Monday, September 29, 2008

As horas:

para tudo, um segundo apenas. As paixões do passado e os pequenos resquícios de uma vida passada. Nem por um minuto, para e pensar no que a reconciliação poderia ser. Pensar sim nos amores passados e naquela felicidade de momentos que por vezes pareciam duradouros. Pensar em como nos transformamos em afastamentos cada vez maiores, largando pelo caminho pedaços daquilo que fomos. Nessa possibilidade, aquilo que somos, que sou e o se desfigurou dali em diante. As marcas apaixonadas, as fomes de olhar e toda aquela parafernalha sentimental que nem ao menos esquecemos de colocar um ponto final. ´

Nada pode marcar mais do que o simples dizer "eu te amo". Correto, Freud nos deu a dica. Os impulsos de desejo. Sim, somos movidos por esse desejo, desejo de coisa, do saber, do sexo e da completude. Essa marca quase ardente, presa à pele, à memória ao sangue do viver, essa marca "eu te amo" não é um simples formar de convívio. Isso que nos torna, talvez, maiores por alguns instantes, também pode ser a cova do espírito, já que é nessa expressão, a mais próxima que encontramos para um estado de magia, que tudo se prende. É como se, ouvindo, estivéssemos enfim descoberto a chave do mundo. Sentir-se amado fora do berço. 

E a presa, como animal mesmo, jamais escapa do predador. A presa da rede do "quero mais". Estamos sempre na busca desse cálice nada sagrado. A busca por um "eu te amo'. Talvez seja a busca eterna pelo estado de magia. Sim, pode ser ainda mais por suprir a solidão, a imensa solidão que se instaurou no espírito do homem moderno. Cindidos, fragmentados e desconfigurados, nós, os homens modernos, na busca pelo felicidade e pelo estado pleno de magia, não cansamos de querer mais e mais, daquilo que nos foi o mais próximo da completude. Ali, naqueles instantes, naquelas horas, não estávamos mais sozinhos. O mundo enfim, havia sido descoberto e ali era o momento, talvez, a felicidade. Porque isso também é busca eterna. A busca por entender. E como foi bom, naaquelas horas, ser amado. Por algumas horas, todas somadas, tudo isso que forjou a magia, tudo o que se arquitetou naqueles exatos momentos. Horas e mais horas empilhadas no coração, formando carências, pequeninas alegrias. Sim, a fraqueza em sua real materialidade. Bastar apenas no outro. E nessas horas, se tirarmos um minuto da pilha, tudo desmorona? Por onde andou tamanha desordem? Ordem no caos? Por um segundo apenas, reescrever, pintar, traçar pequenos padrões para o mundo. Ah, mas que alegria poderia ser tudo isso. A constante emoção dos covardes e agora se pode aposentar o espelho, já que o outro se cumpre no papel. 

Por um segundo, somar tudo, os minutos e todo o resto nessas horas de vida, em que ser amado, bastou. Lá fora, algumas horas. 

Monday, September 22, 2008

Algo A +

Não é a mesma sensação. Tributo ao desaparecimento, vagaroso, de um outro que não serei eu. Das sensações futuras, aquelas agradáveis de mar e sol. Isso, como um estado emergencial para sentir tudo, ouvir e falar mesmo que não haja motivos paupáveis. Aquele desagradável virtuosismo, marca de uma relação amorosa-forçada, em se prestar perante a moral e a ética desses tempos modernos me pareceu demasiadamente desgastado para continuar. Sim, são muitos traumas iguais a verdadeiros estupros. Ninguém pode contabilizar o mal que podemos fazer um ao outro. As palavras duras querendo ser previsão astrológica, um Nostradamus pífio, mesmo distantes, latejam nas paredes do quarto e pelas artérias quase entupidas de tanta emoção. O som pesado das teclas pretas do piano e um pouco mais de cordas leves servem-me de trilha para um som magnífico. Mas não é mais a mesma sensação.
Se falar de amores, de paixões ou até mesmo de frustrações, um nome terá que ser dado gratuitamente. Esse é um motivo de reconstruir um outra arquitetura concomitante as mudanças psíquicas e até mesmo, como diriam, patológicas. Pode ser uma simples falta de paciência diante do muro e das lamentações burguesas. Não se pode esquecer as lições no quadro esverdeado. Traçadas com um giz branco, hoje nem mesmo conseguem ser lidas, tamanha a desordem das lições-de-casa. Mais uma música estranha. Lembranças de um outono passado. Fez dois anos. Parece que foi ontem e tanto se passou. Em casa, as coisas mudaram. O registro do banheiro quebrou e a reforma ficou para depois. Não nego. Eu sou um mentiroso compulsivo. Deve ser esse o fator das minhas idas e vindas por ai. Lugares estranhos, noites permissivas e um ato corajoso de estampar na cara, uma cara de pau. Risos e aplausos.
Não é a mesma sensação. Repetir demasiadas vezes que não é a mesma sensação. Pior que isso, é sentir-se fora da ordem. Estar à deriva. Esperando um beijo roubado, uma fome voraz e deixar no lixo aquele antigo virtuosismo.
A cama? Continua a mesma. Um pouco mais quente, talvez.

