Friday, June 25, 2010

Pós

houve um tempo em que escrever, pintar palavras, era um mal necessário. Aos poucos tudo ia se acumulando, peça por peça, até transbordar num infinito espaço de caracteres específicos. Lia os poemas de Keats, devorava a beleza de seus poemas. Mas a distância fez perder o ritmo das coisas. Tudo do avesso com um sentido oposto. Troquei a cama, a cor da parede, aparelhos eletrônicos e tirei todos os livros e as estantes. Agora, esse espaço vazio, no anseio pelo novo. Ando mal do estômago, me entrego a lábios desconhecidos com uma frequência que não sei administrar. O celular toca, perco as ligações. Prefiro não atendê-las. Um refúgio. Conto as estrelas e torço para que os dias fiquem nublados e taciturnos. Voltei a ler Virginia e descobri novos caminhos em minhas leituras. Há duas semanas que estou gripado. Não diminui o ritmo. Se eu parar, temo que pensar somente nisso. Dói esquecer. A memória pesa, os olhos facilmente se perdem na paisagem e os sonhos são sempre...

A verdade é que o tempo constrói com esses tijolos, pouco a pouco, da dor à mágoa. A decepção que abre o caminho como um facão. Devolvi alguns livros para o quarto. Somente os favoritos. Ainda me faz falta. O tempo arrastado nas nuvens e nos casacos. Ainda faz falta. As palavras todas. As promessas.

Ainda dói. Nas delícias do novo, nos momento cada vez mais sorridentes, ainda dói, dói não lembrar mais como é o seu rosto.

Friday, May 28, 2010

Tudo ressoa. Uma constante de palavras, idéias, pensamentos, ditos. Dessa vez, nenhum não-dito. Do voo livre, a queda, tudo quase como uma vertigem. Eu me equilibrando com uma perna entre muralhas, picos e altas nuvens. Nada pior do que acordar de um sonho. Os olhos, lentamente se movimentando, o pesar do sol entrando novamente, mais um dia, pela janela. Um mundo desmoronando diante de tanta alegria, tanto amor. O mundo se formando em outros mundos, novos formatos, diferenças e pequenas peças que se encaixam. À tudo que se parte ao meio, despedaça. A vida, novamente, se desfazendo da gente. É como um corte, profundo, incisivo. Uma mistura de sangue e dor. Ali, bem no canto, meu coração parou por instantes. Meu peito, minha boca, minha saliva.
O coração, em pedaços.
Ninguém define ou entende dor maior do que ver partir algo que se ama. Tudo ressoa. A saudade, o amor que ficou, a perna se equilibrando para não se deixar cair por terra. O caminho livre. Se somar, se deixar somar, se deixar ir. Tudo isso preso num respiro.

Minuto a minuto.

Thursday, April 22, 2010

Tudo.

Tudo parece estranho. As mudanças inacabadas dos dias intermináveis. Aquela vontade de entender mais sobre políticas modernas e filosofia sofista. Tudo parece estranho quando se têm um tempo a frente. Tarefas e agendas empilhadas, livros e cartas devolvidos aos remetente. A saudade parece ser sempre um tempo paralelo. Lá vivem todos ainda presos nos momentos - pequenas bolhas de histórias. Mas eu não estarei sempre aqui. Escrevo da saudade, como se já tivesse partido, simples assim em primeira pessoa. Lembro de histórias que não vivemos ou de brincadeiras que não tivemos. O peso daquilo que fomos um dia e o peso daquilo que somos. Num futuro, talvez sejamos plumas, deterioradas pela vida e pelo distanciamento. No futuro, sejamos honestos e altruístas. Agora, tudo me parece estranho. Sem linha reta, sem verdade, somente aquele pneu furado e tudo parado no acostamento.

Tudo me parece estranho. Antigos pesadelos. Novos sonhos, carinho e tudo o que restou no canto do olho. Sejamos honestos: aqui ninguém mais está interessado no futuro. Um dia, talvez, eu não esteja mais aqui para contar histórias ou segurar o peso. Um dia é possível que existam outras formas de amor. Por enquanto só o peso do disfarce. Das nossas mentiras.

