Monday, January 26, 2009

For the latest

Não se pode tudo. Curvar-se às entrelinhas tão dificilmente descritas no destino. Os antigos textos acompanhados de maledicências e críticas. Não se pode tudo. Dia-a-dia, os pormenores parecem juntar-se numa onda gigante de idéias alheias. O quanto é difícil erguer, do tijolo, uma grande torre. Talvez seja tudo terrivelmente inesperado. As surpresas de bolo, de laço e cor-de-rosa. E quando se pode pensar em tamanho, quantidade e tudo aquilo que é preciso para fazer da vida uma vontade a mais.Sem poder, sem poder mais do que aquilo que se espera, vou divagando, soltando palavras em faíscas, como se tudo fosse apenas uma lasca do meu corpo. E faço disso tudo, uma for física. Os dias deprimidos, sem que haja um motivo, mas pelo simples fato de eu poder fechar-me dentro daquele antigo quarto.
Não se pode tudo. Na força, na força que damos ao braços, restam às pernas poder carregar o peso.

Friday, January 16, 2009

Abra los ojos

Há muito tempo venho dizendo meu sonhos por ai. As palavras soltas, repletas daquela perenidade das idades iluminadas. Venho dizendo dos sonhos. Vozes elevadas e tudo o que se passou. É difícil se desprender do passado. É como os os dias quentes que vêm acompanhados das sombras nas ruas. E falar dos sonhos e projetar fora da cela. Dizer de tudo um pouco. Procurar verdades nos lugares mais inusitados. Das pessoas, permito enxergar o melhor, mas sempre acabo por ver o pior.
E saio ainda com passo saudadoso de tudo. Da minha mãe e de como eu não tive tempo de dizer o quanto eu amava ela. Dos rancores e das brigas com meu pai. Mas ainda pude consertar outros vasos quebrados. À minha família, digo ao meu irmão que ele é parte de mim; à minha sobrinha, deixo a barriga ser mordida pelos dentinhos frágeis, deixo ela passar gel e prender o pente no seu cabelo fino e até mesmo simulo mergulhos na praia só para vê-la sorrir. E ainda acho tempo para dar conselhos alheios, por pura diversão. E aos poucos o passado vai se esgotando. É um processo de cura, eu diria. As vontades de criança carente e o pirulito quebrado.
Eu penso nas diversas formas de se viver bem. Escolho as pessoas certas, os filmes, livros e programas de televisão. As vezes, tenho saudade. Saudade de poder dormir e não ter hora para acordar. Mas sempre que eu termino um trabalho, me sinto melhor do que se estivesse dormindo.
Eu falo muito de sonhos. Eu só queria mesmo agora, era poder não sonhar.
Queria só poder ser.

Tuesday, January 13, 2009

Não pela recorrência de fatos ou inverdades. Conselho num é coisa boa a se dar, qui ça receber. Toda a amargura, advinda dos lugares mais familiares, sem beijo na boca, ou carta selada. Quem disse que eu não tenho o direito ao recolhimento? Dos pesares sabe-se pouco. Não preciso de motivo verossímel para ser categórico ou pragmático. E convenhamos: pouco importa se eu sou de fácil acesso ou não.
Ninguém aprende sozinho. Ninguém sabe lá como os discursos possuem efeitos colaterais perigosos. E seria, deveras, fácil dizer que as intenções eram somente da boa vontade. Na forma como se cria a casca da cicatriz, só o machucado sabe como foi ferido. E as questões acumuladas, pressionadas, começam a escorrer para dentro das veias. É sangue em excesso pulsando o dissabor de um adeus. Quem disse que o inferno está cheio de boa vontade? Resta a dúvida. Resta o crescimento. Eu, tento parecer um pouco menos professoral. Devo dizer apenas que cuidar daquilo que me interessa é a prioridade. É, por que não, bíblico e tão experimental quanto temas atuais. O que pra mim nunca foi motivo de sabedoria, o relativismo foi e continua sendo a maior besteira do mundo, sem esquecer do fracasso do humanismo.
Sem delongas, não sobrou mais espaço. Não pela recorrência de fatos ou inverdades, mas porque as leis da física são maiores do que as minhas.
Se tiverem que existir dois corpos, no mesmo espaço, pelo menos um terá que sair.

