encaixadas numa sentença e aquele velho truque de discursar sobre o amor. Nada mais parece novidade. É perfeitamente compreensível. Depois de algum tempo de tantos recortes aqui, lá, as coisas ficam no retalho, na colcha velha da mesma cor - talvez um pouco descolorida. Os padrões se juntam numa cestinha de vime e podemos inclusive sortear um bilhete que dirá o que devemos fazer.
Nada é novidade.
Depois de um não, depois de um sim, de histórias incansáveis, de amores frustrados, mortes, insensos, livros começados e não lidos. Aquelas músicas que retornam e tentamos dar uma outra cara dizendo que é coisa do momento. O momento mais insensato. Nada mais é novidade. Não há como parar de repetir: nada mais é novidade. Triste ou não, deve-se olhar e dizer isso incansáveis vezes. Nenhum sentimento parece novo depois de ter sido apedrejado. Infeliz? Que cabe agora dizer isso? É só porque se há uma repetição é porque a novidade acabou. E quem dirá que vamos sofrer se já sabemos exatamente qual será o final da história? O lobo come a vovó? Não, o lenhador aparece e o mata antes disso. A Cinderela se casa, a Branca de Neve....e assim por diante.
Quanto a nós, vivos fora das história, só resta colocarmo-nos dentro daquela garrafa e irmos ao oceano afim de que alguém, talvez distante, nos ache e faça de tudo aquilo que deixamos para trás, uma grande novidade.

Tuesday, July 15, 2008

370

Os meus inimigos todos à postos. Armas, dentes cerrados e olhares alegres. Todos. Em frente, rumo à trincheira. Todos os meus inimigos repetidamente ansiosos pelo momento da grande descida. Seria somente isso. A bomba no ar, tentanto queimar nuvens, jogar estilhaços pelos ares. Como pode carregar tanta munição nas costas? Furtivamente, fui roubando olhares. De amizades instauradas.

A fome do mundo, aos poucos, queimando a parede do estômago, enquanto sou alvejado centenas de vezes pela mesma arma. Aquele estouro; um barulho violento, como se eu mesmo fosse um balão desses de gás explodindo categorias e rispidez. E o problema maior nem eram as cicatrizes, ainda abertas, mas o sentido que as ruas haviam tomado. A casa velha com o grifo no lugar da torneira, as roupas empilhadas e toda aquela poeira se acumulando na parte de cima dos livros. Ah, mas eles estavam todos lá para ver o dia em que a pedra atravessaria a janela. Peças de quebra-cabeça espalhadas pelo chão. Tranquilo eu tomei dois comprimidos. Tinha ainda nos pulsos a marca do descontentamento com o mundo. Era chegada a hora. Uma fúria avassaladora. Contra o mundo. Contra tudo e todos, menores, pedintes, religiosos e filósofos. Eles mesmos poderiam ainda renunciar a minha vontade. Ansioso, eu tomei dois goles e levantei. Acendi um cigarro e deitei; tentei dormir e eles, meus inimigos todos, na cama comigo.

Me servindo de companhia.

Four things

Contava do Dr, pois assim o gostava de chamar, que estava interessado em literatura latina e que pouco a pouco começou a apreciar alguns autores alemães. Ainda assim, gostava pouco de poesia e mal sabia quem eram os grandes poetas de sua língua.
E por que eu comecei a contar os cigarros que fumo por dia? Antes, eu ligava somente para embalagens e outras coisas do cotidiano. Agora, conto. Pareço criança. Loucura. O doutor olhava de cima abaixo para dizer que mesmo os livros podem ser um indício de esquizôfrenia, mas que não era motivo de preocupação já que o tratamento estava indo muito bem. Eu deixei de lado os maços para poder sentir o gosto da minha boca e, sim, deixá-la livre para o gosto dele. Tentaram, há muito, me fazer largar o vício. E cada vez que o fizeram, mais afundei meu radicalismo para tudo. Hoje, eu paro pra ele. Para as suas reclamações constantes de moleque. E ele dizia que a mãe havia sumido sem dizer para onde ir e logo a sessão foi encerrada. No caminho de casa veio de forma agudas as lembranças. Como hoje eu acordei já com as primeiras palavras na boca e posso ter dito ao travesseiro confissões bobas. Posso ter dado a tudo o que fiz, um nome. Curto, pouco sibilado, como o corpo dele, um sentido de flores. O ar radicalmente seco e todo o resto dentro de mim pulsando alegrias e anseios. Quando criança, entrava em casa correndo de travessuras e dizia à mãe que havia jogado pedra no telhado do vizinho. Taciturna, calma, a mãe sábia dizia: - Mesmo? Pois eu tenho uma novidade para você -, e corria pegar a cinta.
Mas é assim que se começam os dias. Drummond disse poeticamente "se acordas e se deitas pensando...". Hoje, aqueles velhos estudos se transformaram em matéria morta. Eu, corroído pelo desejo, anseio somente poemas eróticos. Procuro encardenar minhas palavras e logo estou com o corpo dele em cima de mim. Sou movido, como poucos, pelo desejo. Pela carne, pelos caminhos da pele suave e branca. E encarno, crucificado, ele dentro de mim. Passo as tardes assim: pulsando adrenalinas e experimentando numa louca irrealidade, o gosto dele. Passo, sem pormenores, de uma viagem a outra. Sem perceber, eu sou fundido. Torno-me a própria irrealidade. Ele, me pulsando alegrias e gozos, deitados na cama, ele me virando para o outro lado.
O doutor na semana seguinte parecia misterioso como se tivesse descoberto a cura para todos os problemas dele. Olhou e se pôs a falar: eu me lembrei semana passada Dela. Será que enfim eu vou poder entender o que houve?