Monday, April 05, 2010

É preciso um sentido. É precido dar um sentido.
O contrário de tudo e o movimento das nossas manias. Mania de ser, mania de fazer, mania de prestar atenção as coisas que não existem. Do mesmo despertar, também é preciso que haja um sentido. Não basta mais abrir os olhos e ver que outro dia recomeçou. Mais além, nada disso faz sentido. O esgotamento das possibilidades, a fome por algo maior. Talvez seja disso mesmo que as coisas sejam feitas: uma espécie de sentido, de reviravolta, a novidade propriamente dita. E é preciso um sentido. Cortar as manias viciantes, daquelas conversas pelo telefone, das vozes ocultas em diálogos pouco objetivos. Um esconderijo perverso. Todos os jogos para satisfazer o prazer de viver consigo mesmo. Para isso, é preciso que haja um sentido.

Mas, ainda que não haja, as representações devem ser fora o mundo externo. Muita filosofia e pouca atitude. A realidade por si só não basta, é fato. É preciso que haja sempre um pouco de sonho, um pouco de imaginação para que o desespero fique sempre no canto do dia. É preciso que haja sentido nisso tudo. O mundo enquanto vontade de representação e desse mundo o que esperamos do dia-a-dia.

Aqui, o mundo sem razão alguma de existir. Tudo numa distância extrema. Por isso, dar o sentido, por isso pedir uma existência suprema. O vazio de não mais sentir nada, não experimentar a vida como ela deve ser experimentada. Pouca ilusão e muita dose de realidade.

Aqui, é preciso dar um sentido. Sabe-se lá como.

Friday, March 26, 2010

Eu descubro aos poucos, liçoes não aprendidas na infância. Um jeito peculiar de enxergar o mundo refletido pelo olhar alheio. Essa atenção bastarda que o mundo não me dava, os percalços, o mimo. Velhos hábitos, manias e dores que parecem sempre ter mais pressa em chegar. Ninguém gosta de confissões ou meias verdades. É dificil falar sobre aquilo que foi enterrado há muito tempo. Deve ser aquela velha história sobre cicatrizes. Esses machucados que só quem foi abatido, sabe o desprazer de ter a memória sempre cutucando o presente.

Mas tudo é uma medida quase imensurável. A verossimilhança cada vez mais distante, pedindo socorro e gritando aos quatro ventos. Mas as coisas não param. Ao contrário, elas têm uma velocidade maior que a do pensamento. Num piscar de olhos e tudo muda. As paixões, os vicios radicais e o pensamento pragmatica. Aquilo que nos move, enfim é aquilo que nos machuca. Mas toda descoberta leva tempo e precisam de um começo. Eu descubro aos poucos que muito além daquilo que eu enxergava, havia o embaçado. Reflexos de espelhos semelhantes ao que recordo de tempos em tempos. Mas a recordação também é árdua, lenta e trabalhosa. Se pudesse, esqueceria. Algo como um recomeço. Pra que tanto aprendizado?

É esse o grande mistério?

Wednesday, February 24, 2010

Hoje de manhã.

Tudo amanhecendo. Os carros descendo a rua. As luzes das janelas acendendo uma a uma. O Cheiro de café, barulhos de copos e pratos, choros, água escorrendo, pássaros ligeiros e um leve cheiro de vapor de água.
Da exaustão, da tentativa desesperada em se esquecer e ao lado mais escuro. Os dias correram naquela velocidade estranha de quem espera sentado. O tempo que se desfez em pequenos fragmentos de risadas, de olhares e formas de amor. Sim, o tempo requebrado, recortado em milhões de segundos. Assim, como nas letras de música, como nas vezes em que deitamos na cama e ali resgatamos promessas e deixamos uma fé para o futuro. Foi esse o tempo que você quebrou. Marteladas e estilhaços.
E tudo isso, na minha inconstância, na falta de vontade ou atitude. Tudo o que era para ser meu. Agora, tudo vai amanhecendo. A falta de coragem em continuar doando minha vida. Ao nada, ao desespero à calmaria de todas as manhãs.
Dormi por horas de ontem para hoje. Os olhos pesados, o corpo exausto de tudo, de pensar, de deter e de recolher pedaços da realidade. E agora, tudo vai amanhecendo aos poucos. Lembranças de ontem e saudades do amanhã.

