Tuesday, July 15, 2008

ne pas du rien

Hoje, ouvindo canções francesas - só voz e violão. Daqui, eu consigo ver pela janela um prédio cinza, espelhado, talvez demasiadamente moderno. Mas ele está coberto por um manto de luz amarelada da manhã. Por trás, um céu azul ferrete e uma pequena faixa cinza de poeira. Dois cafés e contando cigarros, eu vim pronto a escrever um texto. Uma epígrafe, uma epístole. Desisti na hora em que tudo ficou preso no silêncio.
As manhãs de outono. O cheiro de árvores secas, de perfume amadeirado e flores orientais. Ontem e hoje, tantas palavras esvoaçaram o dia, espantaram algumas idéias e formaram outras. Pelo mundo todo, pelas arestas, uma palavra para cada um. Com direito a fumaças de café, roda gigante e ares de cara lavada. Descobre-se, cedo, que ainda por ai os sábios que vêem além dos nossos próprios olhos. Eles andam por ai, soltos. E para eles uma palavra também.
Bêbado de palavras francesas. O violão e a voz. Hoje, algo poderá existir.

Monday, July 14, 2008

Two things

Ele esperou acordado. Como se nada fosse ou bastasse naquele exato momento. Eu, sem explicações, parecia ter sido cortado ao meio, como uma folha de papel. A bagunça, as palavras de ordem, aquele caos todo em uma briga de urso. Eu contra a parede. Mas naquele dia, ele sabia que nada poderia mudar; o vaso em cima da mesa da sala como um enfeite cafona e barato com ar de decoração. Onde eu deitava, de costas, sempre olhando para o travesseiro listrado, pintado de cores velhas e frias. Ali mesmo, onde eu deitava e antes mesmo de acordar, já sentia subir, como uma serpente, pelas pernas, enroscando-me os braços, as pernas e todos os meus sentidos. Sentia, sentia subir pelo calor, centímetro por centrímetro. Duas semanas antes, a mãe havia pedido uma compra grande no mercado. Faltava o básico, dizia com aquele olhar materno-carente.
Deitado, como um pára-raios, toda aquela energia subia fervendo. Chegava-me nos lábios, trêmulos, quentes e vermelhos de gozo. Minhas mãos descendo, lentas e sorrateiras, tentando achar lugar dentro da chama. Mordi os lábios. Senti como se eu fosse afundar na cama, no meu suor, no meu desejo e na combustão ardente, fiz-me dentro de você. Fiz-me como presa de serpente num desespero quase louco, sem freio, cheio de vontades e imaginações férteis. Eu tentei correr, eu tentei escapar movendo os pés rapidamente enquanto que o seu cheiro fazia meu corpo parar, sangrar feito animal de ritual.
Ele deixou as compras na mesa da cozinha. O saco de arroz e feijão guardou no armário, dentro dos potes que a mãe, cuidadosamente, deixava na parte mais baixa do armário. Deixou um bilhete seco, porém carinhoso, próximo aos remédios para enxaqueca. Ajustou o vaso da mesa, pegou uma maça e foi para o trabalho sabendo que depois desse dia, jamais veria a mãe trançando colares e fazendo ornamentos de tule para o bebedouro.
Eu sentei na minha mão. A água escorrendo meio quente. Meu corpo se abriu. Talvez ele sinto só isso. Ele só sabe sentir isso. Vozes em francês escolar, eventos mal administrados e aquele trabalho sem volta. Eu só sei sentir isso. As cores do pescoço, a fome e a fúria que aos poucos me corroem, rasgando-me como se eu fosse feito de algodão colorido. Fio a fio. Eu me empresto em aventuras irreais. Me empresto na água morna, e mesmo sabendo ser parte do meu corpo, imagino ser do dele, em mim, em mim no fundo, por dentro me deixando alagado de prazer, por dentro e fora, nas orelhas quentes e na pupila dilatada. Eu deitado, naquele manhã fria, minhas mãos trabalhando para ter ele dentro de mim, como um fogo, como um pedaço. Eu deixei, por fim, que a minha cama fosse apenas uma chama; deixei que ela entrasse em mim, como ele, o prazer mais delicioso da fantasia, o corpo másculo de ombros curtos numa estatura perfeita de tamanho, forma e cheiro. Enfim, tornei-me a chama vangloriada. A chama do gozo com ele dentro de mim a fincar desejos.
Anos se passaram. Ainda comprava arroz e feijão para mãe desaparecida. Procurava na cozinha, nos armários. Ele pensava que talvez fosse melhor encerrar as buscas, ler um livro e tentar levezas. Contava com ares de saber para quem quisesse ouvir. Da solidão, sabia mais que todos. Do amor, desconhecia cartilhas e formas abstratas. E nem podia dizer que ser professor era lá grandes coisas. Mas conhecia Aristóteles. Sabia Kant e um pouco de Descartes. Deitava sempre com o mesmo pijama. A mãe, desaparecida, sempre vinha, todas as noites com beijos molhados. Anos se passaram. o bilhete ficou ali na mesa. Os remédios, as roupas, tudo no mesmo lugar. Eu amanheci descoberto, com os lábios mordidos de amor. Escrevi um poema e coloquei fogo. Ele voou como pássaro fênix. Eu sabia que ainda tinha alguns minutos até tudo fazer efeito. Deitei-me novamente e senti ele pesado, com o olhar fixo na minha encenação quase pornográfica. Virava a cabeça e ele com as mãos delicadas de homem, voltava-a no lugar junto aos seus olhos. Dizia, sem pudores, para morder o dedo, lamber os lábios e sentir o gosto. Eu obedecia. Eu obedecia meu corpo dentro dele. Quente, uma única forma de viver. Ali dentro. Dentro de tudo. Do mundo, do fogo, eu como se fosse uma chama gritando.