Antes tarde do que nunca.
Que seja eu.

Wednesday, January 07, 2009

Sobre

A gente sempre imagina tudo do avesso. Contradições, experiências, vontades, ilusões, alegrias. Tudo ao contrário e nada de frente. Imaginamos como um dia poderá ser o futuro e até mesmo o presente. Os passados são desfeitos com orações e súplicas. E nada, nada, tem o mesmo efeito.
Imaginamos que o oceano possa ser infinito. Imaginamos como seria passar férias na Groelândia. Imaginamos que carne de baleia deve, no mínimo, ser gordurosa. Imaginamos como seriam os nossos filhos.Imaginamos se aqueles que se foram primeiro, chegaram enfim ao tal paraíso.Imaginamos que seria a sensação de matar alguém.Imaginamos como seria o primeiro beijo.Imaginamos como seria a vida em outra época.Imaginamos como seria ser loiro, ruivo, ter olhos verdes ou azuis. Imaginamos que a nossa vida é um filme. Imaginamos que os amigos próximos iriam nos respeitar.Imaginamos que os amigos seria fiéis e que teriam caráter.Imaginamos como seria acordar sem preocupações.
A gente sempre imagina tudo do avesso. Como se fosse mágia, truque para criança. Na realidade, tudo é diferente. Aquelas pessoas que você mais acha que conhece, no fundo, são aquelas que vão te empurrar pelo abismo. Mundo afora, há que se ter cuidado. Isso poderia ser conselho para um possível filho. Nunca se esqueça. Confie sempre naquele que não sorri muito.
Alguns dizem, o sorriso do diabo é dos mais sedutores.

Saturday, January 03, 2009

As festas.

Sono. Sono leve, sono pesado. Festas. Mesa, toalha, copo, pratos e talheres. Estouro de garrafa. Vela, reza, ceia. Mais um natal. Olhos azuis. Criança. Presente, faz-de-conta. Um, dois, três tiros. Estouro de latinha. Mais. Sempre mais. Música, dança. Amanhecer. Chuva forte, respingos, confinamentos e filmes. Irmão, cunhada, sobrinha. Amigas. Grandes amigas. Amor de família. Praia, mar, céu nublado. Encontro. Encontro armado. Mais olhos azuis. Pele clara. Conversa boba. Verdades. Mentiras. Beijo na boca. Beijo molhado. Beijo de suor e carinhoso. Forte. Beijo no peito, na barriga, no canto da boca. Sorvete na praia. Cinco da tarde. Passeio na areia molhada. Sol. Sol forte. Sol latente. Encontro na praia. Cerveja. Conversa íntima. Noites azuis. Noites brancas. Lua nova. Círculos vermelhos. Tudo vira poesia. Mais beijo na boca, cerveja, tiro, fome, beijo, cama, beijo, dedos no cabelo, cabeça deitada no peito. Mesa arrumada. Forno ligado, fome, sede, champanhe, cerveja. Vela. Mesa desarrumada. Roupa branca. Fogos. Muitos fogos. Felicidades e trocas de carinho. Real. Imaturo. Sem máscaras. Tolo e alegre. Beijo no canto. Beijo explícito. Palminhas de criança feliz. Palminhas. Sorrisinhos. Vontades. Ali. O encontro do mar com a areia. Nunca acaba. Começa, recomeça. Zero a zero.
Família. Amigos. Festas. Encontros. Ali. Inesquecível.

Wednesday, December 31, 2008

Sobre todas as coisas.

Num simples e singelo piscar de olhos, tudo pode mudar. As ondas num vaivém constante. As formas variadas de covardia. Aquela velha mania de sentir-se imaturo para tudo, até para um simples e-mail. Às vezes, as dores vêm de lugares que desconhecemos, são atingidas pelas mais simples coisas da vida e podemos até ver além de um simples sentimento. Mas ainda têm aqueles que não sabem o que fazer com o coração. Não sabem reagir diante de tamanha necessidade. Outras vezes, a vida faz um curso diferente daquilo que esperávamos. É tal velocidade do giro. Tudo, rápido demais.