Thursday, February 18, 2010

É como se...

tudo fosse uma brincadeira.
É como se toda hora tivesse menos de sessenta minutos. Como se os números somados, não dessem o mesmo resultado exato. É como se cada página do livro estivesse vazia. O plural sem "s". É como se cada batida do coração fosse vazia, sem som, sem trabalho. É como se o corpo desistisse da luta, a luta desistisse da espada e a espada da vitória. Toda inspiração em um único sonho matutino. É como se o sentido da irônia fosse a verdade e a verdade fosse mentira. Como se o dia, não tivesse luz e a noite ensolarada. É como se as letras formassem números. É como se a chuva fosse seca como o solo, e o solo um oceano de água salgada. É como se rezar fosse abrir os olhos. Como se deus fosse uma pessoa e o mistério estivesse revelado. É como se o tiro não disparasse e a bala fosse feita de açucar e o cristal duro como uma rocha. É como se o sentido das coisas não existisse e no lugar somente o que as coisa são. É como se cada música não tivesse som e som fosse apenas o silêncio. Como se o caráter não fosse essência e apenas um ato de coragem e a coragem pudesse ser ensinada. É como se o amor se tornasse racional e a razão virasse paixão. É como se amar fosse tudo isso, ao avesso, contrário a vontade. É como se o desejo não tivesse tesão e o tesão existisse somente no sonho. Todos os sonhos. É como se o ato de amar deixasse de existir e o carinho virasse ódio e o ódio fosse apenas um instinto de defesa. É como se Édipo voltasse a enxergar e Medéia fosse absolvida. É como se tudo fosse brincadeira. Sem sentido, sem receio, sem verdade. É como se todas as máscaras disessem a verdade. É como se amar, amar, amar e amar fosse uma escolha. É como se...

Sunday, January 17, 2010

De volta.

Quando criança, sempre me diziam antigos ditados. Expressões, jargões, frases que, na época, eram sem sentido (uma espécie de brincadeira de adultos). Os castigos eram igualmente acompanhados de conselhos contraditórios. "Você podia tanta coisa", "Diga-me com quem tu andas, e eu te direis quem és" ou qualquer coisa que o valha. E tudo com a mesma expressão no rosto. Um tom acima, a testa enrugada, os olhos semi-cerrados e as mãos que balançavam também como se estivessem tentando explicar tudo o que estava sendo dito. E claro, tudo aquilo que eu não entendia foi assumindo formas diferentes conforme a vida foi passando. Em diferentes momentos, em diferentes épocas em que sentimos crescer dentro de cada um aquilo que depois viria a ser o "eu". A formação estranha, o modo como o mundo entrou pelos olhos e o modo como o caminhar foi aprendido. Os erros, acertos, dores e alegrias. Aí, todos aqueles antigos ditados se tornaram parte desse crescimento.

Tudo passa rapidamente. Até isso me disseram. Num piscar de olhos, tudo pode mudar. Uma simples palavra pode levar um país à guerra. O amor dói. E por ai vai. De toda essa formação, é dificil entender o que foi nosso e o que foi dos outros. As manias excessivas. A falta que faz um conselho. Vez ou outra, abro os olhos e relembro de alguma coisa que minha mãe me disse. Procuro sempre uma espécie de bússula para me dizer onde ir ou quem seguir. No final do dia, a sensação é de que a bússula, ou mapa, está preso em algum lugar do meu corpo. Talvez seja esse o mapa. Seguir a si próprio, num caminho trilhado pelo o que minhas mãos sejam capazes de fazer.

Mas a vida e aqueles que estão juntos têm um peso. O fardo, como diriam, pesado demais para ser carregado. E eu não sou religioso. Isso me ensinaram. A vida por si só já tem o seu peso. E quando eu era criança eu não entendia muito bem o que isso significava.

Quando criança eu não sabia que a vida em si não é pesada. Talvez hoje eu entenda que O peso não está na vida, mas naquilo que carregamos ao longo do caminho.

