Friday, May 08, 2009

Carta endereçada.

- Todos os dias eu acordo, levanto e olho no espelho para saber se ainda estou lá. E eu queria contar, como se eu mesmo pudesse ser um conto de fadas, uma história trágica e uma comédia grega. Tudo empilhado na sala. Mas essa sala você não conheceu e nem os olhos azuis da sua neta. Ela cresceu e já está falando quase tudo. Tem um ar doce, esperta e já demonstra sinais de uma teimosia familiar. O Fábio disse que ela tem a boca parecida com a sua. Talvez tenha. Ela lembra você, mãe. Estranho notar essa semelhança. Mas ela também tem muito de mim. Ela é atrapalhada e carrega aquele ar de chatice. Eu mostrei a sua foto para ela saber que você existia dentro dela antes mesmo de haver vida ali. As vezes, eu corro para casa, com novidades juvenis, querendo contar, querendo aquele colo que não existe em nenhum lugar do mundo. Essa foi a primeira sensação que eu tive quando você partiu. É um vazio. É uma solidão derradeira. E fica sempre aquele ar de saudade na casa, seja pelas roupas que restaram, seja pelas fotos que eu não tive coragem de me desfazer. E eu mudei tudo. Será que você conseguiu ver o quanto as coisas mudaram? A pessoa que eu me tornei? Outro dia lembrei-me do quão pouco estivemos juntos nos últimos anos. Eu me afastei. De certa forma, esperávamos por aquele dia. E quando ele chegou ninguém mais teve coragem de dizer seu nome. Eu nunca mais comi siri daquele jeito que você fazia. E mesmo com a receita na mão, o peito dói só de sentir o cheiro. E mesmo aquele arroz de forno, tão fácil de fazer, eu não consigo. Perco a mão, deixo diferente. São as pequenas coisas que dão saudade. Eu fiquei mais próximo da família. Unimos-nos pela saudade. Mas ao mesmo tempo, tudo ficou diferente. O Fábio cresceu, virou pai e agora é responsável pela família dele. E lá parece que o tempo não muda nada, nem mesmo as paisagens que você viu tão pouco. Mas será que tudo isso ainda faz algum sentido? As vezes eu acho que eu sempre te pergunto se eu ainda posso, mas todos os dias eu acordo, levanto e passeio pela casa, ainda em silêncio, com o barulho da rua.

- Mas você nunca mais esteve no sofá, fumando, tomando café e perguntando se eu não estou com fome ou se vou levar um casaco porque vai esfriar.

1 comment:

F. said...

Lindo. Tocante e nada piegas.
Saudades
F.