E hoje é o último dia do ano. O dia em que fazemos promessas, guardamos cartas, fazemos melhorias físicas e espirituais. Amanhã, o mar leva tudo embora. Os barquinhos, as velas, as cartas, oferendas, sentimentos e longos vazios daqueles que nada desejaram. Aqui, desejo isso mesmo! Cada dia um pouco mais de verossimilhança e sem passar desapercebido. No próximo ano, espero ainda muito daquilo que ofereço. Mas as certezas são maiores que as velas ou as chamas e fogos de artifício.

Amanhã, um outro dia. Comum. Ordinário.

Com uma pitada de mudança.

Monday, December 22, 2008

Madonna

Uns não se interessam. Outros, a lei do menor esforço prevalece sempre. A indiferença de alguns pode, por vezes, machucar. As questões são irrelevantes. Se preferem a angústia ou mesmo a amargura de ver o oposto de tudo, pouco importa. Nada se equivale ao saboroso caminho de se sentir livre. Começar o ano, talvez, com um pouco mais de força. Mas são vários os porquês de dois dias em que tudo ficou em câmera lenta.
Riscar da lista do que fazer antes de morrer, eu risquei. Marcar o quanto meus amigos são importantes é só um reforço. Pular no refrão bordeline, segurar minha mão ouvindo ray of light ou simplesmente me dar espaço para o espanto da realização de um sonho. Tudo somado a, sim, realizar mais do que um sonho, mas deixar marcado nos lados mais reluzentes da memória um espetáculo, um sentimento mútuo, luzes, câmeras, som, batidas e o cabelo loiro. O rosto, bem perto, e a simpatia estelar. Nada se soma aqui. Às indiferenças, ou mesmo o desdém ficam marginais, sempre. Para quem preferiu a amargura ou a angústia de economizar na felicidade. E saíram todos gritando. Give it to me, dançando like a prayer ou mesmo no despeito ensaiando um shes not me em casa. Da chuva ao céu se abrindo rapidamente. Por trás, um filete de sol bem humorado e quente. Tudo se transformou. Dois dias em que o clima foi traído, os relógios ficaram sem ponteiros e os pés, os pés deixaram-se vencer e agitaram o corpo todo.
Aos que não se interessaram, restam as notícias online. Aos que preferiram a lei do menor esforço, cabe agora a boa inveja. A indiferença...bom, a indiferença é só mimo. No fundo, todo mundo se importa.
Já eu, termino o ano com a sensação mais plena que eu poderia ter. E não canso de repetir

and i feel, like i just got home.

Wednesday, December 17, 2008

Público

Ninguém mencionou mais o mesmo assunto. No final do ano, sempre as mesma posturas. Rememorar o passado e trazer ao presente diferentes maneiras de se apresentar ao novo ano. Oferendas, restos de velas, cadernos, incensos, fogueiras, anéis, fotografias, lembretes e cartões. As rosas estranhas e aqueles vasos antigos. O mesmo livro de cabeceira. Perdas, ganhos, fatos e eventos que mudaram, foram mudando até o ponto cedo dos olhos. Ninguém muda por acaso. As retrospectivas que nos lembram cada fato. Entregar rosas, prender o cabelo ou mesmo um novo corte. Em dois ou três anos em que tudo passou num piscar de olhos. As novas maneiras de se entender o mundo, de dançar ou até mesmo de ouvir uma música.
O ano que começa com aquela sensação de começar novamente. Não começa. Não termina. Os calendários mudam as datas, os dias e assim vamos reprogramando o cotidiano ordinário em cada vírgula. Perder namorado, mãe, carro, dinheiro, emprego, livros, discos e ganhar tudo de novo, namorado, apartamento, dinheiro, emprego, livros e discos. Ganhar uma porção de noites mal dormidas, bem vividas, noites de insônia, doenças, cáries nos dentes, gripes, unhas roídas, tênis rasgados e perder tudo de novo. Seja aos poucos ou de uma vez só. Ganhar presentes, sorrisos, perder um dente, uma vontade, viajar, deixar para trás, trepar, beijar, suar e dormir. Dentro da jaula, ninguém vê o tempo passar. Ontem e hoje. Resumindo os meses, os anos e um pedacinho da vida.
Ir atrás, sempre atrás de um novo começo. Aquele assunto, de certo, ficou para trás. Seja calendário ou uma data apenas; fogos de artifício ou oferendas, eu mesmo, nunca mais toquei naquele assunto.