Friday, September 19, 2008

Um pedaço

Semanas inteiras. A vela queimando e uma pequena falta de inspiração. Tudo desconexo. As noites ainda insones, os livros empilhados novamente na cabeceira da cama. Uma leitura atrasada. As músicas pop e saudade de algo clandestino. É fato. É fato que certos sentimentos acarretam a inspiração. Montanhas e mais montanhas de pensamentos descartáveis e os amigos ali. Uma delícia mesmo. O melhor momento de amizades. Todos eles juntos, sem cobrança, sem o fator do convívio forçado. Ah, assim é bom mesmo. E eu mudando meu estilo de escrever. Fragmentado, talvez.

Por enquanto é só mais um final de semana. 

Sunday, September 14, 2008

Ação de graças.

Entender alguns dias, uns poucos dias, faça sol ou faça chuva, Esses dias em que o cheiro da carne de panela, vinda do vizinho faz com que tudo pareça um pouco mais diferente. Todas as gritarias, portas batidas, sentimentos avulsos, versões musicadas e algumas peças de teatro, tudo escondido nos armários - no fundo, bem no fundo da gaveta.


Uns anseios estranhos. Umas batidas de corda quebrada e aquela volta no quarto. Passar a roupa da semana, arrumar a lixeira da bolsa-andarilha e ainda ter tempo de coar um café amargo e forte. Aí, vem a televisão ligada, um filme tosco me faz chorar. Uma lágrima que vem da cena entre duas irmãs - aquela tal reconciliação típica dos finais. O cheiro forte do feijão cozinhando e as campainhas tocando com as visitas de domingo. Um dia qualquer talvez. Uns anseios, pensamentos avulsos e, por que não, descartáveis. Arrumo a pilha de cds antigos e deixo a Billy Holiday no topo, caso precise. Arrumo os livros da Virginia e deixo-os ao lado do Cortázar. Endireito o quadro do Dali ao lado da cama e removo a foto Dela e coloco-a no criado-mudo. O abajur empoeirado, presente de uma amiga já distante, parece criar um outro ambiente. O telefone toca baixo, não ouço e não atendo. Dias comuns.


Tudo com um toque que inspira uma suposta sonoridade familiar: o cheiro da carne, o feijão, as tarefas domésticas. Mas ainda, por cima disso tudo, aquela ansiedade recente. As mudanças de pensamento. O jogo, a siesta e a música da Billy. Acendo o fogo, coloco a chaleira para esquentar a água e mais um café se vai; quente, amargo e forte: como em qualquer outro domingo...

Wednesday, September 10, 2008

Mala feita.

Eu vou ser clichê. Isso porque, a vida, uma hora chega perto quase que encostada. E algo começa a mudar. As noites de insônia, o fervor dos pensamentos não mais abstratos, mas realísticos. O sentido da vida. Aquela espera ou mesmo as aflições de algo fora do lugar. Tudo se movimentando de forma rápida, em círculos, um eterno vaivém. Sem pedir, as malas descem do guarda-roupa e se fecham. Postas a porta. É vontade de sentir tudo, tão rápido como começou. Bola da vez? Sem medos, arranhões ou sexos casuais. Um antigo gosto por paixonites estranhas e as flores mortas no vaso. Um retrato dela, a foto da sobrinha alemã, uma corrente do irmão distante e, claro, um beijo do pai ausente. Ali, naqueles lugares típícos dos sonhos, é ali mesmo que irei enterrar os pés. Não, sem antes, resolver as pendengas do mundo atual. E no lugar da última paixão, veio o vazio, o temeroso vazio que me faz esquecer todas as palavras que guardo e aí mal consigo escrever ou concatenar uma idéia sequer. Ouvindo Billy Holyday, fumando o último cigarro do dia e me sentido um pouco mais vulgar. Sim, a vulgaridade típica das vozes de cabarés e bares obscuros de datas remotas.
Eu vou ser clichê. Falar da vida e dos pormenores. Falar de árvores gigantes e poetizar o mar e areia. Vou ser ainda mais clichê. Rasgar tudo, queimar as fotos do passado já diluído em tantas outras paixões e amores. Até mesmo a caixa de recordação joguei na lixeira e o que restou, queimei como rito pagão. O círculo de jóia barata, foi-se num acesso de calmaria. Um grande pandareco tudo. Devo assumir, nada daquilo fez sentido algum. Talvez uma tremenda falta de tempo ou um erro demasiadamente prolongado. Vou ser clichê e arrumar pra mim um felizes para sempre e antes um era uma vez. Não nessa ordem. E tudo assim tão leve e suave. Algo mudou. Reza brava e muita, mas muita paciência com tudo. Caminhar entre mortos, ser alvejado por estranhas concepções, perder um dente, correr o risco de doenças venéreas, excesso de fumo e alcóol. Mas isso tudo, para um dia poder ser um grande clichê.
E não me canso de repetir.