Friday, July 11, 2008

when you smoke all my weed man

Os remédios empilhados na mesa. Um xarope de tosse, atrovent, berotec, soro e papéis jogados. As chapas do pulmão, duas tosses e meio sono. Aos poucos tudo foi sarando. Aquilo que dissolve rapidamente. Aos tragos, aos trancos e barrancos.

Uma tosse. Um dia frio e alguns goles de café. O médico na sala dizendo termos redundantes. Eu, tentando engolir a seco a realidade. O maço de cigarro escondido na bolsa e reparando na aliança dourada. Um tosse seca, depois de examinado e a receita, simples e curta. Comprimidos para prevenção.

Tudo se esvai. Depois de uma semana. Os remédios da cômoda substituídos, os lençóis lavados e mais um texto ruim. Palavras de desordem, estranhos do passado revisitando fotografias, musicas e toda quinquilharia do quarto e da sala.

Eu perdi as chaves de casa. No táxi, o motorista dizia algo sobre o tempo seco. Mais uma ressaca mal curada. Um dia de ócio no trabalho e dois episódios de um sitcom relaxante.

Deixo na cômoda o despertador. Sem hora. Mais uma tosse e coloco a cabeça no travesseiro.

Thursday, July 10, 2008

In the right place

Eu tento organizar um discurso. Passo horas do meu dia para acertar e alinhar as palavras. No final, nada parece fazer sentido. É como um passo-a-passo. Eu escrevo, vou ajustando aqui e ali, desenho uma idéia interessante. No final, tudo parece fora do lugar. Eu, no meio da figura, de uma foto rasgada e depois colada com durex.

Eu quero escrever um discurso. Discorrer sobre o que eu quero. Mas ele deve ser sucinto, simples e bem escrito. Talvez o mais importante seja que esse discurso revele sua real intenção. Sem pormenores, sem distância escusas e sem inocuidades. Eu paro, sento, ligo o som e tudo começa a embaralhar. Como cartas. Como fogo. Como nuvens antes da chuva.

Quem diria. Alguém que estudou Saussure não conseguir compilar algumas palavras. E é tão simples o que eu quero dizer. Tão singelo e curto. Eu já disse outras vezes no meio do vórtice, que são os meus textos, isso que eu preciso discursar. Não é somente uma vontade, entende? É dar valor a tudo isso. Ou melhor, um sentido outro ao universo, a vida e...