Wednesday, December 10, 2008

O Coelho da Cartola.

Ninguém poderia advinhar. Nem sempre, o que se vê na luz é reflexo ou sombra de si mesmo. Se por instantes tudo parecer estranhamente sem forma, cor ou rima, é porque do Vazio nada se pode enxergar. Aquelas pequenas monstruosidades, ou com o mesmo virtuosismo de sempre, ninguém pode negar a dor de um tapa na cara. As vertigens adolescentes, os galopes pesados e o corpo frágil pedindo arrego. Os braços cansados de tamanha batalha, bolhas no pé e o pulmão já sem saber o que fazer. Desse estado, dessa litúrgia, nada sobrou. Apenas a vontade de um dia melhor, ou que se possa acordar com o cérebro descansado.
Dias corridos, noites de sono pesado. O corpo doente. O corpo pedindo atenção à saúde. Ninguém poderia advinhar que tamanha monstruosidade teria efeitos colaterais tão profundos. Da enganação, do desespero, do sexo e de tudo mal construído nas bases das falsas intenções.

Tuesday, December 09, 2008

Schopenhauer.

As atualizações de um sentido outro. Seria sentimento, pura explosão do corpo em pequenos astros reluzentes. A decadência das luzes, do material e do espiritual. Aquilo que enxergamos, já morto há milhares de anos. Nem estrelas, lua, ou mesmo anéis e bambolês. Não adianta olhar para cima. Gigantes, enormes pegadas e aquele peso quase desumano. O mundo nas costas.
Esse mesmo sentido outro, as coisas fora do lugar e sendo postas num canto, o canto direito do olho esquerdo, tapando e impedindo que a lágrima se deixe livre para escorrer sobre a face. Seria mesmo uma espécie de raiva. O mundo, a representação daquilo que se é enquanto matéria mal-formada. Da moral e até mesmo da Ética, pouco se pôde aprender. Das razões do espírito, leve ou fugaz, carregar a cruz seria melhor do que as mil chicotadas. Ele, sentido de toda construção, Ele mesmo a quem adcionamos letra maiúscula, nada pode fazer. As vontades e os sentidos. É o final do ano, as famílias reunidas, a vontade de querer reparar os vasos estilhaçados. Nem mesmos nos transfiguramos e já estamos pensando em pequenas oferendas aos deusas da antiguidade. Aqui, só a explosão de uma nova era. A era dos falcões, das águias voadoras que percorrem velozmente todos os estados da alma, pousando por fim naquela única ferida que não cicatrizou. As crianças abusando da boa vontade, experimentando brincadeiras e perversões. Restou somente a idéia do antigo menifesto dos laços eternos: rompê-los, todos, em um único e brutal movimento.
As atualizações do sentido. De pedra em pedra, pó em pó, choro em choro, resta a aversão do mundo. A representação do espelho. Cassandra sussurrando ao ouvido: largue-te! teu vôo alcançou outros ares.
Abdicar ao mundo.

Monday, December 08, 2008

Pequenos.

Foi preciso muito tempo. Os agudos conselhos e a intermitente vontade de mover-se, daqui, dali e de todos os lugares. É preciso mais do que isso. Do espírito, da fé e de todo o resto que nos foi ensinado desde o berço. Ainda é preciso entender a maldade, a perversão das crianças assustadas que, levianas, passam a destruir com os dentes qualquer presa que se torne fácil. O calor movendo-se contra as nuvens-de-sombra. Ontem e hoje fervendo pelo insistente vapor dos banhos e curativos. Cicatrizar é um processo deveras doloroso. Mais doloroso, é a busca por aquilo que não somos; pelo inexistente, ou pelo vazio do Nada. Como diria Nietzsche, “À medida que buscamos as origens, vamos nos tornando caranguejos. O historiador olha para trás; até que finalmente também acredita para trás.”
É preciso tempo. Acalento. Infusões. Sentimentos amargos. Dor, agústia e alegria. Deixar o peixe apodrecer. Renegar à existência de qualquer espécie de fé ou ligação com o mundo material-espiritual. Abdicar à Ele, a Deus, abdicar à carne, ao corpo, ao espírito como forma de condução dos pés na brasa. É preciso tanto esforço. Ler demais, devorar cada palavra e cada vírgula de um texto, sem pé nem cabeça. Para entender o mundo, basta a fome pelo confinamento de grades. Entender esse raciocínio fraco, insosso e perverso.
Foi preciso muito tempo. Descobrir o mundo tal como ele é, em essência e representação. Do todo, a menor partícula. Da lágrima ao mais puro sorriso. Ainda é preciso mais tempo. Descobrir do mundo, os abusos, a solidão dos astros e Estrelas. Entender as crianças perversas, saborosas criaturas do desespero humanístico. Isso soa um tanto desafiador.
Por isso. É preciso mais tempo.