ne pas du rien

Hoje, ouvindo canções francesas - só voz e violão. Daqui, eu consigo ver pela janela um prédio cinza, espelhado, talvez demasiadamente moderno. Mas ele está coberto por um manto de luz amarelada da manhã. Por trás, um céu azul ferrete e uma pequena faixa cinza de poeira. Dois cafés e contando cigarros, eu vim pronto a escrever um texto. Uma epígrafe, uma epístole. Desisti na hora em que tudo ficou preso no silêncio.
As manhãs de outono. O cheiro de árvores secas, de perfume amadeirado e flores orientais. Ontem e hoje, tantas palavras esvoaçaram o dia, espantaram algumas idéias e formaram outras. Pelo mundo todo, pelas arestas, uma palavra para cada um. Com direito a fumaças de café, roda gigante e ares de cara lavada. Descobre-se, cedo, que ainda por ai os sábios que vêem além dos nossos próprios olhos. Eles andam por ai, soltos. E para eles uma palavra também.
Bêbado de palavras francesas. O violão e a voz. Hoje, algo poderá existir.

Monday, July 14, 2008

Two things

Ele esperou acordado. Como se nada fosse ou bastasse naquele exato momento. Eu, sem explicações, parecia ter sido cortado ao meio, como uma folha de papel. A bagunça, as palavras de ordem, aquele caos todo em uma briga de urso. Eu contra a parede. Mas naquele dia, ele sabia que nada poderia mudar; o vaso em cima da mesa da sala como um enfeite cafona e barato com ar de decoração. Onde eu deitava, de costas, sempre olhando para o travesseiro listrado, pintado de cores velhas e frias. Ali mesmo, onde eu deitava e antes mesmo de acordar, já sentia subir, como uma serpente, pelas pernas, enroscando-me os braços, as pernas e todos os meus sentidos. Sentia, sentia subir pelo calor, centímetro por centrímetro. Duas semanas antes, a mãe havia pedido uma compra grande no mercado. Faltava o básico, dizia com aquele olhar materno-carente.
Deitado, como um pára-raios, toda aquela energia subia fervendo. Chegava-me nos lábios, trêmulos, quentes e vermelhos de gozo. Minhas mãos descendo, lentas e sorrateiras, tentando achar lugar dentro da chama. Mordi os lábios. Senti como se eu fosse afundar na cama, no meu suor, no meu desejo e na combustão ardente, fiz-me dentro de você. Fiz-me como presa de serpente num desespero quase louco, sem freio, cheio de vontades e imaginações férteis. Eu tentei correr, eu tentei escapar movendo os pés rapidamente enquanto que o seu cheiro fazia meu corpo parar, sangrar feito animal de ritual.
Ele deixou as compras na mesa da cozinha. O saco de arroz e feijão guardou no armário, dentro dos potes que a mãe, cuidadosamente, deixava na parte mais baixa do armário. Deixou um bilhete seco, porém carinhoso, próximo aos remédios para enxaqueca. Ajustou o vaso da mesa, pegou uma maça e foi para o trabalho sabendo que depois desse dia, jamais veria a mãe trançando colares e fazendo ornamentos de tule para o bebedouro.
Eu sentei na minha mão. A água escorrendo meio quente. Meu corpo se abriu. Talvez ele sinto só isso. Ele só sabe sentir isso. Vozes em francês escolar, eventos mal administrados e aquele trabalho sem volta. Eu só sei sentir isso. As cores do pescoço, a fome e a fúria que aos poucos me corroem, rasgando-me como se eu fosse feito de algodão colorido. Fio a fio. Eu me empresto em aventuras irreais. Me empresto na água morna, e mesmo sabendo ser parte do meu corpo, imagino ser do dele, em mim, em mim no fundo, por dentro me deixando alagado de prazer, por dentro e fora, nas orelhas quentes e na pupila dilatada. Eu deitado, naquele manhã fria, minhas mãos trabalhando para ter ele dentro de mim, como um fogo, como um pedaço. Eu deixei, por fim, que a minha cama fosse apenas uma chama; deixei que ela entrasse em mim, como ele, o prazer mais delicioso da fantasia, o corpo másculo de ombros curtos numa estatura perfeita de tamanho, forma e cheiro. Enfim, tornei-me a chama vangloriada. A chama do gozo com ele dentro de mim a fincar desejos.