Friday, December 18, 2009

Feliz ano velho

Eu poderia jurar. Jurar que no próximo ano, mudarei, esquecerei ou farei tudo aquilo que nesse ano não consegui. E todo final de ano, as coisas se repetem. Antigos desejos, anseios ou mesmo amores. Tudo se repete compravando que, sim, a história é cíclica.
O tempo passou, e algumas coisas mudaram. Naturalmente, nada foi uma escolha. Por simples que pareça, as coisas mudaram. Dentro e fora, deixei de lado muito do peso. Deixei que uma certa leveza tomasse conta de tudo. Mas eu ainda poderia jurar que eu jamais me divertirei como me diverti esse ano. Posso jurar que eu não vou mais fumar, beber, beijar estranhos. Poderia jurar que vou esquecer isso tudo, fazer as malas e partir para longe dos problemas. É só uma questão de simplificar. Tudo aquilo que eu amo, tudo o que desejo. A realização, essa realização que todos esperam da vida, nada mais é do que trazer para o amanhecer os sonhos da noite. Esse sonho, há tempos guardados. Posso prometer, jurar que esse ano eu vou realizar todos esses sonhos. Jurar que eu não vou deixar de amar, nem esse ano, nem nos próximos cem anos ou mais.
Mas o que é esse término de ano, senão um término de ano? Algo que passou. A soma de tudo o que foi. Mas será isso uma soma? Talvez, por mais que eu não goste, a Clarice esteja certa ao dizer que viver ultrapassa todo o entendimento. Existe a possibilidade. Mais do que matemática, a importância disso tudo é que seja no próximo ano ou amanhã, ou daqui cinco minutos, eu não deixarei que tudo o que eu sonho se desfaça com o abrir de olhos. São três os desejos. São três.
Eu poderia jurar que jamais vou me esquecer desse texto. Mas isso seria irreal. Por enquanto, só posso jurar que não vou me esquecer disso:

Sunday, November 29, 2009

Ego

Talvez seja o egoísmo. Algo relacionado as formas de relacionamento mais intensas, daquelas de tirar o fôlego pelo olhar, pelo jeito que os lábios delicadamente encostam um no outro. Talvez seja egoísmo, essa coisa de querer tudo para si, todos os pensamentos e a vida inteira. Uma outra versão um pouco mais elaborada. Pensar que desse jeito basta e está ótimo. Versos retorcidos, grandes sorrisos e todos os momentos que se pode dizer sobre a felicidade. Pelos olhos, pelos olhos ninguém morre mais. Talvez seja o egoísmo, esse momento em que pensar para si é criar sonhos. E pouco importa se existe de fato uma finalidade para tanta esperança. A verdade é que tem dias que o calor é incontrolável e que todos os instantes eu projeto um mundo só meu; um mundo perverso, enfeitado, floreado por palavras delicadas, pelo meu corpo, pelo calor e pela intensidade de tudo. Aqui, o imortal é simplesmente uma passagem para algo maior.

Talvez seja egoísmo meu ou simplesmente um desejo, maior e incontrolável, esse de querer tudo para mim.

Monday, November 23, 2009

...

disso, talvez, ninguém nunca saberá. Se foi o começo, re-começo ou simplesmente uma nova arte de amar. Disso, ninguém saberá. Esse perfeito número, uma equação de dar inveja e toda a química do mundo misturada. Vozes silenciosas, mortes medievais, a cada dia me vai um pedaço. Mas, continua assim mesmo. Em pequenos contos, pequenos versos esboçados entre os lábios, gestos e pequenas lágrimas distantes. A cada dia, morro um centímetro. Se é carinho do destino, se é da ordem do castigo. Seja como for, a cada dia, perco um pedaço de mim.

Sunday, November 01, 2009

Apenas.

Adoramos o tempo. Adoradores do etéreo, daquele vazio em que tudo pode, mesmo que por instantes, pequenos instantes. Adoramos como as passagens são rápidas e quase imperceptíveis. A concomitância entre o ser e o estar. As representações do mundo quase como um significado para todas as questões da existência. Esse é o derradeiro momento das coisas. Adoramos o tempo.

Já houve momentos em que contar a idade era quase um levantamento matemático. Hoje, é ato de coragem. Ser aquilo que o tempo formou. Ser a soma da experiência com o tempo. Mesmo as subtrações específicas, aquelas que apagamos no poder da memória, são contabilizadas no balanço geral. Se pudéssemos, o tempo não passaria jamais daqueles instantes de felicidade. Mas é fato que nada dura para sempre. Sejam os sorrisos, os desejos, as promessas ou mesmo aqueles doces discursos do viver para sempre. Os planso nem sempre possíveis. Existir é o cálculo. Existir são todas as somas. Indo sempre para a direção do maior e do melhor. Adoramos o tempo. Ele quem traz as marcas no corpo, tatuagens naturais para lembrarmos o quanto se é possível sobreviver ao mundo. Dores, despedidas, partidas, família, beijos, paixões, amores. O resultado vai ficando nos cantos escondidos de cada um. Nosso tempo particular para processar o que é que a vida nos ofereceu ao longo do andar. E pode parecer pouco mesmo, mas como na matemática, quanto menor o número do resultado, maior foi a soma. Eu penso nisso.