Tuesday, September 09, 2008

mi casa, su casa

Gaston Bachelard foi um dos mais importantes filósofos do século 20. Sua obra revelou uma nova ordem para o pensamento filósofico, já que ela encontra-se em meio a revolução científica promovida pela Teoria da Relatividade de Eisntein. Assim, sua obra percorre o caminho do pensamento carregado pelo fervor das vozes da ciência moderna. No que diz respeito à epistemologia, é fundamental entendê-la como diurna, já que trata-se do caráter filosofico e rigoroso do pensamento. Como se diséssemos à luz da formulação.


E foi àlguns anos atrás que me deparei com A Poética do Espaço - La Poétique de l'espace. E naquele exato momento, na primeirá página, algo se tornou pulsão em mim. Tenha sido o pensamento lógico e linear de Bachelard, ou simplesmente o reconhecimento do espírito epistêmico, ali jazia uma parte de mim. De forma resumida, Bachelard assume a posição de filósofo moderno e se utiliza do espaço de uma casa como objeto de estudo. Ali, assumem os cômodos outras funções comparadas à nossa mente e ao nosso espírito. Portanto, para cada cômodo há um elemento epistêmico que o autor se utiliza para explicar as complexidades do pensamento moderno.


Ele foi um gênio. Não somente isso, Bachelard trouxe à filosofia uma ciência e uma nova ordem de pensar o mundo.


Um outro ponto importante para a compreensão do que chamamos "metodologia bachelardiana", é a sua noção de "obstáculos epistemológicos", tratado, sobretudo, na obra "A formação do espírito científico", de 1938. Bachelard propõe uma psicanálise do conhecimento, em que o seu progresso é analisado através de suas condições internas, psicológicas. Na sua avaliação histórica da ciência, o filósofo francês se vale do que chama de "via psicológica normal do pensamento científico", ou seja, uma análise que perfaz o caminho "da imagem para a forma geométrica e, depois, da forma geométrica para a forma abstrata". A própria concepção de espírito científico nos remete ao universo psicanalítico.


Nesse esteio, a minha leitura de Bachelard causou-me uma modificação. Poder enxergar concomitante aos tratados filósificos, um novo fazer da filosofia e mais do que isso, poder fragmentar uma unidade para em seguida assumir uma totalidade outra. Nada mais foi igual. As poéticas do fogo, e todos os tratados.



Naqueles instantes assumi uma outra postura. Pensar na vida e dar aos pequenos fragmentos do cotidiano um sentido outro. Percorrer rigorosamente os caminhos, dando voltas às peripécias e sentir cada presença do espírito na materialidade do sentidos. Essa ordem, esse pensamento, essa espécie de aurora ou do nascimento. Dar esse sentido; dos fragmentos e sentir a totalidade disso, que chamamos viver.

Friday, September 05, 2008

confissões na pista de dança

um cuidado de pele. sem acento. sem grafia, morfismos, estética, criação, gramática, lingüística ou semiótica. só um cuidado da pele, dos dedos, fronte e membros. essa espécie de resguardo. e é tão bom quando o passado retorna para mostrar como o futuro ficou melhor sem a efetivação do desejo. mas é atitude despeitada. atitude do peito, do sentidos, tudo posto no império do efêmero. os livros da hilda, as manias de deixar tudo com letra minúscula. sentimentos raivosos e um certo "Q" de quem ainda não entendeu. o doce sabor de cuidar. um cuidado de pele. de desejo. de real. de honesto. so, so true. that´s why my writtings are so odd. misturar tudo. línguas, gostos, meu gosto, your taste, my first taste, tout le monde, all around me, na sala, na pele, no rastro dos meus olhos procurando cada pedaço, cada fragmento de um outro olhar. something switter than this, more than me, you, your hands, my way to do. fucking my thoughts. só um cuidado da pele. do cabelo. da roupa e do cheiro. feel me no cuidado. minha pele. meu passado. no futuro de tantos presentes

Wednesday, September 03, 2008

in the arms of sleep

E nem sempre se vai assim, caminhando pelas paredes, arranhando e sangrando a ponta dos dedos. Essa idéia vaga de poder flutuar, dançar e escorrer cada centímetro do corpo, como se tudo pudesse ser feito tinta e pincel. É como estar sob efeito de alguma droga constante. Perde-se os sentidos, as roupas ficam diferentes e os sonhos tornam-se repetitivos. Na porta há sempre aquele aviso de entre. E nem sempre se vai assim. Pensando em tudo, revisitando cada lugar, cada olhar, toque e cada desejo que fez a boca salivar. Noites ou dias, o gole seco do pensamento impuro e mal dito. Nas paredes, as mãos presas em desejo masoquistas .Tapas na cara. Arranhões no peito. Mãos algemadas. Chupões no pescoço e nos braços. Tudo com uma leve dor de ontem. Uma leve dor do querer. Uma leve dor de sentir pulsar. A cada respiro, cada som dos meus ouvidos, cada sabor da minha boca, rejeito. Me transformo em algo assim, somente com um sonho por dentro, me fazendo viver, pisar forte e admirar formas infantis em nuvens de chuva. Nem sempre eu vou assim. Eu caminho entre os dias, corro na voz pesada e páro na porta. Mas é caminho de paredes. De lindas loucuras. Viver entre o existir antes e depois do desejo. Viver para ter a chance, para ter o gosto, o gozo, prazer de inundar meus olhos numa cor amarelada de mel. E meu sangue, meu doce sangue, jorra para viver de luz, para ser cor de sentimento. Mas nem sempre se vai assim. Hoje, caminhando.