Monday, December 01, 2008

Charles Dickens

Quando adolescente, tive contato com grandes clássicos da literatura. Por influência do meu padrasto, inicie-me na leitura de grandes nomes como Alencar, Machado e Monteiro Lobato. Posteriormente, da amizade com a uma senhora linda e simpática, dona de um sebo de livros no Itaim, meu espólio de leitura aumentou. Passei a ler, por indicação, Nobokov, Jane Austen, Laclos, Eça de Queiroz (que segundo ela sabia descrever o sabor das tradicionais comidas portuguesas como nenhum outro autor). Desses encontros, ganhei em um natal um livro volumoso, antigo e com cheiro de passadas de mão chamado Grandes Esperanças. O autor, Charles Dickens, um dos maiores nomes da literatura inglesa e atormentado pelas memórias da infância triste, pobre e mal-resolvida, causou-me um impacto maior do que eu poderia supor anos mais tarde. Dickens certa vez disse "it was the best of times and the worst of times (...)". Referindo-se a incapacidade dos homens em conciliar o Bem e o Mal no cotidiano. Anos e anos mais tarde, Freud completou em uma entrevista, ao ser questionado sobre o que seria uma pessoa normal, dizendo que uma pessoa normal é aquela que consegue conciliar o amor e o trabalho. Esse equilíbrio do viver responsável (racional) e do viver lúdico (passional). Essa pessoa que entende que o equilíbrio da vida deve pesar as neuroses da ética e da moral com os impulsos sexuais. Daí, nasce a incapacidade do homem contemporâneo em atingir um certo estado de felicidade, não plena, e tão pouco momentânea. Dickens, estava certo. Hoje, são os dias somados, subtraídos e multiplicados por milhões de afazeres chatos à alma, essenciais ao viver e ainda assim, cansativos.

Esses dias ensolarados que ao entardecer trovejam, relampeiam, jorram fortes lascas de chuva grossa e gelada. Nada tão incomum quanto isso. Ainda, temos as variedades do cotidiano: arrumar um namorado, estudar, trabalhar e todos os outros pormenores dos dias que somados, formam um grande círculo de mediocridade, sentimentalismo e castração. E isso não pode ser somente uma fixação da infância, como no caso das fases freudianas mal resolvidas. Roer a unha pode ser um sintoma de nervosismo, puro e simplesmente. E tudo isso se somando ao final de semana, ainda pode dar um resultado, talvez, delicioso. O descanso, os atos típicos do cansaço. Dessa delícia, nos fazemos. Os anos passam, as horas cada vez mais apertadas, os cabelos envelhecendo, a pele do rosto se contraíndo, as mãos com calos incuráveis. Uns chamam de envelhecer. Outros, recusam as linhas de um tempo que jamais voltará, mas que deixou as marcas para os espelhos, lembrando sempre o quanto se passou, de bom, de ruim, dos tempos de infância e banhos de mangueira no verão. São as linhas da saudade e concomitante ao Eterno Retorno - essa aproximação, cada vez mais veloz ao ancestral, ao espírito e ao pó.

Hoje, sinto saudade. Houve um tempo em que minha única preocupação era nunca ter lido Goethe. Mal sabia, lá atrás, que um dia, isso seria saudade e não conhecimento.

Friday, November 28, 2008

Bem-vindo.