Anos se passaram. Ainda comprava arroz e feijão para mãe desaparecida. Procurava na cozinha, nos armários. Ele pensava que talvez fosse melhor encerrar as buscas, ler um livro e tentar levezas. Contava com ares de saber para quem quisesse ouvir. Da solidão, sabia mais que todos. Do amor, desconhecia cartilhas e formas abstratas. E nem podia dizer que ser professor era lá grandes coisas. Mas conhecia Aristóteles. Sabia Kant e um pouco de Descartes. Deitava sempre com o mesmo pijama. A mãe, desaparecida, sempre vinha, todas as noites com beijos molhados. Anos se passaram. o bilhete ficou ali na mesa. Os remédios, as roupas, tudo no mesmo lugar. Eu amanheci descoberto, com os lábios mordidos de amor. Escrevi um poema e coloquei fogo. Ele voou como pássaro fênix. Eu sabia que ainda tinha alguns minutos até tudo fazer efeito. Deitei-me novamente e senti ele pesado, com o olhar fixo na minha encenação quase pornográfica. Virava a cabeça e ele com as mãos delicadas de homem, voltava-a no lugar junto aos seus olhos. Dizia, sem pudores, para morder o dedo, lamber os lábios e sentir o gosto. Eu obedecia. Eu obedecia meu corpo dentro dele. Quente, uma única forma de viver. Ali dentro. Dentro de tudo. Do mundo, do fogo, eu como se fosse uma chama gritando.

Friday, July 11, 2008

when you smoke all my weed man

Os remédios empilhados na mesa. Um xarope de tosse, atrovent, berotec, soro e papéis jogados. As chapas do pulmão, duas tosses e meio sono. Aos poucos tudo foi sarando. Aquilo que dissolve rapidamente. Aos tragos, aos trancos e barrancos.

Uma tosse. Um dia frio e alguns goles de café. O médico na sala dizendo termos redundantes. Eu, tentando engolir a seco a realidade. O maço de cigarro escondido na bolsa e reparando na aliança dourada. Um tosse seca, depois de examinado e a receita, simples e curta. Comprimidos para prevenção.

Tudo se esvai. Depois de uma semana. Os remédios da cômoda substituídos, os lençóis lavados e mais um texto ruim. Palavras de desordem, estranhos do passado revisitando fotografias, musicas e toda quinquilharia do quarto e da sala.

Eu perdi as chaves de casa. No táxi, o motorista dizia algo sobre o tempo seco. Mais uma ressaca mal curada. Um dia de ócio no trabalho e dois episódios de um sitcom relaxante.

Deixo na cômoda o despertador. Sem hora. Mais uma tosse e coloco a cabeça no travesseiro.

Thursday, July 10, 2008

In the right place

Eu tento organizar um discurso. Passo horas do meu dia para acertar e alinhar as palavras. No final, nada parece fazer sentido. É como um passo-a-passo. Eu escrevo, vou ajustando aqui e ali, desenho uma idéia interessante. No final, tudo parece fora do lugar. Eu, no meio da figura, de uma foto rasgada e depois colada com durex.

Eu quero escrever um discurso. Discorrer sobre o que eu quero. Mas ele deve ser sucinto, simples e bem escrito. Talvez o mais importante seja que esse discurso revele sua real intenção. Sem pormenores, sem distância escusas e sem inocuidades. Eu paro, sento, ligo o som e tudo começa a embaralhar. Como cartas. Como fogo. Como nuvens antes da chuva.