Falha. Há sempre um gap entre a primeira e a última palavra. Nem é preciso muito. Nada de dicionários, pesquisas lingüísticas ou signos icônicos. Só preciso de uma certa linha, um barbante fino, um cata-vento e uma bala de hortelã para dizer. Apenas eu e você. Nada mais. Ninguém mais. Sem paisagens, sem furacões, desastres naturais, encontros do acaso, antigas paixões, sentimentos mortos, vultos do passado. Nada disso. Eu e você. Só

Eu tento organizar um discurso. Uso todas as minhas forças. Canso a ponta dos meus dedos. E é tão infantil o que eu quero dizer. Dizer sobre você.
Tão leve seria se eu fosse corajoso: eu me levantaria, como um soldado alegre pela conquista com sua artilharia. Levantaria a cabeça, orgulhoso, e diria:

Eu quero você.

Wednesday, July 09, 2008

House of Cards

Eu tenho muitas escolhas na vida. Eu faço, mudo, troco. Sempre temos a escolha. Optar por aquilo que é simples, sincero e honesto. Pela emoção, pelo calor, pelo suor e pelo tesão.
Outras escolhas, outros momentos.
O irreal de tudo aquilo que podemos marcar, acertar e inserir dentro da vida, como um contexto, como um lindo ornamento para dias frios e para máscaras de oxigênio. Eu procuro entender se o complicado não é apenas um caminho para o resultado simples de uma equação. Quadros, desenhos, músicas familiares, risadas. E quem disse que no café não existem imagens de uma vida?
Outras escolhas. Como um verso e todos aqueles textos semivirtuais que escrevemos. É como mandar mensagens dentro de garrafas jogadas no mar. Mas no fim, quem vai a pino, sou eu mesmo. Em verdade, toda escolha vem acompanhada de coragem. É um decisão do espírito. E é de grande conhecimento quase público a minha fama de covarde. São apenas as tentativas de construção, ou melhor, de edificação da vida pela vida. Não se pode descartar nenhuma opção até que ela mesma tenha se esvaido de investigações profundas. Mas esse caráter humano que nos traga para o fundo, o mais fundo do poço é também o mesmo que não nos deixa à beira da loucura. Uma casa de cartas. Um sopro, e tudo vai para os ares. Eu e você. Nossos laços, nosso confinamento um dentro do outro.
Outras escolhas. Eu quero escolher por você. Quero escolher pelo sonho. Pela grande, pelo extraordinário, veloz e furioso. Pelo seu corpo, pelos lábios, sons, olhares, dedos e pêlos. Pela falta de ar, pela dança do paganismo, na entrada e saída. Portas abertas e fechadas. Isso tudo é uma grande antítese. Se não soubermos, perdemos o rumo de popa à proa.
Eu tenho muitas escolhas na vida. No momento, só preciso de uma espécie de agitação do meu espirito para rodar a engrenagem disso tudo e, enfim, dar um rumo, um sentido outro que não esse.
Escolhas. Um sopro e tudo vai pelos ares.

Tuesday, July 08, 2008

Flower Rain

Eu quero enfeites de rosas. Guirlandas coloridas, pétalas espalhadas e cabos sem espinhos. Eu quero enfeites de rosas. Como cordas de violão, na chuva do verão passado, nas árvores, no jardim, enfeites de rosas. Brincar de escolher pela pétala, o nosso destino. As margaridas tão simples, tão delicadas. Roseirais na janela. É tudo tão sentimental, essa coisa de querer rosas, de querer o adorno mítico.
Enfeitado de rosas. Deitado sobre as pétalas tão macias, na penungem quase imperceptível. Nada mais simples do que isso. No fundo, o que parece ser o mais complexo quebra-cabeças, não passa de uma simples solução. Nos meus lábios, no meu corpo e na realidade, tornemo-nos flores.
Eu quero enfeites. Enfeites na minha roupa, no meu banho, na minha cama. As paredes pintadas, cores outras, e aquele som de zumbido. A nossa imensidão. A imensidão do querer. Do poder. Sentir e ainda assim trair o destino.
Eu quero enfeites. Quero ser enfeitado. Confeitado. Com sabor de vento, de cordas, de flores silvestres. Eu quero ser enfeite.