Tuesday, September 02, 2008

Teus armários.

Nem sempre é uma possibilidade. Estar sempre diante de alvos, porque somos alvos. Uma flecha, um tiro, um resquício de pólvora. Mas na imagem do espelho, algo se perde. Algo se modifica e uma transfiguração emerge. Seria eu mesmo aquilo tudo? Seria eu uma manifestação quase assustadora; uma miragem, talvez? Quantas pessoas podem caber dentro de uma só? Eu poderia ser apenas uma fotografia estranha, tratada em programas de computador, ou seria só um negativo do antigo filme das máquinas analógicas. Não sei bem. Pensar em si e na imagem de nós mesmos. É como o livro de Pirandello. Aquele que somos para nós mesmos, não é o mesmo que somos para os outros. É um outro além. E ainda perguntam: mas esse sou eu na foto? Estranhamente, os fatos são outros. E quem tem forças para erguer mais um tijolo?
Eu penso em mim. Todos os escritos que me fizeram. É como olhar por uma lente. Um retrato outro. Procuro me achar, acho, distorço, penso em realidades e de como a vida se desfaz com palavras duras. Mas é maré mesmo. Sentir-se boiando, sem porto, sem cais, sem peixes na rede. Aqui, só a assombração do esquecimento. E nem seria tudo assim simples, se realmente não tivesse sido a simplicidade o motivo de tamanha desordem. Eu penso em mim e nos outros. Os olhos alheios. São eles que me interessam quando quero uma imagem fulgás. Por que eu mesmo, e sempre fui, machuco sem querer machucar. Pode até ser uma característica avessa. Ou até mesmo uma vontade de distorcer as imagens que foram se refletindo aos poucos.
Aí, vem a sensação de inacabado. Tudo na desordem, na imperfeita perfeição de quadros renascentistas. Uma escultura rachada. É como uma obra de arte sem porquê. Sem isso ou aquilo, peças fora do lugar e essa minha fotografia: eu, de chifres, a pele um pouco avermelhada, olhos fumegantes e um macabro apetrecho. Ninguém mais brincando de ser feliz, nem pintando nariz. O real da imagem. Pelos olhos, pela boca ou mãos.
Ninguém nunca soube, mas todo carnaval tem o seu fim.

Monday, September 01, 2008

Intransitivo

Eu vivo um silêncio. Como uma bolha, fechado, calado e silenciando as partes de um exterior ambíguo. É como uma lenda, um mito de verdade ora cruéis, ora desejáveis. E tudo movido pelo desejo, pela encarnação daquilo que almejo. Essa é a verdadeira luxúria: querer aquilo que não se tem. Eu vivo pelos impulsos fortes e latejantes do meu coração. Disparo e volta e meia acabo no mesmo lugar. Um silêncio profundo. Eu, de olho. Soslaio.
Eu crio esse silêncio. Abaixo o volume e deixo no meu mundo aquela voz rouca e forte. Ali, crescendo e germinando tudo o que se é possível germinar com um timbre de voz. Estremecendo as paredes do ouvido. Eu sou movido pela voz. Sim, tudo é encenação. Minha boca, meus lábios, meu corpo encostado em não-sei-quem. É tudo circo e pó. Ali, eu estarei sendo ainda um menino com idéias de adulto ainda em formação.
Eu vivo esse silêncio. Eu dou a ele uma voz que não a minha. Um silêncio de estar sendo. Ter sido. Sendo eu, prestes a desabar. Eu, criando bolhas de sabão e vendo-as estourar uma a uma. E tudo crescendo diariamente na cor do mel, no pincel - traço a traço. Nas noites de paredes e nesses sonhos tão acalentados pelo travesseiro. Uma viagem e ali estou sem malas. Eu vou com esse silêncio segurando nas mãos. Guiando pela multidão desconhecida que, sem saber, abre o caminho.
Esse silêncio em que existo. Em que crio. Invento. Vivo.