Quem diria. Alguém que estudou Saussure não conseguir compilar algumas palavras. E é tão simples o que eu quero dizer. Tão singelo e curto. Eu já disse outras vezes no meio do vórtice, que são os meus textos, isso que eu preciso discursar. Não é somente uma vontade, entende? É dar valor a tudo isso. Ou melhor, um sentido outro ao universo, a vida e...

Falha. Há sempre um gap entre a primeira e a última palavra. Nem é preciso muito. Nada de dicionários, pesquisas lingüísticas ou signos icônicos. Só preciso de uma certa linha, um barbante fino, um cata-vento e uma bala de hortelã para dizer. Apenas eu e você. Nada mais. Ninguém mais. Sem paisagens, sem furacões, desastres naturais, encontros do acaso, antigas paixões, sentimentos mortos, vultos do passado. Nada disso. Eu e você. Só

Eu tento organizar um discurso. Uso todas as minhas forças. Canso a ponta dos meus dedos. E é tão infantil o que eu quero dizer. Dizer sobre você.
Tão leve seria se eu fosse corajoso: eu me levantaria, como um soldado alegre pela conquista com sua artilharia. Levantaria a cabeça, orgulhoso, e diria:

Eu quero você.

Wednesday, July 09, 2008

House of Cards

Eu tenho muitas escolhas na vida. Eu faço, mudo, troco. Sempre temos a escolha. Optar por aquilo que é simples, sincero e honesto. Pela emoção, pelo calor, pelo suor e pelo tesão.
Outras escolhas, outros momentos.
O irreal de tudo aquilo que podemos marcar, acertar e inserir dentro da vida, como um contexto, como um lindo ornamento para dias frios e para máscaras de oxigênio. Eu procuro entender se o complicado não é apenas um caminho para o resultado simples de uma equação. Quadros, desenhos, músicas familiares, risadas. E quem disse que no café não existem imagens de uma vida?
Outras escolhas. Como um verso e todos aqueles textos semivirtuais que escrevemos. É como mandar mensagens dentro de garrafas jogadas no mar. Mas no fim, quem vai a pino, sou eu mesmo. Em verdade, toda escolha vem acompanhada de coragem. É um decisão do espírito. E é de grande conhecimento quase público a minha fama de covarde. São apenas as tentativas de construção, ou melhor, de edificação da vida pela vida. Não se pode descartar nenhuma opção até que ela mesma tenha se esvaido de investigações profundas. Mas esse caráter humano que nos traga para o fundo, o mais fundo do poço é também o mesmo que não nos deixa à beira da loucura. Uma casa de cartas. Um sopro, e tudo vai para os ares. Eu e você. Nossos laços, nosso confinamento um dentro do outro.
Outras escolhas. Eu quero escolher por você. Quero escolher pelo sonho. Pela grande, pelo extraordinário, veloz e furioso. Pelo seu corpo, pelos lábios, sons, olhares, dedos e pêlos. Pela falta de ar, pela dança do paganismo, na entrada e saída. Portas abertas e fechadas. Isso tudo é uma grande antítese. Se não soubermos, perdemos o rumo de popa à proa.
Eu tenho muitas escolhas na vida. No momento, só preciso de uma espécie de agitação do meu espirito para rodar a engrenagem disso tudo e, enfim, dar um rumo, um sentido outro que não esse.
Escolhas. Um sopro e tudo vai pelos ares.

Tuesday, July 08, 2008

Flower Rain

Eu quero enfeites de rosas. Guirlandas coloridas, pétalas espalhadas e cabos sem espinhos. Eu quero enfeites de rosas. Como cordas de violão, na chuva do verão passado, nas árvores, no jardim, enfeites de rosas. Brincar de escolher pela pétala, o nosso destino. As margaridas tão simples, tão delicadas. Roseirais na janela. É tudo tão sentimental, essa coisa de querer rosas, de querer o adorno mítico.
Enfeitado de rosas. Deitado sobre as pétalas tão macias, na penungem quase imperceptível. Nada mais simples do que isso. No fundo, o que parece ser o mais complexo quebra-cabeças, não passa de uma simples solução. Nos meus lábios, no meu corpo e na realidade, tornemo-nos flores.
Eu quero enfeites. Enfeites na minha roupa, no meu banho, na minha cama. As paredes pintadas, cores outras, e aquele som de zumbido. A nossa imensidão. A imensidão do querer. Do poder. Sentir e ainda assim trair o destino.
Eu quero enfeites. Quero ser enfeitado. Confeitado. Com sabor de vento, de cordas, de flores silvestres. Eu quero ser enfeite.