Monday, July 07, 2008

11:21

Eu tenho antigas manias. Recorrentes, elas me servem de equilíbrio, dando sentido àquilo que não entendo. Mas elas são muitas. Eu acordo rouco e adoro ouvir minha voz timbrar pelas cordas. Eu acordo com o corpo estraçalhado, sentido que o peito vai explodir. Que eu, finalmente, fui de um lugar para outro. Nada faz sentido. Eu abro o guarda-chuva e corro além do meu caminho. Eu destilo minha saliva, eu aposento o maço de cigarro, eu deito e sonho.
Minha reação é sempre das piores. Minha reação é sentir exatamente o que é permitido. Mas eu vou além. Eu gosto do sabor daqueles ares de encrenca, da vertigem de um problema, da queda livre no escuro. Eu me encrenco. Ao que tudo indica, eu tenho uma certa mania ao excesso. Com tudo. Na escola, eu não entendi as potências, os cálculos de multiplicação e talvez, por isso, hoje eu tenha dificuldade em calcular as medidas para minhas atitudes. Mas isso é suposição. Eu estou procurando chifres, pêlos, tudo aquilo que dizem. Mas é tarde demais.
Eu tenho antigas manias. De certo, vocês poderiam dizer que eu sou uma pessoa recorrente. Que eu tenho um padrão, elevado ou não, para tudo que acontece. Essa minha mania de disparar o coração pela boca. Bom, dessa vez ele vai ficar no chão.

Saturday, July 05, 2008

Marlboro

Deve ser sentimento da abstinência.

A ruína de toda paciência, do virtuosismo pacifico, da realidade tal como ela é. E nem sei ao certo se crueldade vem de cru; o cru daquilo que esta por fora. Chega daquela comoção bestial.

Deve ser sentimento do confinamento.

Quando pelas histórias carinhosas, torcemos pela bruxa, pela maldade do meio para o final. Chega a ser dolorido, deveras dolorido, a profanação das tais histórias de amor. Nascemos assim, da mesma forma que morrermos, aprendemos. Hoje, escrotos, amanhã lovers. Tem tanta coisa na agonia, no êxtase, na anti-realidade que tanto nos atrai como um vórtice, como o centro de tudo. Larga-se o inalador, o cigarro e os remédios cuidadosamente colocados ao lado da cama. Volta a estaca zero. Manda tudo à merda. Que o inferno desça em grandes escalas, como lava, como fogo liquido e nos queime. Como disse, a decepção. Somos feitos de decepção e mágoa. A bruxa venceu afinal. As princesas estão ainda em busca de muito. Eu acordei, levantei, e parei de acreditar que serei de príncipe, sendo bruxa, sendo madrasta, jamais serei de príncipe ou príncipe.

Mas isso tudo porque a realidade é outra. Menos colorida, menos leve, mais densa e árdua. Para tudo, são muitos pesos e poucas medidas. É tudo rígido e regulamentado aqui. Deve ser assim. É instinto de sobrevivência de quem já caçou, já foi caca, abatido, sangrado e posto de volta ao jogo. É instinto. Perdoe-me se pareço cético ou cínico. Nenhuma esperança é morta do dia para a noite. É preciso muita paulada, muita astúcia e argumento.

Deve ser sentimento de abstinência.

Friday, July 04, 2008

Acontece nos tempos de muita chuva. Os marinheiros do silêncio.

Pela água, pela corrente fina, vêm perseguindo o som agudo e pequeno dos pulmões. Perseguem cada pedaço do corpo, dos ouvidos, a respiração lenta e fatídica. Por que não me espera a noite sentar e aproveitar alguns minutos de pensamento? Os marinheiros do silêncio, armados de trompetes e buzinas alertam para um estado de calamidade pública, um certo ar de enchentes. Na rua, peço um algodão doce, cubro a boca com a mão. Aos poucos, vou afundando até ficar com os olhos para fora da água; o resto do corpo mergulhado na água escura, gelada e misteriosa. Vou afundando, esperando uma besta marítima qualquer me devorar as pernas, o tronco e toda a porcaria.

Há dois instantes. Eu tento agarrar o vazio. A matéria. Eu tento assoprar um cata-vento como criança colorida. Eu tento fazer o tudoir à direção contrária só para deixar seu rosto livre de falsas correntes. Existem, pelo menos, duas ou três gotas de agua por dentro e fora. Eu, dentro, afogando-me em desespero e idéias semiconscientes de loucura e pseudopaixões. Não digo nunca a que vim. Desperto certos sentimentos inócuos e pouco obstinados que, breves, são seguidos pela sensação indiferente e asquerosa do temor.