Friday, August 29, 2008

Fazia tempo

Estou numas de matar tempo. Sim, deixar que tudo tenha um curso certo. Talvez seja essa uma espécie de fórmular para controlar o espírito, ou simplesmente eu esteja tentando acertar antigas faíscas junto ao fogo. Lembrar de um antigo discurso sobre questões ontológicas e mesmo metafísicas. As antigas formas de pensar em tudo com um certo rigor.
Estou numas de ser rigoroso. Deve ser porque não há mais espaço aqui dentro ou fora para certas disparidades do viver. Mas ainda assim eu guardo especiarias para um dia dar tempero ao rancor e até mesmo ao esquecimento forçado. Nada por acaso, é fácil fazer de um dia simples algo a mais. Dar sentido ao cotidiano pequenino e torná-lo grande, como deve ser. E por que não se deixar levar, flutuar entre estrelas, astros e poeiras cósmicas. Esquecer enfim vestígios de roupas velhas, máscaras usadas e todo aquele palavrão. Murros na parede ou sentimentos avessos. Ou pelo avesso. Estou nessas ultimamente. Deixar de escrever e investir em outras coisas. Porque toda essa pulsão de vida que é escrever pode ser direcionada a outras áreas. Tornar-me-ei um escritor de todas as formas. Ser tudo ao mesmo tempo e sem sentido. Gostar, depois me apaixonar e amar incondicionalmente. Deixar evoluir mesmo o que no começo é tão gostoso e fácil, como um algodão doce. Talvez seja mesmo uma certa análise do discurso, tal como nos ensinou Foucault. Ou então, esquecer de tudo, e deixar que toda aquela pilha de livros seja consumida. As músicas tocadas. A dor, o ódio, o amor, a paixão e até mesmo aqueles sentimentos pequininos, todos eles tenham um sentido diferente. Empacotados.
Estou numas de deixar de lado. Sim, aquelas vestes estranhas e as amizades em ruínas. Deixar de lado essa parte da cesta. Ou nem é deixar de lado. É não mais fazer parte da vida e da corrente. E as minhas pulsões todas nas mãos, no olhar, no meu travesseiro, nos meus beijos e sonhos. Um texto deveras longo. Amanhã eu encurto tudo. Tornar-me-ei um escritor de muitas capas, fontes e páginas.
Fazia tempo que certas sensações não me visitavam. Hoje, vieram todas.

Thursday, August 21, 2008

Tesouras

Eu estou correndo. Por meio de cacos de vidro, pedras brilhantes e uma grama um pouco verde. Estou correndo para alcançar longos caminhos. Correndo contra vestígios perigosos de uma vida regrada. Correndo para saber se o céu é azul ou se tudo isso é mesmo uma das funções da minha retina. Sem saber ao certo em que velocidade tudo deve acontecer, eu acelero, freio em direção ao deserto florido. Porque no fundo as coisas vêm numa outra direção. Não contrária, mas uma direção adversa. E novamente meus textos voltaram a ficar confusos. Sem linha, sem rima, sem pé nem cabeça. Isso é sintoma de esquecimento. O esquecimento da razão. E vivo assim mesmo, numa inconstância de dias, de sabores, de quereres, de tudo.
Correndo para chegar perto. Um caminho de perto. Eu fiz esse texto no ônibus. Hoje, pela manhã, esqueci como escrevê-lo. E novamente, tudo parou de fazer sentido.

Tuesday, August 19, 2008

Clockwork

Mesmo que haja uma certa necessidade de sentir e escrever tudo, em qualquer momento. Uma urgência do corpo. E tudo é afetado. As insônias vindas da ansiedade como produto de uma má administração das pulsões e dos batimentos cardíacos. Sermões religiosos e os palavrões circundam uma perspectiva infantil de enganar o mundo com um único olhar. Diante de tudo: da mãe morte, do irmão distante e dos amigos enterrados em fotografias digitalizadas. As dívidas recorrentes de um mau uso das finanças e os travesseiros todos rasgados. Deve ser típico das insônias essa coisa de questionar o mundo quando tudo está adormecido. Reações alérgicas e o despertador atrasado como sempre.

Mas nem sempre se pode esperar do dia uma surpresa. Nem sempre uma carta ou recado distante, e-mails impessoais, ligações urgentes. Enfim, o cotidiano em sua forma mais chata, porém, deliciosamente patético. Daqui a pouco tudo se transfigura. Como se faz lá em cima, nuvens cinzas, roxas, pretas e a chuva. E mesmo que haja uma certa necessidade de tudo ser assim tão transparente e que as surpresas sejam fatos e não meros acasos, ainda restará noites mal dormidas, fadigas constantes e um certo ar de leviandade. Esse clarão de idéias, ou mesmo uma póstuma vontade de consumir o irreal. Tudo sem sentido, existindo e como partes de uma explosão. Sentimentos afoitos jogados na privada. A privada entupida. E nada assim tão bom: navegar pelas antigas calmarias da vida. O doce do cotidiano.

E mesmo que haja uma certa urgência em tudo, desligar o telefone, apertar end e sair como passo curto. Sem mais, nem menos.

Só a urgência de ser.