Nos anos que atravessei e não vi. Nos momentos em que tudo parecia uma grande mentira. Nas duras palavras que ouvi. Nas manias que adquiri para sobreviver. Nos amores que eu tive. Nos beijos estranhos. No sexo sem fundamento. Nos momentos felizes. No vício. Nas noites e nos dias. Nos erros que cometi e não sabia. Eu penso em como aquilo que eu mais queria eu não podia ter. Todos os tapas na cara, todas as puxadas de orelha e todos aqueles que se foram ou que eu deixei partir. Adoramos esse tempo.

O tempo que parece apagar tudo. O tempo que conserta erros, ajusta o presente e dá continuidade para o futuro. E mesmo não gostando, é uma data para se entender os pesados anos que se passaram. De batalhas, lutas, mortes e decepções. Nunca o tempo se encostou. Parece realmente pouco. Ou por muito tempo achei que era pouco. Mas é fato, quando ela diz que nada disso foi pouco. Mas para toda história, como apontou Aristóteles, existe o ponto de quebra. Aquilo que separa a dor da vitória. O herói diante do seu confronto. Sem imitações, essa é a vida que construi com o tempo. tijolo por tijolo. E até mesmo ele, narciso, adora a si próprio. O tempo.

Adoramos esse tempo. A soma. A felicidade e a dor andando juntas, cada uma de um lado da via. Adoramos como tudo parece uma agulha e linha: a grande malha de retalhos. É esse o tempo. Tudo recomeça, termina, inicia.

Adoramos o tempo. Apenas 28 anos.

Tuesday, October 20, 2009

um dia.

E quando perguntarem, ninguém saberá a resposta. Dos tempos estranhos, desdobrados em milhares de pequenos instantes. Rápidos, apressados e quase desapercebidos. Do tempo, ninguém saberá o que responder. Tudo em um instante. O gatilho da memória. Aqueles mesmos mistérios do corpo que fazem da alma apenas uma fração de segundo. E quando perguntarem do tempo ou das histórias, tudo poderá ser uma ficção. Essa mania de negar e reler os mesmos pensamentos. Um único dia, uma única forma de vida. Os passageiros apressados, desmascarando o desejo como se fossem artistas daquela peça mal ensaiada por todos. E dele mesmo, do tempo, não saberemos quando, quanto e onde. Respostas inócuas, espaços vazios para um dia virarem memórias.

E quando perguntarem, ninguém saberá a resposta. Se tudo não passou de um velho truque de magia ou se aquilo era a realidade. Do tempo, da resposta, dos momentos e da velha interrgoção:

Tuesday, October 06, 2009

nu e cru

Eu andei pensando.
Pensei nos medos que vim sentindo. Nos caminhos errados. Nas vozes que ouço e não reconheço. No tempo. No tempo como sucessor da imortalidade. Pensei na matéria e na filosofia. Nas gotas que caem do céu. Pensei o quanto tudo é vagaroso. Os dias quentes, os dias frios, os dias bons e os ruins. Essa história toda de contar contos infinitos do amor e do ódio. Essa transformação do corpo. Eu andei pensando em tudo. Na grande soma de todos os medos e nos lapsos de felicidade que acompanham os sorrisos esporádicos. É só uma maneira de expor a vida.

Eu andei pensando nela e na falta que ela faz. Eu nem percebo.São os momentos inesperados, ou partes de momentos em que ela estaria perto. Nos carinhos que ela costumava me dar, mesmo quando eu não pedi. No jeito de cozinhar aos domingos. O tempo, curto, em que ela foi feliz, sorrindo nos shows, indo ao cinema, lendo um livro que eu havia deixado jogado em cima da cama. Andei pensando o quanto eu sou parte dela. Isso eu nunca vou conseguir me livrar. As madrugadas em que eu acordava e a via na sala fumando um cigarro. Andei pensando em como tudo foi rápido demais e eu não percebi. Lembrei daquela tarde e da semana anterior. Eu estava tão distante. Lembrei o quanto, hoje, eu queria poder contar e deitar no colo dela.