Acontece sempre nos tempos de muita chuva. Os marinheiros do silencio a resgatar-me em nuvens roxeadas, pouco cinzas. Como faço há tempos, tenho impressões de dias chuvosos guardadas na memória e as uso sempre que posso. Sou tragado pelo feliz, pelo mordaz e pela ferocidade com a qual meu corpo sente tudo e dissolve tudo em forma de vento colorido.

Acontece nos tempos de muita chuva. Os olhos encharcados de honestidade. O meu olhar de encontro com uma guerra futura.
Vem do fundo do mar para lembrar que é no silencio, na mudez e na falta do que falar que podemos
enfim
dizer:

Tuesday, July 01, 2008

Marlon Brando

Foi apenas um instante. Talvez tenha durado mais do que hoje consigo recordar. Foi um ano estranho. Tudo parecia ter se erguido num falso jogo de vaivém. Os beijos eram insípidos, o sexo em grandes espaços de tempo. Eu ouvia Fiona Apple e tentava escrever sobre as coisas da vida. Eu estava sozinho. Sozinho diante de tanta coisa que ia e vinha, sem que eu pudesse notá-las. Eu escrevia poemas naquela época.

Foi apenas um instante. A transformação filosófica do mundo, das artes, e no geral eu acabei me reiventando. Comprei acessórios, mudei o guarda-roupa e comecei a usar Herchcovitch. Joguei o Adidas fora e comprei três pares de All Star. Troquei a Fiona pelo novo rock sueco, pelo eletrônico e pelo British Pop. Raspei o cabelo e aposentei a poesia. Foi um ano estranho. Me apaixonei por diferentes perfis. Todos errados. As paixões inócuas, tão companheiras. Foi fácil passar aquele ano. Troquei o All Star e mudei para outro estilo.

Foi apenas um instante. Troquei as caveiras e passei a usar T-shirt Hering. Joguei fora as sandálias. Só óculos escuro Ray-Ban. Mas ainda lia Nietzsche, Foucault e Aristóteles. Sempre na bolsa, tratados de literatura, poesia e pintura. Eu hoje, gosto de origami. Eu ouço música romena e nunca mais assisti filme nacional. Foi um instante naquele ano em que tudo pareceu mudar. Passei a recusar arte renascentista, para apreciar arte contemporânea de Tim Eitel e Cecily Brown. Foram muitas informações que acabei deixando de lado, como o meu diário e o gosto por cinema americano. Eu li e reli alguns livros e vendi o resto num sebo de Pinheiros. Comprei um I-pod e dei meu discman para meu irmão. Eu ainda ouço, naqueles mesmos fones brancos outras músicas. Foi apenas um instante. Será que eu mudei ou tudo, subitamente, se transformou? Eu ainda sou adorador do Marlon Brando e continuo com a certeza de que não existirá outro homem como ele, assim como ninguém nunca mais terá o mesmo olhar de Bette Davis. Mas eu troquei a Noviça Rebelde por Kubrick e hoje aprecio David Lynch a John Ford.

Naquele ano eu pensei que o amor podia ser uma fonte de inspiração. Tornei-me o pior. Fiz de mim, uma sombra e foi quando eu descobri que se era daquele jeito, não era o tal amor. Foi um instante. Aquele ano em que tudo acabou. O que sobrou foi, talvez, uma ou duas fotos.
Eu ainda raspo o cabelo. Não da mesma forma. Raspo dos lados com máquina dois e deixo maior em cima com a três. Eu sou uma soma de tudo o que aconteceu naquele ano. Acabei subtraindo tantas pessoas, gostos, vontades. E hoje tornei-me exatamente aquilo que eu queria ser, sem mais nem menos. Fui somado a tudo, a todos, e resultei nisso: um resumo daquele ano. Eu ainda vou continuar com o meu All Star, ouvindo certas músicas e com saudade de um tempo outro, com outras pessoas, mas hoje quem ficou, quem eu sou, o que sobrou é o que será de mim.

E tem uma letra do Phoenix que eu adoro que diz “guess I couldn't live without the things that made my life what it is.”