Monday, August 18, 2008

La revancha

"Não se afobe não que nada é pra já", disse o Chico, sábio, sambista e semi-carioca. Também outras analogias e metáforas estranhas surgiram. Falar de sentimento é sempre trabalhoso. Tentam e repetem. Falar de Voltaire, de Rousseau e outros. Tentativas frustradas de falar do mal na sociedade e da fragmentação de todos. Corrompidos, incapazes, desatentos e, claro, covardes. Aquela covardia que nasce pela falta de entender dois mundos. Sim, o medo pelo bom, o medo pelo correto e, digamos, pelo mais forte. Quando se entende de corações, mesmos os partidos, entendemos um pouco do Chico, do Voltaire, do Rousseau e até do Platão. Mas é sabedoria de butequim. Que dirá, daqueles que realmente entendem o próprio sentimento? Certamente, será uma filosofia embriagada, dita em táxis ou para estranhos vagando na madrugada.
Mas entendamos: falar desse assunto, seria, deveras perigoso. É quase como andar em terreno minado ou naqueles pântanos habitados por répteis. Deve-se entender muito de pouco, e pouco de tudo. Porque nem sempre o corajoso é o que fala. Ele pode ser somente a antítese; um fraco que se vê heróico. E mesmo esses fracos merecem mais palmas que o covarde. Aprendemos que coragem não é um sentimento, mas uma ação. Como em todos os casos, a cada atitude, cada pedacinho que se faz com aquela força, já é um bom começo. Eu, por exemplo, me transformo, mesmo que em medidas minúsculas, a cada avanço, a cada quebra de medos e em todas as vezes que mudo um pouco de mim. É diferente ser maior. Talvez, diriam, mais homem do que antes. É instinto de sobrevivência. Mas aí viria o Rousseau para dizer outras verdades. Essa tal corrupção nefasta, mas involuntária. E se já nascemos corrompidos, por que não corremper aquilo que o exterior não conseguiu? Sim, corremper, destruir, roer certos fragmentos da covardia, do insulto moral que foi imposto. Talvez seja essa a espécie de liberdade que tanto procuramos: ser nada, ser corrompido e ser nada, sendo tudo o que se pode ser ao mesmo tempo. Sim, talvez seja essa a chave. Não ser nada e ser tudo. Um algo deleuziano, eu diria. Um produto de filosofia, sem política ou religião. Nada de riponga ou pé-sujo. Ser por si só, e isso bastar.
Alguns diriam que seria uma pura loucura. Outros, apostariam num anarquismo psicológico. Eu digo que não é nem isso e nem aquilo. Ao Rousseau, Platão, Chico e a corja toda, eu diria que seria a revanche.
A revanche de nós, contra nós mesmos.

Saturday, August 16, 2008

Picnic

Quando esqueço, por momentos, tanta coisa que se passou. Memórias do passado, brincadeiras de criança próximo ao rio e até mesmo os primeiros momentos da adolescência. Se fosse uma religião, abdicaria da carne, de deus, das santificadas expressões e, no lugar, daria um clarão de idéias aurívoras. Mas aqui, enquanto o frio não toma o seu lugar, enquanto não para de chover e até mesmo as insônias, eu deixo estar tudo quieto; adormecido.
Nem mesmo gritas minhas idéias de filosofia, embriagado num táxi, ou explicar a importância do movimento romântico no Brasil. Falar de Alencar e dar a ele sua importância. De nada resolve. Adormeço com os livros ao redor e um certo ar de tranquilidade. No meio da noite, o relógio anunciando 04:26 e eu tentando interromper sonhos e ver pela escuridão um pontinho de luz. Os sonhos do passado e aqueles rastros abençoados. A tudo abdico. Escondo os quadros e quando esqueço, por momentos, a pressa dos dias, volto a dormir.
São pequenos cortes. A ressaca matinal, a dor de cabeça e os vultos na memória. Escrever sobre tudo, para tudo e todos. Dedicatórias invisíveis e tudo a borbulhar. Das xícaras solitárias, da família distante próxima ao mar e meu desejo por ondas maiores e água salgada. Nem mesmo os amigos ficaram pra ver os fogos coloridos. O lábio inchado do beijo inesperado. Rimas afugentadas e um certo calor em pleno sábado.
Por momentos deixo estar tudo. Ponho de lado a mão direita. Tudo quieto. Adormecido. Por momentos.
Tudo adormecido.

Thursday, August 14, 2008

Se eu contar.

Quando criança e um teco da minha adolescência, eu costumava me sentar e observar minha mãe: sentada, com o cigarro acesso até a metade, as pernas sempre cruzadas e com um certo olhar de desdém para a televisão. A cinza comprida quase caindo segurada com firmeza pelo braço apoiado. Talvez essa seja uma das mais fortes imagens que eu tenho dela. Não a composição dos elementos, mas a postura das pernas cruzadas, do cigarro e, principalmente, da forma como ela olhava para as coisas - a forma como ela olhava o mundo.
Com isso eu cresci quase como um molde. Eu fui me fazendo tal como ela. Um certo olhar desdém, o cigarro em uma mão e as pernas cruzadas. Como estou aqui agora. E toda vez que me pego, correndo, pelas chamas ao me redor, me lembro que essa imagem, essa postura está em mim como qualquer outra parte do meu corpo. Tudo o que sou. O meio homem, os fortes impulsos femininos e a pouca razão que devoro em minha mão direita. Esse meu olhar de quem não se interessa pelo mundo, mas que no fundo olha para entender um pouco de si. E até mesmo nos meus dias de embriaguez eu sei que acabo transformando meu rosto no dela. Ninguém foge daquilo que se é. Algo a se aprender, não com os livros, mas com a memória do espírito; essa memória que nos faz, move e nos carrega para uma certa identidade forçada. E não menos importante, isso que nos faz ser o que somos. Esse meu ar de desinteresse. Talvez ele seja um alvo, quase como um destino. Um trilha mesmo. E tudo assim tão claro. Ela sentada, fumando o meio cigarro e as pernas cruzadas. E mesmo o jeito de rir, eu herdei. O gosto por Chopin e a impulsividade típica dos mais quietos.
E anos depois, ainda quando tento descobrir em flashbacks um pouco do que eu sou e das minhas metades. acabo me deparando com essa imagem, com a postura. E não obstante, deixo o cigarro em uma mão enquanto levemente cruzo as pernas. Tudo isso, claro, muito inconsciente.