Os pensamento, todos eles, acompanhados de dias bons e dias ruins. Esse mover de coisas que eu faço só para não me distrair. Os segundos contados, as horas intermináveis. As vezes, os dias parecem não acabar. Será que faz tanto tempo assim? E me entristece quando eu tento lembrar, e não consigo mais saber como era o rosto dela. As recordações, como me disseram, viraram a saudade. Será isso viver em tempos mortos? Essa busca constante para preencher um espaço, um vácuo tão grande que nem mesmo eu consigo calcular.

Tudo isso junto. Assumindo a saudade. A conclusão de que no fundo, ninguém é forte o suficiente. Eu mesmo que me imaginei um dia corajoso. Não há força para se controlar uma saudade. Não há força para os dias ruins.

Nesses dias, só mesmo ela, só ela, conseguiria me fazer sorrir.

Wednesday, September 23, 2009

You live, you learn

Eu tive braços. Eu tive mãos. Tive pernas e pés. Tive os olhos, a boca, o nariz e o ouvido. Tive a ponta dos dedos. Tinhas unhas e digitais. Tive as costas. Tive o cérebro. Mantive meu coração. Silenciei minha voz. Troquei meu peito e experimentei o estômago. Senti pelos fios de cabelo, pelas narinas, pelos poros abertos. Eu tive as dores. Tive os sonhos em bolhas de sabão. Tive o prazer e o desamor.
Eu tive os braços feitos para segurar o seu corpo. Tive as mãos nos seus cabelos. Tive as pernas e os pés encostados no seu caminhar. Tive os olhos dentro do seu mundo, a boca beijando a sua, o nariz no seu cheiro e o ouvido para sua voz. Tive a ponta dos dedos presas em suas mãos. As unhas arranhando suas costas e as digitais provando que eu era seu. Tive as costas para carregar o mundo, o nosso mundo. Mantive meu coração para contar as horas em que não estive ao seu lado. Experimentei as dores do estômago.
Eu tive os braços para voar sempre que preciso dentro e fora de você. Eu mantive meu coração, ardendo, calado. Eu mantive tudo.
Inclusive, você, em tudo que sou.

Monday, September 21, 2009

Setembro.

Nunca setembro demorou tanto para passar. Vagaroso, eu diria. Os dias tão instáveis, presos e seguros por um único fio, fino e delicado. E tudo isso pela sinceridade de deixar de lado os motivos para sorrir, deixar de lado os olhares, o corpo, as formas de diversão. Tudo colocado na espera. Nunca tudo isso demorou tanto para passar. Esse ceticismo em não acreditar em nada e o o orgulho que deixou de ser passageiro. Os longos chuviscos do inverno nada frio, sem mãos no bolso, somente o recolhimento necessário. Nunca em setembro tudo ficou tão sem sentido, como agora. Os passos largos, a pressa de acordar e a ansiedade em dormir.
Como se mede um caminho quando não conseguimos ver o fim? As pessoas ao redor, os carros passando apressados, os faróis verdes, vermelhos, pontos, pessoas, casacos, calçadas e fachadas. E mesmo as coincidências parecem ter se perdido nas entrelinhas de tantos pensamentos entorpecidos. Vozes e cores, música para deitar.
Depois disso, acho que nunca nada será igual.
Ainda assim, setembro nunca demorou tanto para passar.

Sunday, August 30, 2009

Frias almas

Seria a redenção a melhor forma literária de se construir o personagem principal? Dos filmes pragmáticos, dos escritos antigos, das formas mais variadas de se descrever o encontro da vida com a realidade. Com tudo isso, seria possível que a redenção fosse a melhor escolha? Render-se ao temor das religiões, render-se à deus, ao paraíso e à moral como a arqueologia perfeita na construções da sociedade. Sociedade interna, dona dos nossos segredos indiziveis que estão colados ao espírito como se fossem um só. Essa mesma dona, senhora do mundo obscuro em que habitamos na solidão do dia-a-dia. Sim, a consciência de que somos capazes de ter. Esse lugar, velado, selado que vez ou outra nos assombra nas mais variadas formas. Dar lugar ao saber e ao conhecimento de si próprio. Como pode a alma ser uma essência pura? Será que é nela que reside a nossa ingenuidade, nossa inocência e ao mesmo tempo o nosso pior. Não é sequer uma prerrogativa. Isso tudo que não entendemos.