Monday, June 30, 2008

My buzzer goes

Um peso para o corpo, uma medida para o copo, um certo ar de quem sabe o que faz. O descanso necessário a partir de uma outra vontade maior. A vontade de simplicidade, de leveza, de tudo aquilo que me traz e dá esse sentido. A leveza e a simplicidade. Seja para o sorriso, para uma cor, um dia de chuva, uma espera no ponto de ônibus, o beijo quente, o primeiro cigarro do maço. Uma simplicidade multiplicada e replicada para todas as instâncias. Um peso para o corpo, um peso outro.
E será mesmo que tudo deve ser simples? Simples como um carinho, um vento, um espírito quebrado. Ah, mas as coisas podem ser somente leves, planando no alto do céu. São momentos. Viver de momentos. Alegrias, martírios, funerais, esperanças. Enterrar alguém é difícil. Por isso, devemos viver na simplicidade de tudo aquilo que é honesto, infantil e leve. Em tudo.


...

Friday, June 27, 2008

One more shot


Ontem eu disse: não consigo escrever. Não consigo alinhar idéias com palavras, com as linhas inócuas, com a vontade de transcrever um pouco de tudo.


Thursday, June 26, 2008

Fire and works

Eu escondo razões e motivos aparentes. Uso como desculpo o virtuoso caminho da facilidade do engano. Toda aquela comoção pelo sopro de vento, pelo levar e trazer. Um ritmo estranho, nada aparente. Eu escondo e facilito as vias do engano. O vôo secreto de uma águia já abatida.
Escondo os tiros, as faces ocultas e devoradoras de realidade e, em troca, devolvo tudo aquilo que sou transformado em pó. Pó estelar, talvez. Carrego nas costas um mundo de irrealidades e livros usados. Eu escondo razões para não ser ser feliz pelos olhos. Por vezes, deixo cair os ombros, tamanho é o peso de todas as escolhas reunidas num único saco natalino. Nada parece importar. As batidas do coração fortes, o pulsar gigantesco de uma fome voraz e a ansiedade, toda a ansiedade de um estado quase mágico.
Mato e escondo as possibilidades. Escondo no sorriso e na voz doce. Dou ao demônio um beijo na testa, traindo os céus, anjos e toda a porcaria reluzente. Sim, dou um beijo no demônio e ele me agradece com suaves toques e tapinhas nas costas. Sim, eu troco o fogo e o calor pelo frio e gélido ar das noites. Troco tudo. Durmo sem roupa para sentir frio e esquecer de tudo o que se passa ao redor do meu corpo. Esqueço tudo. Escondo tudo. Escondo num armário, num baú e embaixo da cama.
Transbordando, transbordado, os instantes e semelhanças se dissolvem na água do banho e estouram como bolhas de sabão. O virtuoso caminho do mais fácil.
Eu escondo, escondo o demônio atrás de mim.
E ele adora quando, suavemente, eu beijo sua testa.

Tuesday, June 24, 2008

Be extraordinary

Milhões de motivos. Todos sabem o quanto aqui repito a palavra "saudade" em suas variadas formas. Não é segredo o quanto certos pontos me tocam. São milhões de razões. Motivos fundados e intocáveis que me fazem acreditar ter saudade do que foi bom.
Não é segredo.
E essa saudade vem sempre acompanhada de um gole seco de entender, desmentir e desmistificar a própria realidade. Não quero ser demagogo com o passado e muito menos discorrer sobre as vicissitudes da vida, destino etc etc etc. São milhões de motivos para celebrar o calor do meu espírito quando todas as coisas das quais já falei me causam saudade. Saudade de tempo, de amor, de paixão, saudade de sexo, experimentação, saudade literária, musical, visual. É porque todas essas coisas me fizeram num sentido outro. Transformaram todo o universo, juntando estrelas e astros ao redor de uma planeta desconhecido que, aos poucos, foi tornando-se universo. Eu sou paralelo. Pareço que não, mas sou. Avesso ao vazio, ao anti-romantismo, à exacerbação do paraíso e mesmo do inferno. Não é segredo o quanto estou trancafiado. Milhões de chaves que se somaram no fechar. É como um cubo, eu diria. Um cubo mestre, cheio de espetáculos, lados obscuros de decepções, lados de pura alegria, os lados saudosos, os lados fantasiosos etc.
Não é segredo.
Não é segredo que desejo uma planta de casa desenhada no chão com velas, no topo de uma colina. Esse desejo de poder quebrar as minhas próprias barreiras, destrancar as portas e deixar entrar. Como uma casa, como o mar acolhe as estrelas, como o universo que deixa estar as estrelas e os astros.
Não é segredo do amanhã. Tudo, o passado, o presente a vida em si. Meu chão de estrelas e passados.
Não é segredo que amanhã eu posso tornar-me apenas uma poeira cósmica. Não é segredo.