Monday, August 11, 2008

Sinnerman

As corridas estão abertas. Toda a neve derretando como se o sol não fosse só o calor, mas algo além quase como uma luminosidade mágica. Tudo tão cheio de nuvens e numa velocidade incrível eu ajusto a calça e tento pentear o cabelo. Das semanas intensas e dias corridos, aquela selvageria e um estado emergencial. As providências do dia. Uma chatice. Nem cura inventaram. Textos sem nexo ou, se preferir, nem pé nem cabeça. Certos sintomas de esquecimento, sonhos inadiáveis e aquele velho inconsciente alertando com luz vermelha o perigo eminente.
Ai, eu me perco. Me perco vagando entre tantos mundos, tantas idéia, dentro e fora do meu corpo. Sim, pensar demais é sintoma de carência. Sim, pensar demais é motivo para falta de ação. Não digo dos poemas. Ah, os belos poemas de Hilda, Sophia e até o pobre e esquecido Pessoa. Minhas leituras atrasadas e um quarto semi-arrumado. Livros desorganizados e uma antiga mania de sentir-se deprimido. Seja nas manhãs, seja nas noites, um resgate sensorial de tudo o que se passa. Seja como for, aqui ou ali, é preciso um certo ar de leveza. E nem é preciso muito. Talvez uma bebida, um pão velho, mas que tudo acabe no riso, no sono pesado...
As corridas estão abertas. Nem sempre é o que se esperou. Os desejos de criança mimada e as vontades adolescentes. Aquele romantismo rouco, clareado por idéias literárias. Tudo, mas tudo mesmo colocado num quadro renascentista. Nem mesmo Sartre seria tão niilista para acreditar em túmulos ou romantismos exacerbados. Aqui, preza a paciência e, claro, a tal da leveza. Se as corridas estão abertas, basta trocar a ferradura e trotar.
Na chegada, é só cortar a faixa. Que nem sempre vem junto de presentes ou datas especiais.

Sunday, August 10, 2008

Conto.

Encostou-se na árvore, como se está estivesse erguida para o seu corpo cansado. Esteve por horas andando a esmo. Segurou-se em muitos pensamentos, olhou o rio, notou que os peixes descansavam sob a sombra projetada pela imensa árvore. Devia ser algo secular, pensou. O dia estava quente, demasiadamente sufocante, como tudo aquilo que havia dito na noite anterior. Era como se as palavras pudessem assumir uma forma corpórea e se misturassem ao dia, ao sol, ao calor e aqueles pássaros que sobrevoavam também sem rumo. Segurou as mãos na tentativa de imaginar que fosse outra mão e não a sua própria. E ali, naquele tronco, encostado pensou que poderia resolver todos os seus problemas. Era falta, que na imaginação modificava-se como presente. Todas as recordações lhe vinham como ondas gigantes de cenas, choques, espantos e sonhos irrealizáveis. Com o dia agitado, tendo acordado cedo, sentiu que naquele lugar um mundo estava se formando; a cada lágrima, uma criação e a cada suspiro um desmoronamento. Por que não escrever poesia, interrogou-se já quase deitado na grama. A poesia poderia de certa forma, colorir e preencher algumas formas tão vazias dentro de si. O telefone poderia tocar a qualquer instante com uma notícia vinda de longe e eu poderia mudar-me para o interior, para alguma cidadezinha com poucos habitantes e viver só, do trabalho e do corpo. A realidade era somente aquele momento, que bem poderia ser a felicidade, já que acreditava que a felicidade era apenas um segundo em que o corpo se desprendia da alma. Lá fora, ouvia o barulho ressonante e grave dos carros.

Os pés doíam. O calor com o atrito do tecido áspero do sapato provocaram bolhas no canto do pé e na sola cansada. Tirou o sapato e quase como um ato religiosamente sagrado, encostou o pé na terra úmida. Era um alívio, como se a terra estivesse lhe retribuindo um favor. Seus pés se misturaram aquilo que lhe afagava o corpo inteiro. Imaginou, já maravilhado com a quietude daquele momento, que enfim chegaria ao céu e encontraria um pedaço de terra com uma árvore de tronco grosso e forte para deitar-se na eternidade, pois aquilo já era um pedaço do sentir-se para sempre. Em verdade, não poderia sentir-se de outra maneira.
Uma voz lhe dizia que o caminho era aquele mesmo. Já nem mais pensava nos carros, no barulho e na fumaça vinda do asfalto quente. Mesmo que houvesse uma passeata política lá fora, jamais tiraria seus pés da terra úmida. Estava misturando-se, aos poucos, àquele lugar. Poderia morar ali. Poderia casar-se, plantar e jamais ter que encontrar outro lugar para descansar.

Thursday, August 07, 2008

Quinta.