As palavras vão costumeiramente circulando todos os fatos. Do passado ao presente, falo demasiadamente sobre os eventos que me alfinetaram nesses dois anos. As causas perdidas, a fome de morte e uma certa vontade de explorar o mundo como representação do meu próprio espírito. E os leitores, por vezes tão vagos, me visitam intimamente na procura de um saber ou de um entender de vozes, cantos, mitos e poesias que construam um pouco e desconstrua muito do que eu sou. Não há mistério algum. Se a palavra comum não fosse curta, ou pouco expressiva, poderia, eu mesmo, usá-la ao meu favor. Nem procuro mais entender o porquê de tudo. O melhor é sentar. Hoje me deu vontade de ler Barthes. Há tempos não abro nenhum dos seus livros empoeirados na minha estante. E tudo isso, as palavras que escapam da minha boca, voam pelo profundo e desértico mundo das coisas mortas. Falar do passado é dar sentido ao presente. As paixões cada vez mais distantes e cindidas, vou em busca de muita mudança, cores para pintar parede, decoração expressiva e um lindo sofá. Queria mesmo objetos de famosos e renomados artistas do design moderno. E imagino se pinto as janelas de verde-escuro com as bordas brancas ou tudo branco mesmo.
Sempre esperei o dia em que o mundo fosse girar, sem que eu percebesse, pois as surpresas me agradam. Minha fome em dizer ainda ficou presa na garganta, como um nó que me fizeram à la marinheiro. Eu poderia nesse exato momento correr até a porta do seu trabalho dizendo certezas do futuro para dois. Preparar buquês românticos de rosas vermelhas. Acontece que o romantismo ainda está com lugar ocupado. Levarei cravos. Ainda assim, estou à procura de um vaso grande para o corredor. Luminárias para a cozinha e um monte de outras coisas pequeninas que farão minha vida um pouco mais colorida. Digamos que tem espaço, só é necessário um passageiro. Amanhã, quero flores na minha porta e um lindo cartão:

"Sem bem-vindo!"

Saturday, November 22, 2008

Os nove passos do sucesso

Eu não espero. Não tem mais aquele valor fatídico e virtuoso de conseguir caminhar lentamente. Eu não espero. O seu telefone, súbito, melancólico e cheio de segundas intenções. E trocamos tudo pelas mensagens de sms do celular. Eu não espero. E quando naquela tela pequena nos encontramos, eu pareço ainda pular, como uma criança. Eu não espero, mas meu coração saltita, dá pulos e volta para a realidade sofrida na qual criamos um espaço único e raro, repleto de linha pintadas de amarelo que não podemos cruzar jamais. Essa saudade surda que nos faz largar o mundo e correr para a linha do telefone e para as nossas vozes já silenciadas por tantas mudanças. Eu não espero. Sento e ouço repetidas vezes o mesmo alô e o mesmo beijo, tchau. E ainda depois de tanto tempo revivido, ainda pensamos que ao final um dos dois dirá eu te amo e o outro responderá ansioso e morto de vontade, eu também. No começo de cada dia, vem aquele pensamento inquientate e pungente de hoje será o dia. E esse dia nunca vem. Eu não espero. Flores na campanhia, cartas seladas com perfume Yves Saint Laurent. A medida que tudo passa, as nuvens se aglomeram e o calor cessa, fica aquela interrogação.
Eu não espero. Pelo o quê ou por onde, eu sento e descanso os ombros em cima do corpo. Quem sabe o que esperam os dois, cada um de um lado da linha. Eu não espero você, mas os sonhos me traem e você quieto, desliga o telefone.
Eu não espero, mas eu sempre ouço a sua voz e você a minha.

Tuesday, November 18, 2008

Olha pra cima.