Monday, June 23, 2008

Let´s call it off

Por dentro e fora, nas beiradas e nos cantos escondidos. Pelo centro de cada coisa, pelo sentido de tudo isso. Dentro e fora. Amanhã, como hoje, será um pouco diferente. Sem manias, sem peso, sem bigornas e estopins. Somente as plumas, a leveza do mar e o amanhecer sempre adiantado.
Por dentro e fora, na ponta dos pés, no olho inchado e no calor. Por dentro e fora. Pela esquerda e pela direita. Onde fomos parar? No riso coincidente, nas memórias literárias. Talvez seja um dos lugares para estarmos ontem e hoje. Nas minhas costas, aquele consolo de que tudo é passageiro, efêmero. O consolo de ainda vamos ter esse sentimento, dia após dia.
Ontem e hoje. Espreitamos em locais proibidos. Silenciei a razão, dei lugar a outra forma de esquecer a vida e celebrar uma pseudo-notoriedade dentro dos seus olhos. E nada combina melhor do que isso. Uma T-shirt branca estampada com letras grandes e pretas.
Aqui não sou eu.
Aqui não posso ser.

Sunday, June 22, 2008

Into the wild

Algo que muda. Algo que se transforma. Uma fome, uma ânsia e algo que se modifica. Algo sem motivo. Os motivos de outrora. Os motivos que fizeram algo mudar, como se não quisesse aquelas antigas sensações de estar sempre no meio do corte, cicatrizando e coagulando. A vontade de carnificina denunciada pelas pontas e beiradas dos dedos assume uma vontade particular e solitária. Se as vertigens parecem caminhar como parte do corpo é porque algo mudou. Prestes à mudar, talvez. Assim, sem aviso de chegado, em segundos tudo mudou. A fome pelos dedos, a fome pelo andar e pelas luzes semi-acessas do entardecer. Vermelhas, verdes, foscas e reluzentes. As pessoas vagando pelas ruas, umas conversando, outras rindo e muitas outras sozinhas caminhando no frio com o rosto rosado e de braços cruzados com medo do vento gelado.
Algo que muda. Aquele start incômodo de sentar-se no banco sem saber exatamente onde. A transformação pelo que foi. Soltar as amarras de um antigo animal selvagem e deixar os dentes à mostra. Essa é a vontade. Galopes de um cavalo solto na paisagem; a crista leve balançando solta no ar. Assim, simples como se poderia imaginar, algo muda em meio a um vaivém de vaidades, orgulhos e sentimentos passados. Aquele desgaste quase físico que clamou por uma estranha transformação atingiu o corpo e mobilizou-me diante de tudo: do quadro, da figura, dos rostos, da poesia, da melodia, de um dia, do frio, do calor, de anos, meses, dias, horas, minutos e segundos.
Algo que muda. Eterno enquanto dure a fobia pelo desagradável. Tantos nomes, tantas vezes que partiram aqueles rostos. Tantas vezes eu tentei me sufocar diante disso tudo, inclusive da mudança. Abdico do feliz conviver pacífico. Abdico de tudo. Uma única vez. Abdico da carne, do amor e das paixões violentas e desgastadas. Abdico de mim, do mundo e das vozes ocultas que me visitam ao anoitecer. Soma de todas as coisas, de todos os medos e de todas as vontades.
Volta. Meia volta. Algo muda.
Eu querendo escrever uma história e deixando que ela mesma viva, sem letras, sem regras, sem amarras. Na multidão algo tornou-se desespero. Enfim, uma única luz, vermelha ou verde, pôde se acender.
Algo muda.

Friday, June 20, 2008

To praise highly

Eu entendo pouco da psicanálise e dos mecanismos oníricos de defesa. Entendo menos do que gostaria. Meu conhecimento é como um guia de bolso comprado em um sebo por apenas alguns trocados. Mas eu entendo, entendo minhas sensações e brinco com todas. A perspicácia de entender um sonho, uma vontade semi nutrida de idéias toscas. Ah, é como se tudo isso, todas as coisas dentro de mim fossem uma bola rebatendo na parede – eu de um lado para outro.