Em 1656, Diego Velásquez espantou seus admiradores ao apresentar La Família de Felipe IV. O espanto não decorreu somente da iluminação característica ou da introdução de um auto-retrato e sua técnica de quadro dentro do quadro. Havia ali, dentro de toda a perspectiva algo "estranho". Sim, ali mesmo, dentro das belezas iluminadas de um gênio havia um sopra quase irreconhecível: um anão. Em meio as belezas da realiza, o disforme ser aparecia, olhando para o espectador quase como se quisesse se apresentar. Isso, em 1656. Aquele anão, assustador, atravessou os séculos de quadro em quadro, se movimentou pela música e por todas as esferas da chamada arte. Ele tornou-se o espelho. A antítese e o igual. Dele, saímos todos. O horror pelo disforme. Esse mesmo personagem pitoresco, viveu entre nós, se instaurou nas classes dominantes e transformou a cultura do homem contemporâneo. Foi com ele, um simples anão, que aprendemos que o feio pode estar no bonito, mas mascarado, iluminado, quadro a quadro.




Alguns muitos anos depois, ainda nos espantamos com o tal anão. É ele, os travestis, as drag queen, clubers, góticos, emos, roqueiros, metaleiros, afro-descendentes, orientais e, claro, os transexuais. Hoje, esse ano ganhou nome nas manchetes. Ele se chama Thomas Beatie, uma mulher norte-americana que decidiu engravidar depois de uma mudança visual de sexo. Thomas, deu à luz a seu primeiro filho recentemente. Americanos, raivosos, protestaram. Outros elogiaram a atitude e outros resolveram não se pronunciar. Um verdadeiro circo. Um quadro de Velásquez. Mesmo o anão estando na sala a nos fitar, fingimos que ele não está lá. Ora, se permitimos a cirurgia plástica, aos tratamentos pesados contra o envelhecimento, a redução de estômago, por que não aceitar Thomas como uma família? Sim, os desajustes parecem ter crescido desde 1656. As formas contundentes da moral enraizadas na cultura do ocidente. Podemos alterar o nosso nariz, afiná-lo, remover a gordura e tirar linhas de envelhecimento, mas nunca, nunca, podemos assumir o tal anão que existe dentro de nós. Tirá-lo do quadro é uma infamia. Talvez um crime em alguns países. Essa força controladora que nunca nos deixára aceitar o Samson de Kafka ou mesmo o Thomas norte-americano. Sim, Nietszche foi um visionário e Foucault o pai do pensamento moderno. Somos previsíveis. Tirar o nariz sim, homem com barba dar à luz, JAMAIS!




De 1656 à 2008 algo deveria ter mudado. A perspectiva de uma possível quebra da moral religiosa, ou até mesmo esse anão que nos ultrapassa nas salas cirurgicas. Algo deveria ter mudado. Não somente aos norte-americanos, mas ao pensamento e, por que não, ao espírito humano. Uma linda criança, sortuda talvez de ter uma família com os anões que um dia serão o ponto de fuga de um quadro. Pensam: o que será dessa criança? Não podemos prever, mas podemos afirmar que seu mundo será desenhado fora do quadro, como se o seu mundo pudesse enfim, ser o começo de algo.




Uma família.

Wednesday, August 06, 2008

Quarta.

A saudade quase como uma tristeza, vinda de lugares distantes, nem sempre pretende ser tema nem aresta. Ninguém sabe das melancolias e virtuosidades. Crianças mesmos, brincando de jardins e erguendo as mãos para o céu. Ó, deus Apolo que nos traz para a vida adulta. De pureza em pureza somos, ainda, crianças. Idéias juvenis. Eventos mal consagrados. Solos que enterramos sonhos e sonhos, num repetir quase canônico. Uma soda limonada para o Diabo e aquela quentura, um ferver de sentimentos como se à deus nada pertencesse. Mais um gole de coca-cola. Arco e flecha. Apolo, leve-nos para a vida adulta. Juntamo-nos a Ártemis num parto de gêmeos. Na ilha de Delos, nós todos, crianças, adultos, Diabos e Deuses.

A saudade como uma tristeza. Uma bola de chiclete masgado, quase sem saber. O olhar doce e escondido por trás de uma lascividade absurda. Nos cantos, nas pequeninas mãos, o doce sabor de soda limonada. Inventores do desentendimento, nem mesmo siameses são capazes de decifrar o pensamento. Juntos na vida, como terra e fruto. A casca da árvore. E ainda jogamos pedra no vidro do vizinho. Apolo! Leve-nos para a vida adulta. E isso, rogando para os Deuses, tentando soltar as mãos do Diabo. Ele, que nos ferve em calda quente de doces ilusões. A saudade dos tempos de maldade.

Rogamos ao senhor dos ventos. Aos deuses na espreita por nossa vil brincadeira. Como uma prece, pedimos a Apolo, um sopro de vitalidade. As bolhas de gás da soda explodindo na cara Dele. Solte-nos a mão, grita a criança. Ártemis vem pela floresta. Nos caça: arco e flecha.

Mais uma soda, com ou sem limão e nos deixe ir, além da maldade.