Monday, July 07, 2008

11:21

Eu tenho antigas manias. Recorrentes, elas me servem de equilíbrio, dando sentido àquilo que não entendo. Mas elas são muitas. Eu acordo rouco e adoro ouvir minha voz timbrar pelas cordas. Eu acordo com o corpo estraçalhado, sentido que o peito vai explodir. Que eu, finalmente, fui de um lugar para outro. Nada faz sentido. Eu abro o guarda-chuva e corro além do meu caminho. Eu destilo minha saliva, eu aposento o maço de cigarro, eu deito e sonho.
Minha reação é sempre das piores. Minha reação é sentir exatamente o que é permitido. Mas eu vou além. Eu gosto do sabor daqueles ares de encrenca, da vertigem de um problema, da queda livre no escuro. Eu me encrenco. Ao que tudo indica, eu tenho uma certa mania ao excesso. Com tudo. Na escola, eu não entendi as potências, os cálculos de multiplicação e talvez, por isso, hoje eu tenha dificuldade em calcular as medidas para minhas atitudes. Mas isso é suposição. Eu estou procurando chifres, pêlos, tudo aquilo que dizem. Mas é tarde demais.
Eu tenho antigas manias. De certo, vocês poderiam dizer que eu sou uma pessoa recorrente. Que eu tenho um padrão, elevado ou não, para tudo que acontece. Essa minha mania de disparar o coração pela boca. Bom, dessa vez ele vai ficar no chão.

Saturday, July 05, 2008

Marlboro

Deve ser sentimento da abstinência.

A ruína de toda paciência, do virtuosismo pacifico, da realidade tal como ela é. E nem sei ao certo se crueldade vem de cru; o cru daquilo que esta por fora. Chega daquela comoção bestial.

Deve ser sentimento do confinamento.

Quando pelas histórias carinhosas, torcemos pela bruxa, pela maldade do meio para o final. Chega a ser dolorido, deveras dolorido, a profanação das tais histórias de amor. Nascemos assim, da mesma forma que morrermos, aprendemos. Hoje, escrotos, amanhã lovers. Tem tanta coisa na agonia, no êxtase, na anti-realidade que tanto nos atrai como um vórtice, como o centro de tudo. Larga-se o inalador, o cigarro e os remédios cuidadosamente colocados ao lado da cama. Volta a estaca zero. Manda tudo à merda. Que o inferno desça em grandes escalas, como lava, como fogo liquido e nos queime. Como disse, a decepção. Somos feitos de decepção e mágoa. A bruxa venceu afinal. As princesas estão ainda em busca de muito. Eu acordei, levantei, e parei de acreditar que serei de príncipe, sendo bruxa, sendo madrasta, jamais serei de príncipe ou príncipe.

Mas isso tudo porque a realidade é outra. Menos colorida, menos leve, mais densa e árdua. Para tudo, são muitos pesos e poucas medidas. É tudo rígido e regulamentado aqui. Deve ser assim. É instinto de sobrevivência de quem já caçou, já foi caca, abatido, sangrado e posto de volta ao jogo. É instinto. Perdoe-me se pareço cético ou cínico. Nenhuma esperança é morta do dia para a noite. É preciso muita paulada, muita astúcia e argumento.

Deve ser sentimento de abstinência.

Friday, July 04, 2008

Acontece nos tempos de muita chuva. Os marinheiros do silêncio.

Pela água, pela corrente fina, vêm perseguindo o som agudo e pequeno dos pulmões. Perseguem cada pedaço do corpo, dos ouvidos, a respiração lenta e fatídica. Por que não me espera a noite sentar e aproveitar alguns minutos de pensamento? Os marinheiros do silêncio, armados de trompetes e buzinas alertam para um estado de calamidade pública, um certo ar de enchentes. Na rua, peço um algodão doce, cubro a boca com a mão. Aos poucos, vou afundando até ficar com os olhos para fora da água; o resto do corpo mergulhado na água escura, gelada e misteriosa. Vou afundando, esperando uma besta marítima qualquer me devorar as pernas, o tronco e toda a porcaria.