A minha pseudo-psicanálise advém da leitura infantil de Kafka e Freud. Pudesse eu ter a habilidade de converter-me em pequenas moléculas para adentrar em minha mente e extrair, como um novelo, todas as linhas formadoras dos maus pensamentos. E quando sonho, aquele sonho indesejável, reconheço o momento de regurgitar a fome de você pela vaidade de continuar no caminhar e caminhar. Essas cores que me traz, essa vontade de colocar as mãos e os joelhos no chão, ficar de quatro, o calor experimental provocado pela adrenalina do seu cheiro, tudo isso, tudo isso é sintoma do pesadelo. E se até o gosto da sua boca ainda sinto, então é porque desaprendi as artimanhas da racionalidade. Tudo tornou-se passional. Meu corpo, para você, será sempre o estopim para uma incontrolável loucura; enquanto que eu espero pelo único momento do dia em que parecemos estar exatamente no mesmo lugar, nos meus sonhos.

Eu controlo vontades enquanto que pelos dedos escapa-me o destino fatídico. Ansioso, eu procuro o travesseiro e o tempo passa, lento, pesado e aquilo tudo não acaba, não acaba. Por um desses instantes, eu pego com a mão, e tento me perder. Deixar o controle disso tudo em mãos divinas. É quando levo um murro no peito, caio no chão e tudo recomeça. Pego a agulha e o novelo.

Teço meu destino em sapatinhos para o meu filho.

Teço você, em lã grossa, quente, colorida, eu teço-me em você. Eu me torno, eu sou o meu destino.

Thursday, June 19, 2008

Young folks

Um dia entre cortes, passos largos e o rosto levemente seco. O despertador atrasou, ou será que fui eu que demorei a entender que aquele estranho noise era do relógio e não do meu sonho? Dois comprimidos anti-vertigem, um sono pesado e um sonho estranho. Uma aliança, o mundo inteiro distante como se eu tivesse ido a uma viagem espacial, deixando pra trás toda quinquilharia e parafernalha que eu juntei ao longo dos anos. Uma viagem pelo foguete, junto ao espaço e duas alianças douradas.
um dia entre cortes e viagens espaciais. passos largos e um música zumbindo no ouvido.
Um dia em que o mundo, enfim, fez-se efêmero e mostrou-me o quanto sou frágil, como uma linha de lã...como eu também sou efêmero.

Wednesday, June 18, 2008

CInderela´s disease

O vaivém quase marítimo, o chacoalhar do barco, de um lado para outro, a paisagem estática, imóvel. Primeiro, vem o enjôo, depois a sensação de que o mundo parece ter parado de girar, enquanto que dentro, no nosso corpo, o mundo começou a girar mais forte.
O vaivém de sonhos, vontades e pensamentos tardios.
É sintoma. Labirínto. Sem saída. É tudo uma grande jogo, entra e sai. Eu, suado, com crise de labirintite.

Monday, June 16, 2008

Notice

Era como um astro, um corpo estelar, cheio de pontos reluzente, ora coloridos, ora translúcidos. Na frente de uma outra cena, de um outro caso, era um ponto entre tantos pontos já visto e re-visitados. Um sopro da antiga brisa. Era outono, ou outra estação qualquer do ano em que o ar parece mais leve. Essa sensação estelar de sentir, sentir tudo sobre todas as coisas, sobre o nada e o vazio, sentir pulsar cada milímetro do corpo como se fôssemos uma estrela cadente.

A ansiedade ficou como uma recordação que vemos no retrovisor – aos poucos, aquela imagem vai se afastando, ficando longe, pequena como uma lembrança vaga e rápida. Mas a paisagem não cessa, não pára e nem por nossa própria vontade. O partir, as malas prontas e aquele gosto pelo novo, pela estrela e pelo céu noturno coberto por tantas sensações díspares e pontiagudas. O novo que aproxima e torna-se ontem, como o hoje em que esperamos no banco, sentados, ver a estrela cair. O por vir daquela gota que escorre na janela, até atingir a borda.

Era como um astro, essa vontade de sempre ter malas e pés na porta. E olhar para o alto, mesmo quando é dia, sempre à procura daquele ponto, o ponto luminoso de uma estrela cadente.
Talvez seja assim, a sensação do novo, sempre o novo.