Tudo aquilo que flutua. Sobre a cidade já repleta de luzes coloridas, enfeites cintilantes e árvores com as pontas brancas, imitando a neve que nunca caiu. O Céu coberto de nuvens cinzas e os dias caminhando entre gotas de chuva e ventos aleatórios. O cenário de um dias e dias flutuando paisagens, idéias e uma certa leveza preocupante. Nada mudou desde o verão passado. Até mesmos os enfeites de natal são os mesmos. Ninguém espera mais beijos antecipados ou romances novelísticos. Por vezes, mil vezes, esperei um acontecimento gigante, com novos intrutores de renas animadas e gorros vermelhos. E tudo aquilo que era sólido, hoje flutua no imenso paraíso das causas perdidas.Ali, naquele pequeno espaço, príncipes, rainhas, desertos e vastos oceanos confundem-se com a idéia de que o inconsciente foi desenhado para nunca parecer mais do que ele é.
Infinitos. Distantes. Incapazes. Tudo tão efêmero. Os laços cada vez mais tênues e soltos. O nó desamarrado. O tênis gasto. São apenas cenas da vida. Do cotidiano maravilhado com a possibilidade dos sonhos em carregar para longe, todas as vidas de um único dia. Se construir em torno do que somos. Nada mais atormentado do que essa idéia. São como pesados elefantes prestes a invadir a sala e derrubar o único copo de cristal que sobrou em cima do móvel gasto.
Tudo aquilo que flutua, feito a neve que não existe aqui. A neve que não vai cair. Mas esperamos, olhando para cima. Já é quase natal.

Num adianta olhar pra cima.

Friday, November 14, 2008

Algo no ar.

As razões, dentro de pequenas bolhas. Sabão. Uma fina camada translúcida. Meio colorida. Uma bolha de sabão. As verdades e as mentiras. Coloridas. Frágeis para o vento. Leves como o próprio ar. Do canudo, ao vazio. As razões e os atos. Voando alto. Já perdendo força. As ligas do sabão rompendo-se. Logo, uma fenda aberta. Vontades e realidades. Desce. Pequena. Sem força. Só a bolha. Aquilo que se deseja. A transparência da água. Incolor. Sentimentos e paixões. Estoura. Do ar, caem os respingos. Gotículas espalhadas pelo chão. Foi uma bolha. Colorida. Sem sentimento. Paixão. Espalhada na calçada. Foi um dia. Pelo canudinho. Um sentimento. Tesão. No ar, o resto de um dia. Os rasgos da vida cotidiana.

A bolha e o sabão.

Wednesday, November 12, 2008

Walking down the street

Adoramos um sonho impossível. Adoramos aquela sensação de que possa existir algo que desconhecemos, esperando na esquina. Todas as idéias deliciosamente perversas. É disso que somos feitos. Até a mais cínica das mulheres sonha encontrar um homem que a faça feliz e até o mais desencatado homem anseia pela mulher que o transformará. Estamos numa busca constante pelo impossível. Ela sempre nos dá a sensação de que, mesmo sem, estamos à espera daquilo que nos preencherá. Lendas urbanas. Aqueles sonhos repletos de travesseiros, músicas românticas, noites e mais noites de conversas em bares e amigas e amigos consoladores. Se chove, é motivo para projetar possíveis situações de encontros, unidos pelo inesperado. Ninguém procura um esforço, mesmo que pequeno para acordar do sonho, ir em busca daquilo que se quer e pronto: ser feliz. Adoramos um sonho impossível. É claro, eles são deliciosos e preenchem milhões de momentos carentes e solitários. Dão sentido às noites de sexta-feira ou um sábado em que tudo o que se espera é um telefonema e até os domingos familiares. Esses sonhos tão cheios de irrealidades, mas borbulhantes de romances cinematográficos. Esperamos sempre um sonho na esquina, no cinema, no bar, na rua, no ônibus ou esperando na fila para pagar um livro. Adoramos um sonho impossível.
E não há como escapar da inevitável questão: por que esses sonhos impossíveis estão sempre, em sua maioria, ligados ao amor?
Talvez, seja porque o amor, o tão idealizado amor, o mais lindo, puro e honesto sentimento seja a única forma que encontramos de alcançar um possível e idílico paraíso. O amor será o salvador. Eu emagreço quando ele aparecer. Se eu encontrar uma menina assim, desse jeito, eu caso. Eu quero um menino de cabelo bagunçado, meio avoado que seja parecido comigo. Seja como for, estamos em busca desse preenchimento do vazio que nos foi dado no nascimento. Essa sensação que carregamos de profunda solidão do quem sou eu e para onde vou, certamente, seria suprida se encontrassêmos alguém com quem compartilhar, dividir e, por fim, encerrar a pífia sensação.
Posso estar enganado. Pode ser simplesmente porque queremos nos sentir desejados. Pura e simplesmente. Verdade não há.
Ainda, pode ser bem mais simplificado: queremos isso, tudo isso, os amores impossíveis, o homem rico que se apaixona pela garota de programa, ou seja como for, pelo simples fato de que aquele amor idealizado seja a sensação mais gostosa que podemos, um dia, experimentar. É como estar, 24h por dia, num pleno orgasmo. Simples: é muito, muito gostoso amar e ser amado. E quanto mais difícil, melhor e mais valioso será, afinal somos seres dito humanos.
Ou, pode não ser nada disso, mas é por isso que eu adoro poder sonhar, seja com isso ou com qualquer outra coisa.
Mais ainda: é por isso que eu adoro Pretty Woman.