Há dois instantes. Eu tento agarrar o vazio. A matéria. Eu tento assoprar um cata-vento como criança colorida. Eu tento fazer o tudoir à direção contrária só para deixar seu rosto livre de falsas correntes. Existem, pelo menos, duas ou três gotas de agua por dentro e fora. Eu, dentro, afogando-me em desespero e idéias semiconscientes de loucura e pseudopaixões. Não digo nunca a que vim. Desperto certos sentimentos inócuos e pouco obstinados que, breves, são seguidos pela sensação indiferente e asquerosa do temor.


Acontece sempre nos tempos de muita chuva. Os marinheiros do silencio a resgatar-me em nuvens roxeadas, pouco cinzas. Como faço há tempos, tenho impressões de dias chuvosos guardadas na memória e as uso sempre que posso. Sou tragado pelo feliz, pelo mordaz e pela ferocidade com a qual meu corpo sente tudo e dissolve tudo em forma de vento colorido.

Acontece nos tempos de muita chuva. Os olhos encharcados de honestidade. O meu olhar de encontro com uma guerra futura.
Vem do fundo do mar para lembrar que é no silencio, na mudez e na falta do que falar que podemos
enfim
dizer:

Tuesday, July 01, 2008

Marlon Brando

Foi apenas um instante. Talvez tenha durado mais do que hoje consigo recordar. Foi um ano estranho. Tudo parecia ter se erguido num falso jogo de vaivém. Os beijos eram insípidos, o sexo em grandes espaços de tempo. Eu ouvia Fiona Apple e tentava escrever sobre as coisas da vida. Eu estava sozinho. Sozinho diante de tanta coisa que ia e vinha, sem que eu pudesse notá-las. Eu escrevia poemas naquela época.

Foi apenas um instante. A transformação filosófica do mundo, das artes, e no geral eu acabei me reiventando. Comprei acessórios, mudei o guarda-roupa e comecei a usar Herchcovitch. Joguei o Adidas fora e comprei três pares de All Star. Troquei a Fiona pelo novo rock sueco, pelo eletrônico e pelo British Pop. Raspei o cabelo e aposentei a poesia. Foi um ano estranho. Me apaixonei por diferentes perfis. Todos errados. As paixões inócuas, tão companheiras. Foi fácil passar aquele ano. Troquei o All Star e mudei para outro estilo.

Foi apenas um instante. Troquei as caveiras e passei a usar T-shirt Hering. Joguei fora as sandálias. Só óculos escuro Ray-Ban. Mas ainda lia Nietzsche, Foucault e Aristóteles. Sempre na bolsa, tratados de literatura, poesia e pintura. Eu hoje, gosto de origami. Eu ouço música romena e nunca mais assisti filme nacional. Foi um instante naquele ano em que tudo pareceu mudar. Passei a recusar arte renascentista, para apreciar arte contemporânea de Tim Eitel e Cecily Brown. Foram muitas informações que acabei deixando de lado, como o meu diário e o gosto por cinema americano. Eu li e reli alguns livros e vendi o resto num sebo de Pinheiros. Comprei um I-pod e dei meu discman para meu irmão. Eu ainda ouço, naqueles mesmos fones brancos outras músicas. Foi apenas um instante. Será que eu mudei ou tudo, subitamente, se transformou? Eu ainda sou adorador do Marlon Brando e continuo com a certeza de que não existirá outro homem como ele, assim como ninguém nunca mais terá o mesmo olhar de Bette Davis. Mas eu troquei a Noviça Rebelde por Kubrick e hoje aprecio David Lynch a John Ford.

Naquele ano eu pensei que o amor podia ser uma fonte de inspiração. Tornei-me o pior. Fiz de mim, uma sombra e foi quando eu descobri que se era daquele jeito, não era o tal amor. Foi um instante. Aquele ano em que tudo acabou. O que sobrou foi, talvez, uma ou duas fotos.
Eu ainda raspo o cabelo. Não da mesma forma. Raspo dos lados com máquina dois e deixo maior em cima com a três. Eu sou uma soma de tudo o que aconteceu naquele ano. Acabei subtraindo tantas pessoas, gostos, vontades. E hoje tornei-me exatamente aquilo que eu queria ser, sem mais nem menos. Fui somado a tudo, a todos, e resultei nisso: um resumo daquele ano. Eu ainda vou continuar com o meu All Star, ouvindo certas músicas e com saudade de um tempo outro, com outras pessoas, mas hoje quem ficou, quem eu sou, o que sobrou é o que será de mim.

E tem uma letra do Phoenix que eu adoro que diz “guess I couldn't live without the things that made my life what it is.”