Na antiguidade, diziam, ser o fígado o resposável pela nossa natureza; No romantismo, nos voltamos ao coração e sua engenhosidade como símbolo de vida e pulsão. E não seria de se estranhar que no mundo contemporâneo o cérebro fosse o órgão a ditar as regras da nossa vida. Mas a dissociação dele com a nossa alma, com o nosso espírito ainda reside no plano das suposições. Como se render ao fato de que somos compostos pela ciência e pela imaterialidade? Esse cérebro que nos é tão estranho e ao mesmo tempo tão intrínsico ao nosso viver, nos faz questionar a grande interrogação de "quem somos e do que somos feitos?". Essa nossa "alma" comandando tudo o que somos. Feitos de consciência, consciência tardia e não muito evoluída. Essa consciência egoísta que nos traí, nos deixa à deriva, presos na beira do penhasco.

Seria essa a redenção para todas as questões? Quer dizer, ser a alma a guardadora de todos os nossos segredos, de todas as indagações. Quem somos, o que sou, por que faço e para onde vou. Se existe essa linha tênue entre o nosso cérebro-comandante e a nossa alma mais romântica, seria a consciência uma simples mediadora entre esses dois mundos? Mundos negados, mundos religiosos, científicos e tão irreais?

Seria a redenção a melhor forma de se terminar um texto? Viver a vida dos outros, ao invés da nossa, é render-se ao mais perfeito altruísmo humano? Para onde se vão os olhos nessa redenção?

Para onde se foram os meus?

Monday, August 10, 2009

Agosto

Isso eu nunca vou saber. Do que é feito um abraço desse jeito ou como deve ser um conselho dele. Nunca vou entender tantos motivos e tantas desavenças. Das broncas que nunca levei, dos passeios aos domingos em que nunca fui, das conversas e do jeito de acreditar em mim. Nunca vou saber do que é feito esse amor. Tive dela, o amor dos dois. Tive dela as broncas e os passeios. Os conselhos sempre racionais e a delícia de ser abraçado. Dele, ficou faltando muito. Dele faltou tudo. Nos momentos mais tristes, na ausência dela e no caminhar. Nunca saberei o que é desabafar, falar de como, às vezes , eu detesto o meu trabalho e dos meus amores impossíveis. Ele que nunca se manifestou e eu que fui obrigado a me reconciliar com uma história que eu nunca tive. Isso eu nunca vou saber. A delícia de sentir-se filho. A delícia de ser abraçado e amado por ele ou mesmo um carinho com as mãos fortes que eu herdei. Os passeios de bicicleta, as brincadeiras mais bobas e até mesmo os péssimos hábitos adquiridos. Dele, só as lembranças que me esforço para esquecer.

Isso eu nunca vou saber. Se tem explicação, se é só o jeito que as coisas são. Dele que herdei as mãos e o queixo dividido.
Mas procurei muito dele em todos os lugares. Procurei em mim. Procurei em braços estranhos. E ficou só isso. O espaço vazio que ele deixou e minha adoração por mãos. Talvez um dia eu saiba o que é ser, mesmo não tendo recebido.
Isso eu nunca vou saber.

Dele, nunca saberei o porquê de tanto desamor, tanta resistência e tanta amargura. Dele eu nunca vou ouvir. E ainda assim, desejei ontem, no escuro do meu inconsciente um feliz dia dos pais.

Friday, August 07, 2009

Michel Foucault

É tudo uma questão de castigo. Em casa, na rua ou em qualquer outro lugar. Vigiar e punir. É tudo uma questão de entender e estender o poder. Esse mesmo poder que agora se instituiu a todos e para todos. Nessa hierarquia mal construída, todos temos micro-poderes. Vigiar e ter a sensação de que se pode, mesmo que pouco. Denunciar, delatar, servir ao modelo maior da moral. E a boca, aposto, saliva naqueles que se dizem sargentos da sociedade. E voltamos à nossa querida infância onde a malcriação era severamente punida. Mas ai, vêm os guardiões da moral dizer que é uma questão de saúde pública. É, a saúde pública em um país, seja da ordem que for, da classe que for é, de fato, uma preocupação social. Especialmente aqui em que as regiões carentes se encontram em estado de plena miséria, é de fato questão de saúde pública proibir o fumo em locais fechados. É tudo uma questão de castigo. Se ninguém quis parar de fumar - o pai avisou - a solução foi proibir. Não tenho como me sentir mais criança. Como aquela criança sentada na porta da casa, com a mãe na cozinha fervendo a água para misturar à farinha e fazer o que eles entendem por comida. E claro, essa água era para durar a semana inteira, mas a fome falou mais alto. É uma questão de saúde pública que não temos memória política.