Tuesday, November 04, 2008

Antigos

Não existiu nem a poeira, nem mesmo o som veloz da partida. As vozes se intercalando no escuro, recitando pequenas frases amorosas e o silêncio completo. Era o começo de tudo. Uma espécie de sagração. Início do efeito. Ali, tudo se desmancha rapidamente. Laços açucarados e uma vontade maior dizendo que no rastro, nem mesmo a poeira ficou para dar sentido ao discurso matemático.
Leves caminhadas. Leves toques no rosto. As noites cansadas de velas e dores oculares. Nem rastro nem poeira. A subida leve e inquietanta da fumaça. Da sala, um cheiro estranho misturando-se aos ramos de eucalipto presos no prego da parede. Os quadros tortos, todos réplicas de pintores renascentistas, já não mais serviam como um adorno à decoração; estavam lá prestando homenagem aos antigos que passaram pelos corredores e que ali apontaram o dedo. O quarto desarrumado e o banheiro com goteiras no teto.
A mesa da sala, talhada em madeira maciça, estava coberta por uma leve textura branca de poeira. Era um vazio. Todos os momentos em que o estado de espírito havia sido maior que o próprio caminho. Morar, era senão uma condição do momento.
Nos vasos, as flores artificiais também estavam com cara de mortas. As antigas toalhas e os vidros embaçados. Apenas a sensação de que um dia, tudo foi habitado. Seres e histórias. E como um sopro forte e quente, foram-se todos. Retratos, manias, surtos e doenças, deixando para trás o rastro.

Uma pequena nuvem de poeira.

Monday, November 03, 2008

01.11.81.

Eu acordei com vontade de escrever um texto de agradecimento. Queria agradecer tanta coisa. O comum da vida, o corriqueiro e não menos, ordinário. Eu queria agradecer os tapas que levei quando criança e agradecer àlguém por fazer chover no domingo. E nem sempre é preciso dizer tanto. As palavras mastigadas e uma certa maestreza para fazer do óbvio o incomum.
Eu queria agradecer por entre caminhos, espinhos, razões e desde de que me disseram num jogo de tarô que nada na minha vida acontece por acaso, eu queria agradecer aqueles que estiveram comigo.
Aqueles que estão ali. Sempre. E que fizeram do meu sábado, um dos melhores da minha vida. Simples assim. Sentimental. Piegas. De lágrimas e risos. Encontros, re-encontros e desencontros.
Eu só queria agradecer.
Eu não poderia ter uma família melhor.

Thursday, October 30, 2008

13:24

Sempre aquele sonho batendo e esperando na janela. Nem adianta mais fingir que cortou o cabelo e que agora possui faculdades que permitem dizer isso ou aquilo. Aqueles estudos sobre psicologia e manifestações do inconsciente de nada serviram para que essa tal fraqueza fosse suprida. Eu, que espero verões por todas as horas do meu dia, aguento o som pesado dos meus próprios passos. Fui aconselhado e me desaconselhei. Ontem, escolhi outros momentos de felicidade mórbida; aquelas de pensar em você. Sacrifico-me feito um animal para dar sempre um sorriso quando te vejo no canto dos meus olhos. Mas isso tudo é vontade de dizer que nada mudou e ao mesmo tempo, tudo está diferente.


Eu digo: dos sonhos levamos apenas a sensação. Você ainda na sala dizendo que minha comida está sem sal.