É tudo uma questão de castigo. Outro dia, li no jornal o presidente pouco se lixando para o que está acontecendo em seu governo. Virei a página e veio outra notícia falando sobre um casal de homens que foram espancados na porta de casa. No outro caderno, saltou-me aos olhos a notícia de que a bancada do PMDB tentará arquivar hoje os sete processos que restam contra Sarney no conselho. No mesmo caderno, um depoimento chocante a respeito das novas descobertas do colesterol. E a carta de uma mãe enviada à colunista especialista em comportamento e sexo, dizendo que manteve relações sexuais com o filho e que agora estava grávida. É, e aqui perto do trabalho uma manifestação a favor do fretado e professores da rede estadual reinvidicando por melhores condições depois que o colega foi morto dentro da sala de aula.

É, realmente, é uma questão de saúde pública. A idealização da classe média, por fim, chegou ao seu ápice. Vamos proibir o fumo em qualquer situação. Os direitos iguais castrados. Sinto que sofri um estupro mental. Lotes para se fumar fora. Lotes de 6 a 5 pessoas fumando na rua, vigiados pelo segurança carrancudo. Se pago imposto, se contribuo como qualquer um, pouco importa. A bola da vez é a classe média. A ascensão do novo burguês, que agora está protegido de nós, os fumantes insensatos e assassinos. A classe média está a salvo. Sentados à mesa do restaurante, a família ri e brinda feliz - com fumaça de cigarro à parte, por favor. O falso moralista ergue sua bandeira e finca o estatuto dos bons costumes. Nova lei, nova regra. As placas insinuando a punição. Lá mesmo, bem longe disso tudo, está a depravação da miséria. Mortos de fome, desmatamento e políticas ainda do engenho. Quem liga? Hoje vindo para o trabalho, um funcionário da CET, parado na avenida Santo Amaro, tapava o rosto depois de ser bombardeado pela fuligem dos carros. É uma questão de saúde pública. Avante moralistas. Brindemos à queda da democracia. A enfermidade que se enraizou dentro de todos nós. Agora, já acumulo a falta de direitos. Não tenho mais o direito de fumar, nem em áreas reservadas, e não tenho o direito de unir-me legalmente a pessoas que eu amo. É uma questão de saúde pública.
Não é mais uma questão política. Citar teóricos? Muito menos. Quando se dá, quando se transforma o poder e o distribui em pequenos pedaços, transformamos o Estado naquilo que ele mais quer: o poder absoluto, sobre tudo e sobre todos. E agora, além da grama do vizinho ser mais verde, teremos que aparar a nossa e a deles. Sim. E enquanto isso, todo mundo pro quarto de castigo.

E se eu te pegar fumando mais uma vez, eu denuncio você.

Monday, August 03, 2009

Depois.

Todos os dias, chuvas de sol, manias de escrever escondido do tempo. Aquele florescer natural de arrepio. As vozes intercaladas, dizendo razões para o futuro, promessas mascaradas e outras formas de sentimento. Queria poder dizer "hoje está chovendo". Hoje o dia amanheceu quieto, sossegado e nem mesmo um pio se pode ouvir. As rodas dos carros passando nas poças d´agua. O barulho da chuva caindo nas folhas do jardim. A cama vazia, estirada, perturbada pela saudade salutar. A ausência do corpo e daquele calor rotineiro que nos acostumamos.

Todos esses dias. Dias de partida. Dias de saudade. Saudades do gosto da boca, ainda relembrado por cafés e sobremesas delicadas, pelo gentil calor misturado aos novos ares. O sabor da pele. Um cheiro diferente. Novos retratos, novelas, músicas e livros. Todos os dias aquele gosto a caminhar pelo canto da boca, querendo adivinhar se é saudade ou manifestação da mente. Em noites quentes, o delicioso barulho dos restaurantes, da cerveja e do vinho. Delicioso afagar de cabelos, barba mal feita e roupas de viagem. Tão presente, perto e distante. As vozes se intercalando, ruídos e a saudade que não se vai.


Escondidos no tempo, ficam os dias de sol.